Dois seguranças usam máscaras para se prevenir da COVID-19, em Pequim, em 21 de fevereiro de 2020 (Greg Baker / AFP)

Verdades e mentiras sobre as formas de transmissão do novo coronavírus

Copyright © AFP 2017-2020. Todos os direitos reservados.

Publicações compartilhadas nas redes sociais alertam sobre as diferentes formas de contágio do novo coronavírus, detectado na cidade chinesa de Wuhan no final de 2019. Algumas destas afirmações são corretas, mas outras, não.

1. O vírus se mantém vivo em pacotes enviados por correio?

“Os Simpsons PREVIRAM O CORONAVÍRUS há quase 30 ANOS” e “Acredite se quiser: Os Simpsons previu o coronavírus há quase 30 anos”, são alguns dos dizeres que acompanham as publicações no Facebook (1, 2), Twitter (1, 2) e Instagram (1, 2), assim como vídeos no YouTube, com um trecho do episódio da série de animação “Os Simpsons”. Alegações semelhantes circularam igualmente em espanhol (1, 2).

Captura de tela feita em 28 de fevereiro de 2020 no YouTube

No vídeo, um funcionário de uma fábrica japonesa espirra sobre um pacote, que é enviado por avião à casa da família protagonista. Ao abri-lo, Homer absorve os germes e fica doente.

Mas um vírus realmente poderia sobreviver em uma caixa enviada da China?

O porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tarik Jasarevic, assinalou em um e-mail à AFP que não é possível: “Com base em análises anteriores de outros coronavírus sabemos que estes tipos de vírus não sobrevivem muito tempo na superfície. Portanto, é muito improvável que você contraia a COVID-19 simplesmente tocando a parte de fora de um pacote enviado da China, ou de outro país. Os vírus geralmente não podem sobreviver mais do que algumas horas em materiais porosos, como papel ou papelão”.

A médica Inmaculada Casas Flecha, secretária da Sociedade Espanhola de Virologia, deu uma resposta semelhante: “Os coronavírus têm um invólucro que é como uma membrana em forma de coroa - daí o nome coronavírus - extremamente sensível à luz ultravioleta. Qualquer vestígio de coronavírus que possa ter acabado em um pacote, ou objeto, desapareceria ao entrar em contato com a luz solar”. Ela acrescentou também que “apenas os vírus ambientais, que são encontrados, por exemplo, em algumas águas, são viáveis fora dos organismos vivos. Mas nenhum vírus com invólucro, como o coronavírus, é viável no ambiente”.

O Ministério da Saúde do Brasil também desmentiu a possibilidade do vírus se manter vivo em pacotes enviados pelo correio da China. Em sua seção de combate à desinformação, a pasta explicou: “Os vírus geralmente não sobrevivem muito tempo fora do corpo de outros seres vivos, e o tempo de tráfego destes produtos costuma ser de muitos dias”.

2. Consumir carne de animais pode provocar o contágio?

Embora não tenha sido possível determinar com total segurança a origem do novo coronavírus, aponta-se para o papel de morcegos e pangolins em sua transmissão, assim como para o de um mercado de Wuhan, localizado na província chinesa de Hubei, no qual eram vendidos animais vivos como ratos, coiotes e salamandras gigantes.

Nesse contexto, usuários publicaram no Facebook e Twitter, inclusive em outros idiomas, que o consumo de carne de origem chinesa poderia provocar o contágio.

O pangolim foi assinalado como o animal que transmitiu o novo coronavírus para os seres humanos

Questionado sobre isso, Jasarevic, da OMS, reconheceu que “a fonte do vírus ainda não foi identificada, embora seja provável que se considere uma origem animal. “A OMS encoraja o público a seguir as orientações sobre higiene das mãos, práticas alimentares seguras e recomendações de compra e cocção de alimentos, incluindo evitar o contato direto e sem proteção com animais vivos, [além de] superfícies em contato com animais ao visitar mercados e cozinhar alimentos, especialmente carne”, continuou.

Em 24 de fevereiro, o governo chinês decidiu proibir o comércio e consumo de animais selvagens devido a pesquisas que relacionam o seu consumo com o aparecimento do novo coronavírus.

Em 26 de fevereiro, um porta-voz dos cientistas da Universidade Agrícola do Sul da China, que trabalham para encontrar a fonte animal da transmissão da COVID-19 e que haviam apontado inicialmente para o pangolim, afirmou à revista Nature que não há mais certeza de que este mamífero tenha sido o transmissor do vírus para os humanos.

Houve um “embaraçoso erro de comunicação entre o grupo de bioinformática e o grupo de laboratório” ao publicar a análise genética realizada em um pangolim portador do vírus, afirmando que o seu genoma era 99% igual ao de um humano também portador do vírus. A cifra correta, no entanto, era de 90%, tornando-se insuficiente para considerar este animal a origem do contágio em humanos.

3. Animais de estimação podem transmitir o novo coronavírus?

Pouco após o início do surto da COVID-19 - como a OMS denominou a doença causada pelo novo coronavírus -, começaram a aparecer publicações alertando para o risco de animais de estimação transmitirem o vírus, o que teria levado os habitantes de Wuhan a se desfazerem desses animais (1, 2, 3). Começaram a circular, igualmente, imagens de animais domésticos que passeavam com máscaras e outros tipos de proteção (1, 2).

Mas seria possível que gatos e cachorros fossem infectados e transmitissem o novo coronavírus? A OMS desmente (1, 2).

Além disso, Jasarevic indicou à AFP que, “atualmente, não existem evidências de que os animais de companhia, ou de estimação, como cachorros e gatos, possam ser infectados com o novo coronavírus. Entretanto, é sempre uma boa ideia lavar as mãos com água e sabão depois do contato com animais domésticos. Isto protege contra bactérias comuns, como a Escherichia coli e a Salmonella, que podem passar dos animais para os humanos”.

4. A doença pode ser transmitida durante a gravidez, ou pelo leite materno?

No último dia 4 de fevereiro, médicos chineses detectaram que um bebê estava infectado com o vírus apenas 30 horas após nascer. Embora ainda estejam pesquisando se isso se trata de uma transmissão mãe-filho, já que a progenitora havia testado positivo em um exame anterior ao nascimento, publicações nas redes sociais (1, 2, 3), Instagram e Twitter apontavam para essa possibilidade.

Captura de tela feita em 2 de março de 2020 no Instagram

Consultado pela AFP, o porta-voz da OMS assinalou que é cedo demais para definir claramente os riscos para as mulheres grávidas e lactantes, e seus recém-nascidos. O que se recomenda é que as mulheres grávidas e lactantes suspeitas de estarem com a doença do coronavírus, ou já confirmadas, sejam tratadas com terapias de apoio, levando em conta as adaptações fisiológicas da gravidez”.

De acordo com a explicação do porta-voz da OMS, a rede clínica desta organização está discutindo sobre a transmissão do vírus, incluindo “o risco para mulheres grávidas e lactantes”.

5. O coronavírus pode ser operado?

Publicações em espanhol no Facebook e Twitter mostram um vídeo no qual um médico está, supostamente, “operando o coronavírus”. No entanto, “os coronavírus não podem ser removidos com cirurgias”, informou o porta-voz da OMS.

Alguns sintomas do novo coronavírus, segundo a OMS, são: febre, tosse, mal estar geral, coriza e dor de garganta. Também podem aparecer “sinais de alerta” como dificuldade respiratória e aumento dos sintomas respiratórios, como expectoração, ou digestivos (náuseas, vômitos e diarreias). Em casos mais complicados podem surgir alterações psíquicas como confusão ou letargia.

Captura de tela feita em 20 de fevereiro de 2020 no Facebook

Atualmente, não existe uma cura para esta doença. Como indica a OMS em seu site, “as pessoas infectadas pelo 2019-nCoV deverão receber o cuidado adequado para aliviar e tratar os sintomas”. Para tratar o vírus também tem se utilizado medicamentos contra a gripe e o HIV, injeções de plasma e até a medicina tradicional chinesa. O governo chinês planeja iniciar testes de uma vacina em humanos a partir de abril.

A COVID-19, com um índice de mortalidade de 2,3%, não é como os outros coronavírus.

Embora tenha causado mais mortes na China continental do que a Síndrome Respiratória Aguda (SRAS) de 2002-2003, a COVID-2019, é “menos letal”, segundo a OMS, do que o SRAS, que teve uma taxa de mortalidade de 13%.

O índice também é menor do que o da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), que foi identificada pela primeira vez na Arábia Saudita em 2012 e que segue em curso, com uma taxa de mortalidade de mais de 30%.

A gripe sazonal, ou influenza, provoca a morte de entre 290 mil e 650 mil pessoas por ano em todo o mundo.

6. A temperatura tem influência no vírus?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no último dia 10 de fevereiro que esta doença desaparecerá em abril, com a chegada da primavera ao hemisfério norte, já que “o calor normalmente mata este tipo de vírus”.

Também circulou no Facebook em português (1, 2), inglês (1, 2) e espanhol (1, 2) uma afirmação de que o novo coronavírus “não é resistente ao calor e que morre a uma temperatura de 26 a 27 graus”.

Segundo Jasarevic, “o vírus é novo demais para sabermos como um clima mais quente pode afetar a transmissibilidade. O vírus afetou pessoas em climas frios, secos, quentes e úmidos. Aconselhamos o público a seguir as precauções onde quer que morem”.

Infográfico produzido pela AFP mostra o período de incubação de diferentes doenças

De acordo com o epidemiologista francês Arnaud Fontanet, especialista em doenças emergentes do Institut Pasteur, o SRAS apareceu no inverno e a epidemia terminou em julho de 2003, durante o verão do hemisfério norte, o que fez com que algumas pessoas especulassem que o vírus desapareceu devido à chegada do bom tempo.

“Talvez o aquecimento do verão tenha contribuído para o controle da epidemia, mas ninguém pode responder se a temperatura teve a ver com o fim da epidemia do SRAS”, explicou.

O MERS de 2012 é um “contraexemplo” da ideia de que o calor mataria “este tipo de vírus”, acrescentou Fontanet em entrevista à AFP. O coronavírus da Síndrome Respiratória do Oriente Médio circulou em 27 de países e 80% dos casos foram detectados na Arábia Saudita, um país mais quente com temperaturas superiores às do verão nos Estados Unidos.

O especialista indicou que a maior propagação dos vírus normalmente acontece no inverno porque as pessoas tendem a “ficar mais confinadas quando faz frio”.

7. Como o vírus é transmitido?

Consultado sobre as formas de transmissão do novo coronavírus, o porta-voz da OMS explicou que “o principal impulsionador da transmissão, segundo os dados disponíveis atualmente, são as pessoas que têm os sintomas”.

“A OMS tem consciência da possível transmissão da COVID-19 de pessoas enfermas com o vírus antes de apresentarem os sintomas. Estão sendo analisados históricos de exposição detalhados para compreender melhor a fase pré-sintomática da infecção e como pode ter ocorrido a transmissão nestes poucos casos. A transmissão de uma pessoa assintomática é muito rara com outros coronavírus, como o coronavírus da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV). As pessoas sintomáticas transmitem o vírus mais facilmente ao tossir e espirrar”, indicou à AFP.

Para frear a propagação do vírus, a cidade de Wuhan, que tem mais de 11 milhões de habitantes, está em quarentena desde o último dia 23 de janeiro. Zonas de quarentena foram definidas em outras partes do mundo, como Irã e Itália, assim como em um cruzeiro em um porto do Japão.

O surto epidêmico da COVID-19 começou em dezembro de 2019 na cidade chinesa de Wuhan. Desde então, foram detectados mais de 80.000 casos de contágio e mais de 2.800 mortos na China continental. Fora dessa área, foram registrados mais de 4.000 casos da COVID-19 em 54 países, provocando a morte de mais de 70 pessoas.

A AFP já verificou outras desinformações relacionadas ao novo coronavírus.

AFP Uruguay
AFP Brasil