A mulher fotografada enquanto se vacina contra a covid-19 não perdeu o bebê “dias depois”

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Uma mulher vestida com um uniforme médico sorri para a câmera enquanto segura uma ultrassonografia na mão esquerda. No braço direito, recebe uma injeção. Essa imagem somou centenas de interações desde o início de fevereiro, em publicações que afirmam que, após ser vacinada, perdeu o seu bebê de 14 semanas. Mas, na verdade, a protagonista da cena não é a mesma identificada nas postagens e, além disso, ela confirmou em suas redes sociais que está saudável e que sua gestação evolui normalmente após ter sido vacinada contra a covid-19.

A foto foi compartilhada no Facebook (1, 2, 3), no Twitter (1, 2), no Instagram (1) e em sites acompanhada por diversas alegações: de que se trata da médica “Sara Beltrán Ponce (Milwaukee, EUA) [que] está grávida de 14 semanas” e que “dias após a vacinação, ela abortou, perdendo Eva, sua futura filha”; de uma “pesquisadora norte-americana [que] teve um aborto espontâneo após tomar a vacina contra Covid-19”; e de uma “enfermeira grávida”.

As postagens têm em comum a atribuição a Sara Beltrán Ponce, mesmo quando seu nome não é explicitamente mencionado, já que capturas de tela de tuítes de um usuário de mesmo nome acompanham a imagem da mulher sendo vacinada.

Captura de tela feita em 17 de março de 2021 de uma publicação no Twitter

Publicações similares também circularam em outros idiomas, como espanhol, inglês e francês.

Uma busca reversa pela imagem levou a uma publicação no Facebook com data de 7 de janeiro de 2020 na qual a usuária Amy Guy-Ulrich compartilhou a foto e escreveu: “Toda decisão como pai é difícil, para mim, a vacina [contra a] COVID-19 foi a correta. #CRNA [Enfermeira Anestesista Certificada e Registrada] #frontlineworkers [#trabalhadoresdalinhadefrente] mantenham-se saudáveis amigos #28weekspregnant [#grávidade28semanas]”.

Nessa mesma postagem foi feito um comentário, em 6 de fevereiro, alertando sobre as versões que estavam circulando nas redes sociais sobre uma suposta perda do bebê após a vacinação. Em resposta, Amy Guy-Ulrich escreveu: “Sigo feliz, saudável e grávida! 32 semanas com um meninão perfeitamente saudável!”. No mesmo dia, ela publicou uma fotografia e reiterou que estava bem de saúde.

Captura de tela feita em 17 de março de 2021 de uma publicação no Facebook de Amy Guy-Ulrich

No último dia 14 de março, Amy Guy-Ulrich publicou uma outra foto em sua conta no Facebook rodeada por quatro crianças e com a seguinte legenda: “Ainda grávida de 37 semanas e 4 dias. Prestes a explodir!”.

Em seu perfil na mesma rede social, Guy-Ulrich indica que vive em Illinois, nos Estados Unidos, e não em Milwaukee, como afirmam as publicações viralizadas. Uma busca no Google pelos termos “Amy Guy-Ulrich CRNA Illinois” leva a vários resultados (1, 2) que corroboram que ela é enfermeira anestesista nesse estado.

A equipe de checagem da AFP tentou entrar em contato com ela, mas não obteve retorno até a data da publicação desta verificação.

Uma porta-voz da OSF HealthCare, a rede de serviços de saúde onde a enfermeira trabalha, disse à AFP, representando Guy-Ulrich, que a sua fotografia “foi retirada sem a sua permissão de um site de redes sociais e usada por terceiros de maneira inapropriada”.

“Estamos tristes com a situação, mas felizes de informar que a pessoa que aparece na foto e seu filho que está para nascer estão saudáveis”, acrescentou, assegurando que a instituição está trabalhando para tentar retirar as imagens do ar.

Quem é Sara Beltrán Ponce?

Além da fotografia de Guy-Ulrich, muitas publicações viralizadas incluem capturas de tela dos tuítes da usuária do Twitter Sara Beltrán Ponce com mensagens em inglês que asseguram que ela se vacinou enquanto estava grávida de 14 semanas e depois afirmando que perdeu o bebê com 14 semanas e meia.

De fato, em 28 de janeiro a usuária publicou um tuíte no qual contava que havia sido vacinada contra a covid-19 com 14 semanas de gestação.

Em 4 de fevereiro anunciou na mesma rede ter sofrido um aborto espontâneo com 14 semanas e meia de gravidez. Sem dar detalhes sobre a causa, acrescentou que ela e seu esposo estavam devastados, mas que se sentiam abençoados por terem um ao outro e sua “doce Eva”, em alusão à filha, a quem fazem menção e aparece em imagens em publicações de 2020.

Eva é o nome que as publicações viralizadas mencionam como “a futura filha” que a mulher vista na fotografia supostamente perdeu no aborto espontâneo.

Em 5 de fevereiro, Beltrán Ponce escreveu: “Não me arrependo da minha franqueza sobre a vacinação nem sobre a trágica perda do meu bebê, mas isso, infelizmente, me tornou um alvo da comunidade antivacina. Se virem que a minha informação está sendo usada por alguém que não seja eu, por favor, me avisem e denunciem como assédio”.

A informação detalhada em seu perfil indica que a conta no Twitter foi aberta em outubro de 2017 e que a mulher é de Milwaukee.

Como se pode conferir na comparação abaixo, não se trata da mesma mulher da foto que viralizou. A terceira imagem, abaixo e à direita, corresponde a Sara Beltrán Ponce e foi publicada pelo Departamento de Oncologia Radioterápica do Colégio Médico de Wisconsin, onde faz sua residência.

Comparação feita em 17 de março de 2021 entre a foto viral (E) e o perfil no Twitter de Sara Beltrán Ponce e uma publicação no Facebook

Vacinação e gravidez

A Organização Mundial da Saúde (1, 2, 3) assinala que as gestantes têm mais risco de sofrer um caso severo de covid-19 se forem infectadas, mas destaca que há poucos dados sobre a segurança da vacinação.

Contudo, conclui que “as mulheres grávidas com alto risco de exposição ao SARS-CoV-2 (por exemplo, profissionais da saúde) ou que tenham comorbidades que aumentem o risco de enfermidade grave podem ser vacinadas em consulta com seu provedor de atendimento médico”.

Nos Estados Unidos três vacinas contra a covid-19 têm autorização para aplicação: a fabricada pela Pfizer-BioNTech, a do laboratório Moderna e a da Johnson & Johnson.

Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos indicam em seu site que “se vacinar é uma escolha pessoal” e que “qualquer uma das vacinas para covid-19 atualmente autorizadas podem ser oferecidas às pessoas que estão grávidas ou amamentando”.

Os CDC ainda acrescentam que “com base na forma como essas vacinas funcionam no organismo, especialistas acreditam ser improvável que elas representem um risco específico para as pessoas que estão grávidas. Entretanto, atualmente existem dados limitados sobre a segurança das vacinas contra a covid-19 em gestantes”.

O AFP Checamos já verificou outros conteúdos falsos e enganosos sobre as vacinas contra o novo coronavírus (1, 2, 3, 4).

Em resumo, a mulher vista na fotografia viralizada não é a médica Sara Beltrán Ponce, de Milwaukee, que perdeu o bebê após se vacinar, como asseguram as publicações viralizadas. A protagonista é, na realidade, a enfermeira anestesista Amy Guy-Ulrich, do estado de Illinois. A imagem foi feita no início de janeiro, quando ela era vacinada contra a covid-19 e grávida de 28 semanas de um menino. Segundo informações de seu perfil nas redes sociais, sua gravidez segue sem problemas.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
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