Atenção: esta lista com conselhos baseada em supostos “novos estudos do coronavírus” é enganosa

Uma mensagem na qual é apresentada uma série de recomendações para combater o novo coronavírus tem sido largamente compartilhada nas redes sociais desde fevereiro deste ano. A AFP entrevistou especialistas e comparou esta lista com as recomendações de autoridades de Saúde. Na realidade, grande parte das afirmações contidas na mensagem é falsa, ou não tem fundamentos científicos.

Quais são os sintomas do novo coronavírus? Como a doença é transmitida? Como se previne este vírus? Quais são os dados importantes? As mensagens compartilhadas asseguram conter respostas a estas perguntas, que seriam baseadas em “Novos estudos do vírus da pneumonia de Wuhan, ou coroa-vírus [sic].

Em português, as publicações foram compartilhadas, principalmente, no Facebook (1, 2, 3, 4, 5, 6).

Postagens semelhantes também circularam amplamente em francês e espanhol (1, 2). Enquanto isso, em inglês, uma versão ligeiramente diferente, citando 14 conselhos do “tio de um amigo” que trabalha no “Hospital de Shenzhen”, circulou no Canadá, Estados Unidos e Reino Unido.

A grande maioria destes conselhos, entretanto, é baseada em afirmações falsas, ou sem fundamento. Veja a seguir as explicações em detalhe:

“Se quando tem uma constipação, apresenta secreção nasal e esputo, não pode ser o novo tipo de pneumonia por coroa-vírus, porque este dá uma tosse seca sem secreção nasal. Esta é a maneira mais fácil de identificá-lo [sic]”

Falso. O novo coronavírus “pode causar congestão e secreção nasal, e esputo” porque “os sintomas são, primeiramente, similares aos de um resfriado clássico”, disse à AFP o professor Brandon Brown, epidemiologista da Universidade da Califórnia. Os ministérios da Saúde de Brasil e Colômbia também indicam que pode haver secreção nasal.

“É bom saber que o vírus de wuhan ou coroa-vírus não é resistente ao calor e morre a uma temperatura de 26 a 27°C [sic]”

Falso. “Não sabemos, atualmente, se o clima, ou as temperaturas, têm um impacto na difusão da COVID-19”, detalha o Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos em sua página na Internet, onde há conteúdo sobre as perguntas frequentes sobre o coronavírus. Também é impossível afirmar que o calor literalmente “mata” um vírus, como foi explicado pela equipe de verificação da AFP em um artigo anterior.

“Portanto, você precisa beber mais água quente (Como por exemplo, chá e infusões)”

Falso. A água quente, ou a frequência do consumo de água, não tem nenhum efeito sobre este vírus, segundo explicaram alguns especialistas à AFP em checagens recentes.

“Não há necessidade de mudar a temperatura da água que você bebe. A água potável sempre é importante, não apenas para o coronavírus”, acrescenta o professor Brown, da Universidade da Califórnia.

“O vírus é de um tamanho bastante grande (a célula tem um diâmetro de aproximadamente 400-500 nm), por isso qualquer máscara normal (apenas a de 3 m n95) deveria poder filtrá-la”

Falso. As autoridades de saúde francesas recomendam o uso de duas máscaras específicas: profissionais de saúde “em contato próximo” com os pacientes devem usar “uma máscara de filtro tipo FFP2”. As pessoas doentes e as pessoas em contato com pacientes de “risco moderado/alto” devem usar as máscaras antifluidos “cirúrgicas”.

O uso destas máscaras por parte da população que não está doente “não é necessário”, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O diâmetro da partícula do novo coronavírus, por sua vez, varia entre 60 nm e 140 nm, segundo um relatório publicado em fevereiro de 2020 por pesquisadores chineses no “The New England Journal of Medicine”.

“No entanto, quando alguém infectado espirra na sua frente, ele vai levar cerca de 3 metros (cerca de 10 pés) antes que caia no chão e já não voe, ou seja, esteja suspenso no ar”

Enganoso. A recomendação da OMS é manter ao menos um metro, ou três pés, de distância entre as pessoas, particularmente daquelas que estão tossindo, espirrando e com febre.

“Quando alguém com uma doença respiratória, como a infecção pelo 2019-nCoV, tosse, ou espirra, projeta pequenas gotículas que contêm o vírus. Se você estiver perto demais, pode inalar o vírus”, indica o organismo.

“Quando o vírus cai sobre a superfície de um metal, viverá durante pelo menos 12 horas. (...) O vírus pode permanecer ativo no tecido durante 6-12 horas”

Sem fundamento. As recomendações consultadas pela AFP não mencionam durações tão precisas da “vida” deste vírus. Não há como sustentar essa afirmação pela OMS, nem pelo CDC, ou pelas autoridades de saúde de França, Brasil, México, Chile e Colômbia.

“Não está claro quanto tempo o vírus responsável pela Covid-19 sobrevive nas superfícies, mas parece se comportar como outros coronavírus. Os estudos [e as informações preliminares sobre a Covid-19] tendem a mostrar que os coronavírus podem ter resistência nas superfícies durante algumas horas, ou vários dias”, explica a OMS.

Um estudo publicado por pesquisadores alemães no “Journal of Hospital Infection” em março de 2020 analisou a resistência de outros coronavírus, como os que causaram as epidemias de SARS ou MERS, similares ao Sars-Cov2, o vírus atual. Seus resultados, que podem ser conferidos na tabela abaixo, são significativamente diferentes das afirmações das mensagens viralizadas.

Captura de tela do estudo “Persistence of coronaviruses on inanimate surfaces and their inactivation with biocidal agents”
“O detergente normal para a roupa pode eliminar o vírus do tecido. Quanto à roupa de inverno que não requer lavagem diária, você pode colocá-la ao sol para matar o vírus”

Sim, mas. Para os pacientes com o novo coronavírus, a OMS recomenda a lavagem de lençóis e toalhas “na máquina de lavar com água quente (60-90°C) e sabão para roupa”. A OMS indica que “se não for possível lavar os lençóis na máquina, eles podem ser deixados de molho em água quente e sabão em um recipiente grande, usando um pedaço de madeira para retirá-los e evitando pingar”.

Se não dispuser de água quente, recomenda-se colocar de molho em uma solução de cloro a 0,05% durante cerca de 30 minutos. “Posteriormente, os lençóis devem ser enxaguados com água limpa e deixados ao sol até que sequem completamente”.

Quem realizar esta manipulação deve usar equipamento especializado como “luvas resistentes, máscara, proteção para os olhos (óculos ou máscara protetora), blusa de manga comprida, avental (se a blusa não for impermeável) e botas, ou outro calçado fechado”.

Estes dois documentos contêm informações adicionais sobre boas práticas para a limpeza do entorno.

“Primeiro [o vírus] infecta a garganta, depois na garganta sente-se uma dor seca que dura de 3 a 4 dias. Depois, o vírus funde-se com o líquido nasal e ao pingar na traqueia, entra nos pulmões, causando a pneumonia de wuhan. Este processo dura de 5 a 6 dias”

Falso. Segundo o CDC e a OMS, os principais sintomas do coronavírus seguem sendo febre, tosse, falta de ar e dificuldade para respirar.

Alguns pacientes podem ser assintomáticos, ou simplesmente apresentar sintomas similares aos de um resfriado ou gripe, dizem as autoridades canadenses. O período de incubação varia de 1 a 14 dias, segundo as estimativas da OMS.

Consultado pela AFP, o porta-voz da Organização Mundial da Saúde, Tarik Jasarevic, confirmou que uma pessoa pode estar infectada durante vários dias antes de apresentar sintomas.

“As estimativas atuais indicam que o período de incubação, ou seja, o tempo que passa entre o momento em que um paciente é infectado e o aparecimento dos sintomas, oscila entre 1 e 12,5 dias, com uma média situada entre 5 e 6 dias”, assinalou Jasarevic. “A OMS recomenda fazer um acompanhamento de 14 dias às pessoas que tiveram contato com casos confirmados [do vírus], acrescentou.

“A forma mais comum de se infectar, é tocar coisas em público como corrimão, maçanetas de portas, pegas no ônibus, etc., por isso é preciso lavar as mãos com frequência. O vírus só pode viver nas mãos por 5-10 minutos, mas muitas coisas podem acontecer nesses 5-10 minutos (esfregar os olhos ou roçar o nariz)”

Verdadeiro. Embora a OMS não registre um tempo de caducidade do vírus nas mãos, recomenda-se lavá-las frequentemente com “um desinfectante à base de álcool, ou com água e sabão”.

Esse organismo também afirma que as mãos podem “tocar muitas superfícies que podem estar contaminadas com o vírus” e se “tocar os olhos, o nariz, ou a boca, com as mãos contaminadas, pode transferir o vírus da superfície para si”.

“Recomenda-se fazer gargarejo com elixir bucal ou água com sal para eliminar os germes enquanto ainda estão na garganta (antes de pingar até os pulmões)”

Nada comprova. A AFP examinou as recomendações oficiais da OMS, das autoridades norte-americanas, canadenses e francesas: em nenhuma delas é mencionado fazer gargarejos. Trata-se de uma ação a ser tomada durante a “dor de garganta comum”, “não para o novo coronavírus, particularmente”, resume Brandon Brown à AFP.

Mensagem do Unicef?

Uma versão em francês também circulou enumerando algumas destas recomendações e atribuindo-as ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que negou as afirmações. “Esta mensagem não é do Unicef e não é correta”, declarou à AFP o porta-voz do órgão, Christopher Tiday.

O Unicef recomenda, assim como a OMS e diversas autoridades de saúde, lavar as mãos frequentemente, evitar o contato próximo com pessoas que apresentem sintomas e ligar para os serviços de saúde em caso de febre, tosse, ou dificuldade para respirar.

Desde o aparecimento do novo coronavírus, em dezembro de 2019 na província chinesa de Wuhan, foram registrados até 13 de março mais de 134 mil casos de infecção em todo o mundo e mais de 5 mil mortes. A OMS declarou a COVID-19 como pandemia e denunciou “níveis alarmantes de propagação e inação”.

O AFP Checamos já verificou outras afirmações que circulam sobre o novo coronavírus.