Delcy Rodríguez não disse que a Venezuela firmou um convênio com o coronavírus, é uma montagem

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Um vídeo em que a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, diz que seu governo firmou “um convênio” com o vírus que causa a covid-19 e que, por esta razão, será possível sair às ruas sem “problema de contágio” durante uma semana foi visualizado mais de 115 mil vezes em redes sociais desde 23 de novembro. O vídeo é, no entanto, uma montagem. O aúdio original foi editado para fins satíricos.

“Bom dia, de acordo com o que decretou o presidente [essa] corresponde à semana livre, o vírus será pausado a partir de amanhã, até o domingo. Ou seja, vocês estão livres, podem sair às ruas, não vão ter problemas de contágio, nem nada, porque eles firmaram um convênio com esse vírus”, diz uma voz em espanhol, supostamente da vice-presidente, enquanto o vídeo mostra Rodríguez falando com a imprensa usando uma máscara facial.

“Na Venezuela, Nicolás Maduro fez um ‘acordo’ com o vírus e o povo vai ter uma semana inteira livre, sem lockdown. Repito, para você que não entendeu: Maduro fez ‘acordo’ com o vírus. Duvida? Aperte o play”, diz uma das publicações, compartilhadas mais de 2.500 vezes no Facebook (1, 2, 3), Instagram (1, 2, 3) e Twitter (1, 2, 3). 

Captura de tela feita em 1º de dezembro de 2020 de uma publicação no Twitter

O conteúdo também circulou amplamente em espanhol e, no Brasil, foi compartilhado inclusive pelo vereador e filho do presidente Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro.

Vídeo satírico

O vídeo viralizado possui a marca d’água “@zuricht94”. Uma busca no Google por esse usuário levou à conta no Twitter de César Moya, que se apresenta como um criador de “edições PRÓPRIAS” radicado na Suíça e acrescenta: “Se o regime disse, é falso”.

Contactado pela equipe de checagem da AFP nesta mesma rede social, o usuário confirmou que o vídeo é de sua autoria.

“Edito de tudo um pouco, mas me dedico mais a ‘trollar [...] Esse vídeo foi uma montagem que fiz para uma sátira”, disse. Moya acrescentou que publicou a gravação no Twitter, mas logo a apagou porque “saiu de controle”.

O criador do vídeo disse que a inspiração da sátira foi um vídeo de 22 de novembro em que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, assegurou que a semana do dia 23 a 29 de novembro seria a última de quarentena estrita, antes de uma fase de “flexibilização controlada e segura”.

Imagens originais

Um dos microfones vistos no vídeo tem a logo do canal Telesur. Uma busca no YouTube com as palavras “Delcy Rodríguez covid-19 Telesur” levou a uma reportagem de 13 de novembro de 2020 que informava sobre uma visita oficial à Rússia da vice-presidente, que aparece com a mesma roupa da gravação viralizada, para apresentar a Lei Antibloqueio da Venezuela.

Outra busca na mesma plataforma pelos termos, em espanhol, “Delcy Rodríguez Lei Antibloqueio Rússia”, limitada a conteúdos publicados na semana de 8 a 14 de novembro, permitiu localizar o vídeo original, publicado também em 13 de novembro pela agência de notícias cubana Prensa Latina.

A agência detalhou que Rodríguez visitou Moscou para apresentar a empresários russos a Lei Antibloqueio, uma medida aprovada recentemente pela Assembleia Constituinte venezuelana, com a qual o governo busca contornar as sanções dos Estados Unidos.

Depois, a vice-presidente falou à imprensa, agradecendo o governo russo por incluir a Venezuela nos países que conduzem ensaios clínicos da vacina Sputnik V.

No minuto 2:12 da gravação, Rodríguez diz, em espanhol: “Nós propusemos, fizemos a proposta de não somente, obviamente, comprar de forma maciça a vacina russa quando ela estiver disponível, mas de também ser um fabricante na Venezuela. Bom, estão as autoridades, nós neste momento vamos fazer uma visita à fabricante para falar de todos estes aspectos”, sem fazer qualquer referência a um “convênio” com o vírus, como alegam nas redes.

O fragmento desta declaração é o mesmo viralizado, mas a versão publicada nas redes sociais está desacelerada e cortada. A roupa da vice-presidente e daqueles que a acompanham são as mesmas, como visto abaixo: 

Comparação feita em 1º de dezembro de 2020 de vídeo viralizado publicado no Twitter (esquerda) e vídeo original publicado pela agência Prensa Latina no YouTube

Após a visita da delegação venezuelana à Rússia, o presidente Nicolás Maduro afirmou que o país firmou um acordo para comprar 10 milhões de doses da vacina Sputnik V contra a covid-19.

No início de outubro, a Venezuela já havia recebido uma remessa da vacina em desenvolvimento para a fase de ensaios clínicos, da qual participam cerca de 2 mil voluntários do país.

Além da Venezuela, outros países como os Emirados Árabes Unidos e a Bielorússia participam dos ensaios da vacina que, segundo a Rússia anunciou em 24 de novembro, tem eficácia de 95%.

Até 1º de dezembro de 2020, a Venezuela registrava 102.394 casos confirmados de covid-19 e 897 mortes pela doença.

Em resumo, é falso que a vice-presidente da Venezuela tenha dito que o país firmou um acordo com o novo coronavírus para que as pessoas pudessem sair às ruas durante uma semana sem risco de contágio. Trata-se de uma montagem satírica.

Tradução e adaptação
COVID-19 VACINAS