A passagem de poeira não significa que as máscaras cirúrgicas são ineficazes contra o novo coronavírus

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Publicações compartilhadas centenas de vezes em redes sociais desde o final deste mês de julho sugerem que a máscara cirúrgica não é eficaz contra o novo coronavírus porque ela deixaria passar, por exemplo, partículas de poeira maiores. A alegação é falsa. Múltiplos especialistas explicaram à AFP que a máscara não precisa ser 100% hermética para ajudar a reduzir a propagação do vírus que provoca a COVID-19 e que ela é capaz de frear a transmissão filtrando as gotículas respiratórias.

“Dispositivo médico de classe II: máscara facial de prender na orelha. Cada partícula desta poeira tem 10 microns. O coronavírus tem 0,125 microns. Alguma pergunta?”, diz um meme compartilhado mais de 500 vezes no Facebook (1, 2, 3) e no Twitter desde o último dia 25 de julho.

O texto acompanha duas imagens de um homem com uma máscara cirúrgica no queixo e o rosto coberto de poeira branca.

Captura de tela feita em 30 de julho de 2020 de uma publicação feita no Facebook

“Essa "poeira" é o pó de gesso (dimensões alegadas, quase 100 vezes maior que a partícula viral) que a máscara cirúrgica industrial (aquela comunzinha de prender na orelha) não consegue filtrar. Senão filtra o 10, não pode filtrar o 0,1!!!”, escreveu uma internauta ao compartilhar o meme no Facebook.

A alegação circulou de maneira semelhante nos Estados Unidos e na França, com versões diferentes do tamanho das partículas de poeira ou do vírus.

Eficácia da máscara

No entanto, “uma máscara não precisa ser 100% eficaz para ter um efeito significativo na redução da epidemia”, avaliou o virologista Dr. Benjamin Neuman, chefe do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade do Texas A&M, quando consultado pela equipe de checagem da AFP.

“Há bons estudos agora mostrando que uma combinação de máscaras artesanais e cirúrgicas é eficaz para reduzir consideravelmente a propagação da COVID-19”, acrescentou.

Dr. Julian Leibowitz, professor de Imunologia Microbiana na mesma universidade, concorda: “Há, agora, múltiplas evidências de que até máscaras de tecido reduzem o risco de transmissão se a pessoa infectada ou a pessoa que ainda não foi exposta estiveram usando uma. Se ambas estiverem usando a máscara, o risco é reduzido em cerca de 75-90%”

Além disso, para Jean-Michel Courty, professor de Física da Sorbonne e pesquisador no laboratório Kastler Brossel, não é pertinente comparar a poeira com o vírus, como fazem as publicações.

“Quando usamos uma máscara cirúrgica, há uma parte do ar que passa pelas bordas da máscara, é o que chamamos de vazamento, mas isso não quer dizer que a máscara não é eficaz. O pó de gesso que vemos nestas fotos claramente não passou pela máscara, mas por estes vazamentos”, explicou à AFP em 23 de julho.

Para o pesquisador, seria necessário medir a quantidade de poeira presente sob a máscara e comparar com quanto havia no ar, já que “mesmo que vejamos o pó, isso não quer dizer que uma parte não foi filtrada”.

Edouard Kierlik, diretor do Departamento de Física da Sorbonne, destaca, além disso, que a máscara filtra uma porcentagem do que está no ar. “Se você está em uma atmosfera com uma quantidade enorme de poeira ou de vírus, mesmo se você filtrar 90% você vai inalar uma grande quantidade poeira ou de vírus. Nada garante nesta foto que a pessoa não estava sob uma nuvem de pó de gesso!”.

Ele lembra, também, a importância de ajustar adequadamente cada máscara, dobrando a haste flexível sobre o nariz para que a máscara fique o mais hermética possível.

Tamanho da partícula viral e da poeira

“Além disso, o tamanho da partícula viral é irrelevante. É o tamanho das gotículas que contêm o vírus que conta”, destacou o professor de Imunologia Microbiana Leibowitz.

Como explicou Benjamin Neuman à AFP, o coronavírus mede cerca de 100 nanômetros, enquanto “as gotículas respiratórias, que são as melhores candidatas para disseminar o coronavírus, variam em tamanho chegando a até 20 micrômetros (20.000 nanômetros)”, um tamanho significativamente maior do que os “10 microns” - também chamados de micrômetros - atribuídos à poeira nas postagens viralizadas.

“As máscaras podem oferecer proteção, mesmo bloqueando apenas as gotículas maiores” e a ideia é “usar tudo aquilo que estiver disponível a todos para bloquear o maior número possível de gotículas respiratórias”, destacou o virologista.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam o uso das máscaras tanto para evitar o contágio do novo coronavírus, quanto para evitar a transmissão da doença. No Brasil, seu uso é obrigatório a nível nacional desde 3 de julho.

Em resumo, é falso que a passagem de poeira prove que o uso de máscaras é ineficaz para reduzir a propagação do novo coronavírus. Como explicaram múltiplos especialistas à AFP,  a capacidade de filtragem da máscara não precisa ser total para que o método seja eficaz. Além disso, a comparação entre o tamanho das partículas de poeira com o da partícula viral não é pertinente, já que a máscara é usada para filtrar as gotículas respiratórias que podem carregar o vírus.

 
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