Comparar a talidomida com a vacina contra a covid-19 é enganoso, dizem os especialistas

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Publicações compartilhadas mais de 17.000 vezes nas redes sociais desde o último dia 30 de novembro alertam sobre os riscos do rápido desenvolvimento de vacinas e as comparam à talidomida, uma droga da década de 1950 que causou problemas  congênitos em crianças cujas mães tomaram-na durante a gravidez. O argumento é enganoso, porque os processos para aprovar a comercialização de medicamentos se tornaram mais rígidos e seguros, em parte graças ao caso da talidomida. Além disso, naquela época o uso de remédios durante a gravidez não era estritamente controlado, segundo especialistas consultados.

"A THALIDOMIDA foi uma droga APROVADA RAPIDAMENTE e introduzida em 1957 para neutralizar náuseas e insônia em mulheres grávidas. Foi comercializado em mais de 50 países, antes de ser retirado entre 1961-62 devido a malformações em recém-nascidos. LEMBRE-SE… Qualquer semelhança com o que ocorre atualmente com as vachinas, não é mera coincidência; na atualidade, é BEM PIOR!”, diz o texto de uma imagem que acompanha uma das postagens no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2, 3)  e no Twitter (1, 2, 3). 

O conteúdo, que em alguns casos inclui fotografias de crianças com deformidades nos braços, também circulou em inglês, tcheco e espanhol.

Captura de tela realizada em 24 de dezembro de 2020 de uma publicação no Instagram

A talidomida foi comercializada desde 1956 pela empresa farmacêutica alemã Chemie Grünenthal, que a oferecia com o nome de Contergan como um remédio para ansiedade, insônia e enjoos matinais.

Diferentes companhias farmacêuticas comercializaram o medicamento em quase 50 países. Mas em 1961, os cientistas encontraram uma conexão comprovada entre a droga e defeitos congênitos graves em milhares de bebês. A maioria das vítimas nasceu na então Alemanha Ocidental, no Reino Unido, na Austrália e no Canadá.

O escândalo levou a substância a ser retirada do mercado europeu em 1961. Nos Estados Unidos, onde a droga ainda não havia sido aprovada para comercialização, a talidomida foi administrada em centenas de mulheres grávidas durante os ensaios clínicos, resultando em pelo menos 17 crianças com malformações.

Na América Latina, estudos (1) analisaram a existência de vítimas da talidomida no Brasil.

Seu uso foi descrito como "o pior desastre médico provocado pelo homem" em um estudo do professor Neil Vargesson, da Universidade de Aberdeen. Entre 1957 e 1962, mulheres que tomaram o medicamento durante a gravidez deram à luz filhos com graves malformações físicas, principalmente nas extremidades, no trato urinário, nos olhos e no coração. Dos mais de 10.000 recém-nascidos afetados, 40% morreram logo após o nascimento, de acordo com Vargesson.

Regras mais rigorosas

As consequências do uso da talidomida durante a gravidez foram tão drásticas que regras mais rígidas foram estabelecidas para testes e comercialização de remédios. A análise de seus efeitos mudou completamente a forma como os medicamentos - incluindo vacinas - são desenvolvidos e a supervisão das empresas farmacêuticas.

Nos Estados Unidos, a questão levou à aprovação em 1968 da chamada Lei Kefauver-Harris, que fortaleceu significativamente o escopo da Agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês), que até então não podia influenciar o método de produção dos medicamentos e tinha apenas uma capacidade limitada de impedir a sua venda.

Em 1965, na sequência do escândalo, a Comunidade Econômica Europeia, precursora da União Europeia, aprovou uma lei que exige uma avaliação independente e uma autorização antes de um medicamento ser colocado no mercado.

No Reino Unido, a Lei de Medicamentos foi aprovada em 1968, que também regulamenta a supervisão das empresas farmacêuticas e as licenças.

Vacinas contra a covid-19

Comparar a forma como a talidomida foi testada e aprovada na década de 1950 com os procedimentos usados ​​para produzir as vacinas de hoje não faz sentido, de acordo com o doutor Daniel Dražan, membro do comitê da Sociedade Tcheca de Vacinação, já que os problemas gerados por esse medicamento estimularam uma mudança nos padrões utilizados.

"O fato de que alguém tenha buscado um caso de 60 anos atrás é, para mim, a melhor prova de que as drogas de hoje são extremamente seguras", disse Dražan à AFP. “Desde aquela época, milhares de medicamentos foram desenvolvidos sem uma catástrofe semelhante. Hoje estamos em outro lugar”, continuou.

Segundo ele, os medicamentos atuais destinados aos mercados europeu e norte-americano estão sujeitos a critérios tão rígidos que “uma vacina registrada com a FDA ou com a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) demonstrou claramente sua segurança e eficácia”.

"Os testes (das vacinas contra a covid-19) foram realizados muito rapidamente porque muito mais dinheiro foi investido do que o normal", esclareceu. “Esse dinheiro permitiu que as fases de teste fossem feitas não gradativamente, mas em paralelo. Absolutamente nenhuma fase do processo foi negligenciada”.

O site do Museu de Ciência de Londres, em uma seção dedicada à história da talidomida, afirma que “nos anos 1950, os cientistas não sabiam que os efeitos de uma droga podiam atravessar a barreira placentária e prejudicar o feto em útero, então o uso de medicamentos durante a gravidez não era estritamente controlado”.

A pesquisa sobre as vacinas contra a covid-19 é "muito diferente do que foi feito com a talidomida", explica a doutora Susan Ellenberg, professora de bioestatística, ética médica e política de saúde na Escola de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia.

A primeira pessoa a receber a vacina Pfizer-BioNtech contra covid-19, em 8 de dezembro de 2020 em Coventry, Inglaterra (AFP / -)

“A talidomida foi estudada em um momento em que havia muito poucos requisitos regulatórios para a aprovação de medicamentos”, disse à equipe de verificação da AFP.

Para Ellenberg, o interesse excepcional na pandemia de covid-19 também ajudou a acelerar o desenvolvimento da vacina. “Não foi difícil inscrever pessoas” para os ensaios.

"Normalmente, você não teria inscrito 30.000 pessoas em um ensaio clínico em um período de dois ou três meses", explicou, já que normalmente é preciso um ano para reunir o número de pessoas necessário para tirar conclusões sobre um estudo.

“As vacinas têm controlado doenças terríveis em todo o mundo. (...) Agora estamos no meio de uma pandemia, afetou todos os países do mundo. (...) E agora temos vacinas que parecem ser altamente eficazes e temos mais informações sobre segurança do que provavelmente qualquer outra vacina já estudada”, ressaltou.

Vacinas para grávidas?

Até o momento, não há conclusões científicas sobre a eficácia da vacina contra a covid-19 aplicada a mulheres grávidas.

Embora recomende a vacinação para profissionais de saúde, os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos alertam que os dados sobre a segurança da vacina em gestantes ainda são "limitados".

A Agência Médica Europeia (EMA, na sigla em inglês) afirmou que testes e estudos adicionais “irão fornecer informações sobre (...) quão bem protege as pessoas imunodeprimidas, crianças e mulheres grávidas, e se previne casos assintomáticos”.

A primeira pessoa a receber a vacina Pfizer-BioNtech contra covid-19, em 8 de dezembro de 2020 em Coventry, Inglaterra (AFP / Jacob King)

As autoridades sanitárias da Rússia, primeiro país a aprovar uma vacina contra a covid-19 (Sputnik V), disseram que durante a primeira fase da vacinação o imunizante não seria administrado a pessoas com doenças crônicas, grávidas ou lactantes.

Em conclusão, é enganoso comparar as vacinas em rápido desenvolvimento de hoje com as consequências da talidomida na década de 1950. As empresas farmacêuticas estão agora sob supervisão muito mais rígida e os critérios de teste são mais rígidos do que na época em que esse medicamento foi distribuído. Em relação ao efeito da vacina na gravidez, ainda não há dados disponíveis e por isso, no momento, as autoridades de saúde recomendam não vacinar mulheres grávidas.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
CORONAVÍRUS Vacinas