Os profissionais da saúde no Hospital Geral de Toronto, no Canadá, em 19 de abril de 2020, em meio à pandemia de covid-19 (Cole Burston / AFP)

Médico canadense afirma falsamente que a pandemia de covid-19 é uma “farsa”

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Artigos que mencionam uma série de declarações feitas pelo médico Roger Hodkinson, um dos “principais patologistas do Canadá”, sobre a pandemia do novo coronavírus ser uma farsa, foram compartilhados milhares de vezes nas redes sociais desde o último dia 19 de novembro. Hodkinson alegou que as máscaras e o distanciamento social são inúteis, em declarações refutadas pelas autoridades canadenses e por especialistas.

“PATOLOGISTA CANADENSE: ‘VÍRUS CHINÊS É A MAIOR FARSA JÁ PERPETRADA CONTRA UM PÚBLICO DESAVISADO’”, diz o título de um artigo compartilhado mais de 7,7 mil vezes no Facebook, segundo a ferramenta de monitoramento CrowdTangle.

Outros sites (1, 2) também publicaram as afirmações de Roger Hodkinson, que repercutiram igualmente no Twitter (1). As alegações viralizaram em outros formatos, como vídeo e foto, e o conteúdo foi enviado ao WhatsApp do AFP Checamos para verificação.

Captura de tela feita em 8 de dezembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Estas declarações também circularam em inglês, espanhol, polonês, croata e sérvio.

Durante uma teleconferência da Câmara Municipal de Edmonton, no Canadá, Hodkinson iniciou a sua fala comentando a proposta da localidade de ampliar o uso de máscara de proteção por meio de uma lei: “O que estou prestes a dizer será em uma linguagem simples e direta. É contranarrativa”.

“Há uma histeria pública totalmente infundada, impulsionada pela mídia e pelos políticos. É ultrajante. Esta é a maior farsa perpetrada contra um público inocente”, assinalou.

Contatado pela AFP, Hodkinson confirmou que era ele quem falava na teleconferência da Câmara Municipal de Edmonton e destacou: “Me mantenho firme em minhas declarações”.

Durante a sua fala, Hodkinson - que se apresentou como presidente de uma empresa da Carolina do Norte que vende testes de covid-19 e aparece como CEO de outras duas companhias que dão pareceres a advogados - fez alegações falsas ou que ainda não foram provadas, analisadas pela AFP a seguir:

“Isso deveria ser pensado como nada mais do que uma temporada ruim de gripe”.

Falso. Uma comparação do número de mortes pelas duas doenças mostra que, enquanto no Canadá 3,5 mil pessoas morrem de gripe por ano, mais de 12 mil já faleceram em decorrência da covid-19 em 2020.

A gripe comum, ou influenza, está ligada a doenças respiratórias que matam entre 290 mil e 650 mil pessoas no mundo a cada ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Canadá, ela mata cerca de 3,5 mil pessoas todos os anos.

A covid-19, por sua vez, já matou mais de 1,4 milhão de pessoas em todo o mundo, sendo 12 mil mortes apenas no Canadá.

O presidente da seção de Médicos de Laboratório da província de Alberta (oeste), Davinder Sidhu, assinalou que “isto [a covid-19] é mais do que uma simples gripe, é um novo vírus com o qual o nosso sistema imunológico não havia se encontrado antes”.

E acrescentou: “Nós ainda não temos conhecimento suficiente sobre como os sistemas imunológicos dos indivíduos irão responder, e muitas vezes os danos ocorrem através da nossa resposta imunológica a este vírus”.

Atualmente, Sidhu está conduzindo uma pesquisa na cidade de Calgary, em um estudo com base no Canadá, para descobrir se o plasma convalescente de pessoas que se recuperaram da covid-19 poderia ajudar outras que estão infectadas.

“A gripe teve mais de 100 anos de estudo e compreensão” comparada com o novo coronavírus, continuou.

O Checamos já verificou um conteúdo que afirmava falsamente que a gripe e a covid-19 eram a mesma doença.

“Máscaras são totalmente inúteis, não há nenhuma base de evidência para sua eficácia, seja qual for. [...] O distanciamento social é inútil porque a covid é propagada por aerossóis que viajam 30 metros ou mais antes de cair”

Falso. A transmissão do vírus ocorre, em sua maioria, por meio de gotículas de água, o que pode ser minimizado com o uso das máscaras e o respeito à distância mínima.

Uma análise publicada em 27 de junho de 2020 na revista The Lancet, e financiada pela OMS, revisou 176 estudos em 16 países sobre a eficácia dos equipamentos de proteção e do distanciamento.

A conclusão foi que “as políticas atuais de pelo menos um metro de distância estão associadas com uma grande redução na infecção, e distâncias maiores que dois metros são ainda mais eficazes”. E acrescentou que “o uso de máscaras faciais resulta em uma grande redução no risco de infecção”.

Um homem com máscara de proteção contra a covid-19 caminha em Moscou, em 26 de novembro de 2020 (Kirill Kudryavtsev / AFP)

As diretrizes da OMS costumam ser amplamente usadas como base das decisões dos órgãos de saúde.

Em 1º de dezembro pesquisadores da Mayo Clinic publicaram um estudo no qual constataram que o distanciamento físico de 0,9 metro é suficiente para diminuir a exposição a gotículas e que 1,8 metro reduz a quantidade destas a um nível mínimo. Além disso, em uma simulação de um manequim com e sem máscaras, concluíram que a medida mais importante para proteção contra a covid-19 é o uso de máscara.

O Health Canada recomenda o uso de máscaras para prevenir a propagação da covid-19 e o distanciamento de dois metros entre indivíduos, além de outras medidas sanitárias como a higienização das mãos e a redução de aglomerações.

Sidhu, que conduz o estudo sobre a covid-19 em Calgary, refuta a alegação de Hodkinson sobre as máscaras. “Isso faria sentido se as partículas do vírus não estivessem também presas a gotículas de água, que, na verdade, é o que fica retido na maioria das máscaras, evitando a propagação da doença”, disse.

Os aerossóis, mencionados por Hodkinson, são nuvens invisíveis de gotículas microscópicas emitidas durante a respiração ou em uma conversa. Menores que as gotículas emitidas em uma tosse ou um espirro, elas podem permanecer por mais tempo no ar e viajar mais longe.

Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos adicionaram os aerossóis a sua lista de formas de propagação do vírus. Mas a principal via de transmissão ainda são as gotículas respiratórias de indivíduos infectados que estão a menos de dois metros - o que torna o distanciamento social fundamental.

“Fique a pelo menos dois metros de distância dos outros, sempre que possível. Isso é muito importante para evitar a propagação da covid-19”, indica o CDC.

Um estudo publicado na revista Scientific Reports em setembro de 2020 considerou que as máscaras também são eficazes na redução de emissões de aerossóis.

“As máscaras cirúrgicas e os respiradores KN95 não ventilados, mesmo sem testes de ajuste, reduzem as taxas de emissão de partículas para o meio externo, em média, em 90% e 74% durante uma conversa ou tosse, respectivamente, em comparação ao não uso da máscara, corroborando sua eficácia na redução da emissão externa”, aponta a análise.

As máscaras de tecido, inclusive, ajudam a evitar a propagação da doença. Segundo Julian Leibowitz, professor de Imunologia Microbiana na Universidade do Texas A&M, “há múltiplas evidências de que até máscaras de tecido reduzem o risco de transmissão se a pessoa infectada ou a pessoa que ainda não foi exposta estiverem usando uma. Se ambas estiverem usando máscara, o risco é reduzido em cerca de 75 a 90%”.

O Checamos já verificou diversos conteúdos (1, 2, 3) sobre supostos prejuízos à saúde causados pelo uso de máscaras de proteção.

“Resultados de testes positivos não significam uma infecção clínica, estão simplesmente conduzindo à histeria pública e todos os testes devem parar, a menos que você esteja no hospital com problemas respiratórios”

Enganoso. Além de indicar a infecção no indivíduo testado, possibilita que este faça o isolamento e não transmita para outras pessoas.

Barry Pakes, professor assistente da Escola de Saúde Pública Dalla Lana da Universidade de Toronto, refutou a afirmação e destacou a importância da testagem.

Em e-mail à AFP, assinalou que “um teste positivo, a menos que seja um falso positivo, o que é raro, indica a possibilidade tanto de doença quanto de transmissão de infecção”.

Os testes PCR via swab pela garganta ou nariz têm uma taxa quase nula de falsos positivos, de acordo com um artigo que compara os diferentes tipos de testes disponíveis. Estes raros falsos positivos se devem, principalmente, à contaminação da amostra ou outros problemas relacionados ao laboratório.

Médica faz teste de detecção da covid-19 em Saint-Denis, no norte de Paris, em 4 de novembro de 2020 (Christophe Archambault / AFP)

Pakes afirma que qualquer pessoa com sintomas, assim como os que tiveram contato com alguém infectado, além dos indivíduos do grupo de risco, devem ser testados.

“Devemos testar absolutamente todos que possam estar infectados para que possamos fazer um rastreamento eficaz do contato e, então, as pessoas possam se isolar e diminuir a transmissão, e para que possamos entender melhor onde estamos na pandemia e como responder”, assinalou.

O Health Canada recomenda a testagem como forma de “encontrar e isolar as pessoas infectadas com a covid-19 para prevenir a propagação e evitar surtos” e para “saber quantos estão infectados, o que nos ajuda a entender o nível de risco em uma comunidade”. Em seu site, a agência federal explica a precisão dos testes e o que significam os resultados.

O Checamos já verificou (1, 2, 3) outras afirmações sobre os testes de detecção da covid-19.

“O que precisamos fazer é proteger os vulneráveis e dar a eles, nas casas de repouso que estão sob os seus cuidados, 3 mil a 5 mil UI de vitamina D todos os dias, que vem demonstrando diminuir radicalmente as chances de infecção”

Sem provas. Apesar de existirem estudos que associam a deficiência de vitamina D com a piora de pacientes infectados pela covid-19, outros apontam para uma possível toxicidade da substância quando ingerida em excesso.

O meio científico ainda não estabeleceu a eficácia da vitamina D contra a covid-19. Há pesquisas em andamento, mas a deficiência de vitamina D tem sido associada a uma maior chance de mortalidade entre os pacientes com covid-19, segundo um estudo publicado na Scientific Reports.

“A deficiência de vitamina D aumenta consideravelmente a chance de ter uma doença grave após a infecção pelo SARS-CoV-2. A intensidade da resposta inflamatória também é maior em pacientes com covid-19 e que apresentam deficiência de vitamina D”, concluíram os autores, que recomendam suplementos desta vitamina para os grupos de risco.

Uma análise divulgada na The Lancet, por sua vez, estabeleceu uma recomendação de ingestão diária de vitamina D muito menor do que a sugerida por Hodkinson. Os autores sugeriram uma variação de 400 UI no Reino Unido, a 600-800 UI nos Estados Unidos, principalmente para a saúde muscular e óssea.

Outro estudo, publicado na revista Clinical Medicine, alertou que “há a chance de toxicidade da vitamina D. Consequentemente, a ingestão de mais do que o suplemento diário habitual só deve ser feita sob supervisão médica”.

Pakes, da Universidade de Toronto, indicou que “a vitamina D tem sido associada à proteção contra infecções graves, mas seu uso profilático está longe de ser baseado em evidências”.

Sidhu, pesquisador de Calgary, e Pakes concordaram que ainda há a necessidade de mais pesquisas.

Organizações canadenses se pronunciam na direção oposta

As alegações de Hodkinson enfrentaram uma resistência significativa das autoridades de saúde e de especialistas médicos.

O Ministério da Saúde de Alberta, província da qual Edmonton é a capital, se pronunciou sobre as afirmações. À equipe de checagem da AFP, o porta-voz do ministro da Saúde, Steve Buick, assinalou que a pasta “respeita as credenciais do Dr. Hodkinson como médico, mas discorda de sua avaliação da covid-19 e não aceita os seus conselhos em relação à resposta do governo à pandemia”.

E acrescentou que o ministério e o governo “continuam confiando nas recomendações da Dra. Deena Hinshaw, Diretora Médica de Saúde”.

O Alberta Health Services, sistema de saúde da província, tuitou em 23 de novembro que Hodkinson “não tem uma afiliação formal” com as autoridades de saúde e pediu que as pessoas sigam as diretrizes provinciais.

A Associação Médica de Alberta também fez uma publicação em sua conta no Twitter no mesmo dia: “a Seção de Médicos de Laboratório de Alberta não compartilha nenhum dos pontos de vista do indivíduo em questão”, que é patologista. O grupo acrescentou que “endossa o uso de máscaras, a higiene das mãos e o distanciamento social, juntamente com as outras medidas de saúde pública para evitar a propagação da covid-19”.

O Royal College, onde Hodkinson foi qualificado, também se distanciou das afirmações feitas pelo patologista. Em uma declaração, indicou: “O Royal College apoia fortemente todas as recomendações de saúde pública feitas pelo Diretor de Saúde Pública do Canadá, incluindo a prática de distanciamento social e o uso de máscaras para prevenir a transmissão de covid-19”.

Hodkinson disse que o Conselho Municipal estava sendo “conduzido por um caminho errado” por Hinshaw e pediu que a província reabrisse “amanhã”.

Até o dia 8 de dezembro, Alberta registrava o maior número de casos ativos de covid-19 no país - mais de 20 mil. Em 24 de novembro, a província proibiu reuniões sociais nas casas como parte de restrições mais rígidas, incluindo a exigência do uso de máscaras, embora profissionais da saúde ainda acreditem não ser o suficiente.

Em resumo, as afirmações feitas pelo médico Roger Hodkinson durante uma teleconferência da Câmara Municipal de Edmonton são enganosas. Diferentemente do que o patologista alegou, as máscaras e o distanciamento social têm se mostrado eficazes para evitar a propagação da doença. Os testes de detecção da covid-19 são importantes em termos estatísticos e de isolamento; e ainda são necessários mais estudos para definir se a ingestão de vitamina D impacta, de fato, na resposta dos pacientes que foram infectados pelo novo coronavírus.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
CORONAVÍRUS