As máscaras cirúrgicas não fazem com que o usuário respire o próprio CO2, segundo especialistas

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Uma imagem compartilhada mais de 2 mil vezes nas redes sociais desde meados de maio assegura que as máscaras cirúrgicas impedem a oxigenação pulmonar e levam o usuário a respirar os seus resíduos respiratórios, entre outros problemas. A maioria destas afirmações, contudo, é falsa, de acordo com os especialistas consultados.

“Respira teu próprio CO2 gás carbônico. Impede a correta respiração. Produz sensação de asfixia. Provoca hiperventilação”, são algumas das afirmações que acompanham a imagem de uma máscara cirúrgica, compartilhada ao menos desde o último dia 14 de maio.

“MAIS UMA VEZ EU ALERTO PARA O PERIGO DO USO DAS MASCARAS [sic], “Por isso só uso quando sou obrigado!” e “Não há qualquer comprovação definitiva da eficácia do uso de máscaras em larga escala contra o coronavírus. [...] A medida é mero experimento de controle social. Nada além”, escreveram alguns usuários, que compartilharam a publicação no Facebook (1, 2, 3, 4), no Twitter (1, 2) e no Instagram (1).

Captura de tela feita em 26 de maio de 2020 de uma publicação no Facebook

A mesma imagem circulou em espanhol (1), sendo compartilhada mais de 20 mil vezes no Facebook.

No contexto da pandemia de COVID-19, as autoridades de Saúde de alguns países instruíram o uso obrigatório de máscaras em locais públicos, ou onde houvesse aglomerações.

Neste mês de maio, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que exige o uso de máscara em todo o país enquanto durar emergência do novo coronavírus para circulação em espaços, vias públicas e transportes públicos. O Senado ainda precisa aprovar a proposta, que também prevê a aplicação de multa.

Em abril, a cidade do Rio de Janeiro já havia adotado o uso obrigatório de máscaras por meio de um decreto, bem como o estado de São Paulo.

A equipe de checagem da AFP verificou as afirmações da publicação:

1. Respira seus resíduos expelidos e o próprio CO2. Falso

Os especialistas consultados explicaram que os poros das máscaras cirúrgicas permitem a troca gasosa e, portanto, a saída das partículas de dióxido de carbono.

O médico e acadêmico de Saúde Pública da Universidade Autônoma do México (UNAM) Daniel Pahua disse que ao utilizar estas máscaras não se respira nenhum resíduo significativo, nem CO2: “No caso da imagem, que é uma máscara apenas para partículas, e não gases, [os resíduos] não se acumulam no interior porque há muitos pontos de fuga ao redor”.

Concordou com ele o docente do programa de Fisiopatologia da Universidade do Chile, Emilio Herrera: “Nossos resíduos respiratórios são gases com partículas muito pequenas que atravessam a máscara. O principal resíduo é o dióxido de carbono, cujas partículas também atravessam-na e não se acumulam”.

Além disso, o epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde da Colômbia, Carlos Pinto, acrescentou que as máscaras como as vistas na imagem têm a função de filtrar gotas de saliva e mucosidade, “mas ainda permitem que o ar flua. Respirar CO2 em excesso é perigoso para o corpo. Contudo, as pessoas que usam máscaras de proteção cirúrgicas, ou de tecido, não correm nenhum perigo”.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em sua seção destinada a instruir como usar máscaras, explica em quais casos elas devem ser utilizadas e como colocá-las e tirá-las. Entretanto, não há nenhuma advertência sobre o suposto perigo de inalar dióxido de carbono (CO2). 

2. Produz a síndrome de hipercapnia. Falso

A hipercapnia é o aumento de dióxido de carbono no sangue e afeta principalmente as pessoas com doenças respiratórias. Esta síndrome faz com que o pH do sangue se torne mais ácido, o que dificulta a entrada de oxigênio no sangue.

O professor da UNAM Pahua assinalou que o uso da máscara por si só não deriva em uma hipercapnia, “a menos que o paciente tenha um problema funcional, mas aí não seria pelo uso das máscaras”.

De acordo com esta verificação feita pela AFP, o Departamento de Controle de Doenças da Tailândia - onde também foram divulgadas publicações associando as máscaras à hipercapnia - indicou por meio desta infografia que não há evidências sobre uma variação de pH no sangue pelo uso prolongado de máscaras.

O Hospital Thonburi de Bangcoc também descartou que este uso derive em uma alteração do pH no sangue.

“É impossível [que a hipercapnia ocorra] em uma pessoa saudável e consciente”, assegurou Herrera, da Universidade do Chile. “A única coisa que causa é a depressão ventilatória”, ou seja, respirar menos do que deveríamos a ponto de acumular CO2, explicou o médico.  

O epidemiologista Pinto, por sua vez, afirmou que não existem evidências que avalizem esta afirmação, “porque [as máscaras] não são completamente ajustáveis ao contorno facial e é pouco provável que o público em geral utilize a máscara durante um período prolongado, que não seja por curtos períodos fora de casa”.

Bailarina usa máscara durante ensaio no Teatro Bolshoi de Belarus, em Minsk, em 27 de maio de 2020

3. Impede a oxigenação pulmonar. Falso

Por serem fabricadas com material poroso, as máscaras como as da imagem viralizada permitem a entrada e saída de ar, explicaram os especialistas consultados.

Herrera, da Universidade do Chile, negou que o uso deste tipo de máscara - cirúrgica - e de outras máscaras certificadas gerem problemas respiratórios e de oxigenação: “A respiração é feita livremente. Só é dificultada quando há o aumento do espaço morto, que é um espaço onde não se faz a troca. Isto aconteceria colocando um tubo, ou uma mangueira”.

O médico Carlos Pinto também indicou que as máscaras cirúrgicas são suficientemente porosas “a fim de permitirem a passagem de moléculas de gás, como o CO2 e o oxigênio, e não prejudicam significativamente a troca de gases ao ponto de causar problemas de saúde”.

Pahua, da UNAM, concordou que as máscaras não obstruem a respiração.

4. Provoca hiperventilação. Falso

A hiperventilação é o aumento na frequência respiratória. “Isso acontece quando temos hipóxia e/ou hipercapnia”, escreveu Herrera em resposta à equipe de checagem da AFP, referindo-se à falta de oxigênio em um determinado tecido e ao acúmulo de CO2, respectivamente.

Como já verificado, especialistas consultados descartaram que o uso de máscaras cause hipóxia.

Naquela ocasião, o médico Claudio Méndez indicou que enquanto as máscaras permitirem a circulação do ar, não deve haver problemas: [o uso do modelo] N95 não costuma ultrapassar as sete horas. No caso das máscaras cirúrgicas, são usadas por menos tempo. Ambas estão longe de causar hipóxia”.

O médico Pahua, por sua vez, afirmou que nesta publicação há uma contradição importante: “Na imagem é dito que [a máscara] provoca hiperventilação e depois hipercapnia por falta de ventilação pulmonar. Ou seja, primeiro diz que respira demais, e depois diz que respira mal”.

A angústia também pode fazer com que uma pessoa hiperventile, continuou Pablo Toro, psiquiatra da Universidade Católica do Chile. “Mas é pela angústia, não pela máscara. Quando os centros cerebrais associados à angústia são ativados, um dos sintomas é a falta de ar. Então, a frequência respiratória é acelerada e a respiração é feita mais profundamente”, acrescentou.

5. Produz a sensação de asfixia?

Os médicos consultados concordaram que os usuários de máscaras podem ter uma sensação de asfixia, ou falta de ar, o que não significa uma asfixia real.

“É mais uma sensação de falta de ar, mas é porque não estamos acostumados. Nas indústrias, o uso de máscaras médicas, ou as N95, ocorre durante o dia inteiro de trabalho e não há problema”, assegurou Pahua.

Carlos Pinto, do Instituto Nacional de Saúde de Colômbia, por sua vez, explicou: “É verdade que usar uma máscara pode ser chato e incômodo, mas a solução não é deixar de usar essa proteção. Se estiver sentindo falta de ar, você deve considerar outras causas possíveis, como um ataque de pânico, que pode desencadear sensações repentinas de asfixia e falta de ar”.

O psiquiatra Toro indicou que essa sensação pode ocorrer, inclusive, sem as máscaras: “Uma pessoa muito angustiada pode desenvolver a sensação de asfixia, inclusive sem máscara. Não é que ela esteja sem ar, mas ela tem essa sensação”.

6. Intoxicação por micropartículas do material. Falso

Os médicos consultados pela equipe de checagem da AFP descartaram que exista um risco de intoxicação pelo material das máscaras cirúrgicas.

Herrera, da Universidade do Chile, afirmou que as máscaras certificadas não deveriam dar problemas: “Existem dois tipos de máscaras: as certificadas, que cumprem com os requerimentos, e certificados ISO. Essas não deveriam dar nenhum problema. Se pensarmos nas máscaras caseiras, poderiam usar um material que dê problemas, mas por essas não posso me responsabilizar”, explicou em uma conversa por telefone com a AFP.

O médico da UNAM, Pahua, também desconsiderou uma suposta intoxicação ao usar máscaras cirúrgicas, e fez uma advertência sobre as caseiras: “Devem ser usadas de empresas registradas e elaboradas sob as normas oficiais”.

Carlos Pinto, do Instituto Nacional de Saúde da Colômbia, explicou por escrito à AFP que as máscaras “geralmente são fabricadas com tecido não tecido de polipropileno e poliéster e/ou tecido pelon de espessura média. É pouco provável que a partir deste tipo de material se desprendam partículas tóxicas para o ser humano”.

A COVID-19 e as máscaras

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos recomenda o uso de máscaras para evitar a propagação do vírus. Contudo, indicam que as máscaras cirúrgicas e N95 devem ser reservadas às equipes de Saúde e aconselham a proteção de tecido para o uso cotidiano. Para isto, sugerem usar tecidos de algodão e lavá-las “rotineiramente, segundo a frequência de uso” em uma máquina de lavar.

O Ministério da Saúde brasileiro também emitiu orientações neste sentido, indicando que as mesmas devem ter “pelo menos duas camadas de pano” e “podem ser feitas em tecido de algodão, tricoline, TNT ou outros tecidos, desde que desenhadas e higienizadas corretamente”.

Há, inclusive, um manual para a confecção correta das máscaras de proteção elaborado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com as indicações gerais do que chamam de “máscaras faciais de uso não profissional”.

Até 27 de maio, o mundo já havia registrado mais de XX milhões de pessoas infectadas desde o início do surto da COVID-19, e mais de XX mil falecidos, de acordo com os registros da AFP com base em fontes oficiais.

Em resumo, a maioria das afirmações presentes nas imagens viralizadas é falsa. Segundo os especialistas consultados, não é verdade que uma máscara cirúrgica impeça a oxigenação pulmonar, ou leve o usuário a respirar os seus resíduos respiratórios. Embora realmente existam pessoas que sentem uma sensação de asfixia ao utilizá-las, as máscaras não impedem a respiração do seu usuário.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

 
Valentina De Marval
AFP Brasil
CORONAVÍRUS