A mulher que sofreu uma convulsão em um hospital argentino não foi vacinada contra a covid-19

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Um vídeo em que uma mulher sofre uma convulsão no chão foi compartilhado dezenas de milhares de vezes em vários idiomas desde o início de fevereiro, em publicações que asseguram que a cena foi gravada em um hospital argentino após a mulher ser vacinada contra a covid-19. No entanto, como explicaram à equipe de checagem da AFP funcionários e autoridades do Hospital Larcade, na província de Buenos Aires, as imagens mostram uma paciente com antecedentes de convulsões que não havia recebido nenhuma vacina.

A gravação, de 4:12 minutos, circula amplamente no Facebook (1, 2, 3), Twitter (1, 2, 3) e Telegram (1, 2). “Uma mulher de repente caiu no chão em um hospital argentino após ser vacinada, com convulsão no corpo inteiro‼ Nenhuma equipe médica veio tratar a cena”, diz uma das publicações.

O vídeo também circula com legendas semelhantes em espanhol, inglês, francês, romeno e tcheco, embora algumas versões afirmem que a cena foi gravada na Itália. 

Captura de tela feita em 4 de março de 2021 de uma publicação no Facebook

Uma busca reversa pelo vídeo com a ferramenta InVid-WeVerify levou a uma publicação feita no Facebook no último dia 20 de fevereiro que indica, em espanhol, que as imagens foram gravadas “à noite”, no “Hospital Larcade de San Miguel”.

No vídeo, é possível ler as palavras “Hospital Raúl F. Larcade” na porta de entrada do centro de saúde.

Captura de tela feita em 4 de março de 2021 de uma publicação no Facebook

Em uma publicação de 25 de fevereiro, o município de San Miguel detalha que, no Hospital Larcade, estão sendo imunizados “profissionais do sistema de saúde do distrito, tanto público como particular”.

Uma busca no Google pelos termos “Hospital Larcade + emergência”, em espanhol, limitando os resultados a conteúdos publicados entre 19 e 20 de fevereiro, permitiu encontrar uma publicação feita no dia 20 pela conta Funcionários do Hospital Larcade Unidos que, há vários meses, compartilha queixas por melhores condições de trabalho (1, 2).

A publicação, que inclui o vídeo viralizado, indica que as imagens foram gravadas na noite de 19 de fevereiro, quando a “emergência contava com apenas um médico” e “apenas um enfermeiro”. Além disso, informa que a mulher foi atendida e que se encontrava estável e internada:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Consultado pela equipe de checagem da AFP, Sebastián Motrel, médico cirurgião da emergência do Hospital Larcade, confirmou que a protagonista do vídeo “era uma paciente com uma longa história no hospital com histórico de convulsões”.

“Não está vacinada [contra a] covid-19, não tem nenhuma relação com isso”, acrescentou.

Paciente do hospital

Gladys Amantia, diretora médica do hospital, disse à AFP que “o vídeo é do dia 19 de fevereiro de 2021, na porta de entrada da sala de espera da emergência” da instituição. Amantia detalhou que a mulher, de 28 anos, tinha “histórico de retardo na maturação e distúrbio de conduta”.

A diretora também sinalizou que a paciente havia recebido tratamento na área de psiquiatria da instituição e que, 48 horas antes, havia se consultado por um quadro semelhante, sem que fossem observadas “alterações” em um “estudo de imagem cerebral”.

“A paciente sofre o evento que é visto antes de ser registrada na admissão para atendimento na sala de emergência. Quem vem ao socorro da paciente é uma enfermeira da emergência, com seguranças e auxiliar de enfermagem”, explica Amantia.

Depois do episódio, segundo a diretora do hospital, “foi concluída a avaliação clínica com exames laboratoriais e decidiu-se interná-la para acompanhamento e avaliação pelo serviço de saúde mental”.

A paciente, acrescentou Amantia, permaneceu internada até 26 de fevereiro, período no qual foi avaliada pelas áreas de clínica médica, neurologia e saúde mental e “sua medicação básica foi ajustada”.

A campanha de vacinação contra a covid-19 na Argentina começou em 29 de dezembro de 2020. Desde então, segundo dados oficiais, foram aplicadas 1,04 milhão de doses da Sputnik V, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya.

Segundo o plano estratégico de vacinação anunciado pelo governo, primeiro serão vacinados os profissionais de saúde, depois os adultos com mais de 70 anos e residentes de asilos, seguidos pelos adultos de 60 a 69 anos. Esse esquema foi recentemente afetado pelo escândalo conhecido como “Vacina VIP”, no qual funcionários públicos, políticos, empresários e sindicalistas receberam a vacina mesmo sem pertencer a esses grupos prioritários.

Segundo o último informe de monitoramento de segurança das vacinas, publicado em 14 de fevereiro pelo Ministério da Saúde argentino, 99,4% de um total de 19.014 eventos notificados após a vacinação foram “leves e moderados” (febre, dor de cabeça, dor no local da injeção).

Em resumo, a mulher que sofreu uma convulsão na entrada de um hospital em San Miguel, na Argentina, é, na verdade, uma paciente com histórico de convulsões que não foi vacinada.

Tradução e adaptação
VACINAS COVID-19