Funcionários do Hospital Brescia, em Lombardia, na Itália, examinam paciente em 13 de março de 2020 (Miguel Medina / AFP)

Coronavírus e gripe não são a mesma coisa

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Tosse, dores, febre… Apesar de terem sintomas similares, é um erro pensar que a doença provocada pelo novo coronavírus, a COVID-19, não é nada além de uma gripe, como afirmam publicações encontradas nas redes sociais. A COVID-19 é mais mortal, pode afetar grupos mais amplos de pacientes quando grave e ainda não pode ser prevenida com uma vacina, advertem especialistas.

“Todo mundo fala sobre o coronavirus e que tá agora no mundo todo MAS NINGUÉM FALA A VERDADE QUE EH QUE ELE NÃO MATA TANTO ASSIM SÓ PESSOAS COM SAÚDE MT FRÁGIL IGUAL A GRIPE QUE SACO FICA BOTANDO PÂNICO EM TODO MUNDO PRA NADAA [sic] e “Vcs tbm acham o Corona Vírus um surto coletivo? Tipo, eu entendo que a contaminação é alta pq é fácil igual a gripe, mas a taxa de mortalidade é bem baixa comparada a outras doenças que tem surtos maiores! E as pessoas estocando tudo em casa já. Acabando com o mercado [sic], foram algumas das publicações vistas no Twitter (1, 2)  a respeito da COVID-19, doença provocada pelo novo coronavírus e suas similaridades com a gripe.

Captura de tela feita em 16 de março de 2020 no Twitter

Em 3 de março, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, explicou em uma entrevista coletiva que tanto a gripe como o novo coronavírus causam mal-estar respiratório e se propagam da mesma forma.

No entanto, enfatizou algumas de suas diferenças: “A COVID-19 se propaga de forma menos eficiente que a gripe, a sua transmissão não parece ser impulsionada por pessoas que não se encontram doentes, a doença que causa é mais grave do que a gripe, ainda não existem vacinas nem tratamentos contra ela e a contenção é possível, razão pela qual devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para contê-la”.

Mortalidade

A COVID-19, doença provocada pelo novo coronavírus, mata aproximadamente 3,5% dos pacientes diagnosticados, com diferenças de acordo com o país. Esta cifra é maior do que a da gripe, que mata “1 em cada 1.000 pacientes infectados”, ou seja 0,1%, segundo as estimativas do Centro Europeu para a Prevenção e o Controle de Doenças (ECDC, pela sigla em inglês).

É importante considerar que a suposta taxa de mortalidade do novo coronavírus deve ser analisada com cautela, já que não se sabe quantas pessoas realmente foram infectadas. Muitos pacientes parecem desenvolver poucos, ou nenhum sintoma, o que pode significar que o número de pessoas de fato infectadas pode ser maior e, portanto, a taxa de mortalidade diminuiria.

“Ainda há grandes incógnitas sobre a taxa de mortalidade da COVID-19 e, provavelmente, varia em função da qualidade dos sistemas de saúde. Encontra-se perto de 2%, em média, aproximadamente mais que os vírus da gripe sazonal que circulam atualmente”, explicou o professor François Balloux, da University College de Londres.

Formas graves

Para além das taxas de mortalidade, os especialistas temem que as formas mais graves da COVID-19 possam afetar mais pessoas do que a gripe, inclusive quando em ambos os casos a idade e a presença de outras doenças - cardíacas, respiratórias, etc - são fatores de risco.

A COVID-19 “não é uma simples gripe, pode se manifestar de forma grave em pessoas não tão mais velhas”, indicou o diretor-geral de Saúde da França, Jérôme Salomon.

A análise mais atualizada até esta data, que abarcou 45 mil casos confirmados na China, demonstrou que a mortalidade aumenta consideravelmente com a idade: de 0,4% para aqueles que estão na faixa dos 40 anos e de 14,8% entre os maiores de 80 anos.

Segundo outro estudo chinês, entretanto, feito com menos pacientes (1.099), 41% dos casos graves foram registrados em pessoas de entre 15 e 49 anos, e 31% naquelas entre 50 e 64 anos. Enquanto isso, entre menores de 14 anos foi registrado 0,6% de casos graves, e entre maiores de 65, foram 27%.

“É verdade que quanto mais velhos somos, mais frágeis somos e estamos expostos a formas mais graves. Mas isso também pode ocorrer com pessoas relativamente jovens que não têm patologias crônicas”, acrescentou o diretor de Saúde francês.

Contágio

Os especialistas parecem concordar que cada paciente infectado com a COVID-19 pode levar ao contágio de duas a três pessoas se não forem tomadas medidas para combater a epidemia (esta é conhecida como “taxa de reprodução básica da doença”, ou R0).

A COVID-19 é, portanto, mais contagiosa do que a gripe, que tem uma taxa de infecção estimada em 1,3 pessoas.

Sem vacinas, ou tratamentos

“A gripe já conhecemos há 100 anos e já estudamos muito bem [...] Agora estamos diante de um vírus que se parece com a gripe em alguns sintomas (dor de cabeça, febre), mas há grandes diferenças”, assinalou Jérôme Salomon.

Uma das diferenças é que “não há proteção” contra a COVID-19, continuou. “Não há vacinas, nem tratamentos” e as pessoas não estão naturalmente imunizadas contra este novo vírus, com o qual o seu corpo não havia se encontrado antes.

Lidar com esta nova infecção implica tratar os sintomas. Alguns pacientes receberam antivirais, ou outros tratamentos experimentais, mas a suas eficácias ainda estão sendo avaliadas.

Sobre a vacina, apesar das pesquisas em curso, não haverá nada pronto dentro de vários meses.

Mesmo que houvesse uma vacina, esta teria que ser aceita pela população devido ao crescente contexto de desconfiança com este tipo de imunização. As autoridades de saúde mundiais lamentam o número insuficiente de pessoas vacinadas contra a gripe, cuja eficácia varia segundo o tipo de vírus que está circulando.

Gestos importantes

O vírus da gripe e da COVID-19 têm ao menos um ponto em comum: a nível individual, a sua propagação pode ser evitada da mesma maneira.

Estas são as chamadas medidas de proteção: evitar dar as mãos e se beijar; lavar as mãos frequentemente; tossir ou espirrar cobrindo o rosto com a parte interna do cotovelo, ou com um lenço descartável; e usar uma máscara se estiver doente.

Estes gestos de higiene costumam ser ignorados apesar da sua eficácia contra diversas infecções sazonais, como gripe, resfriado, gastroenterite, bronquite, entre outras.

“Você sabia que 2 em cada 10 pessoas não lavam as mãos depois de ir ao banheiro? E que apenas 42% das pessoas cobrem a boca com o cotovelo, ou com um lenço descartável, ao espirrar, ou tossir?”, assinalou o Ministério da Saúde da França há dois anos em sua campanha “Inverno sem vírus”.

A AFP já verificou dezenas de desinformações sobre o novo coronavírus que podem ser conferidas aqui.

AFP Brasil