Vacina contra a covid-19 produzida pela Pfizer/BioNTech no centro de saúde e vacinação em Cardiff, em Gales do Sul, em 8 de dezembro de 2020 (Justin Tallis / AFP)

Comparar as vacinas para a covid-19 com a pesquisa para evitar a aids e o câncer é enganoso

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Publicações compartilhadas mais de mil vezes nas redes sociais ao menos desde setembro de 2020 questionam as vacinas contra a covid-19, que estão sendo fabricadas em alguns meses, enquanto ainda não há vacinas para a aids ou o câncer, apesar de décadas de pesquisa. Mas estabelecer um paralelo entre os tratamentos preventivos para a covid-19 com os do câncer e da aids é enganoso, já que se tratam de doenças muito diferentes.

“AIDS - 50 anos: não existe vacina. Câncer - 100 anos: não existe vacina. COVID-19 - 2020 Já temos vacina?”, lê-se nas publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3) desde o último dia 9 de setembro.

Há, ainda, outro texto que afirma que apesar das pesquisas de mais de 40 anos para descobrir uma vacina para o HIV, vírus da aids, ainda não a encontraram, mas que para a covid-19 isso estaria ocorrendo em menos de um ano.

O meme também circulou em outros idiomas, como em espanhol - assinalando que as vacinas teriam sido fabricadas em três meses - e em francês.

Captura de tela feita em 11 de dezembro de 2020 de uma publicação no Facebook

As publicações viralizadas destacam uma realidade: a corrida pela vacina contra a covid-19 tem ocorrido em uma velocidade sem precedentes, mas não em três meses, como afirmam algumas postagens. Após a sequenciação genética do novo coronavírus em janeiro deste ano, as pesquisas para criar uma vacina começaram em fevereiro de 2020. Até a aprovação da primeira vacina, a da Pfizer/BioNTech, passaram-se 10 meses.

“Nunca na história a pesquisa de vacinas progrediu tão rapidamente”, declarou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, no final de novembro.

De fato, desde 9 de novembro, quatro fabricantes anunciaram vacinas eficazes para prevenir a doença: Pfizer/BioNTech, Moderna, a aliança britânica AstraZeneca/Universidade de Oxford e o instituto estatal Gamaleïa da Rússia.

Embora ainda esteja na fase III, a vacina russa Sputnik V começou a ser aplicada em Moscou no dia 5 de dezembro, enquanto a da Pfizer/BioNTech, já aprovada, começou sua aplicação no Reino Unido em 8 de dezembro.

As publicações viralizadas, que demonstram desconfiança nas vacinas para prevenir a covid-19 enquanto não existem até o momento vacinas contra a aids e o câncer, propõem, contudo, uma falsa dicotomia.

Covid-19 e aids: uma comparação falaciosa

Comparar “doenças tão diferentes” desta maneira é “estúpido”, assinalou à AFP o professor Jean-Daniel Lelièvre, chefe do departamento de Imunologia Clínica do Hospital Universitário Henri Mondor e responsável de pesquisa clínica no Instituto de Pesquisa de Vacinas da França.

Por que a pesquisa da vacina contra a covid-19 progrediu tão rapidamente, quando quase quatro décadas de estudo não foram suficientes para encontrar uma vacina eficaz contra o HIV?

“É bastante simples: basicamente temos vacinas para doenças curáveis, ou seja, para enfermidades contra as quais o corpo cria uma resposta imune. Com o sarampo, a influenza, a hepatite B, cria-se uma imunidade natural. No caso do SARS-CoV-2, a cura sugere a geração de anticorpos contra o SARS-CoV-2. Assim, com a vacina, reproduzimos o que a natureza faz, já que sabemos exatamente como o organismo humano se defende diante deste vírus”, explicou o professor Lelièvre.

“Agora, no caso de doenças infecciosas complexas, como a causada pelo HIV, a pessoa não se cura. A resposta imune ao HIV não ocorre, é incompleta. O HIV destrói o sistema imunológico. Por isso não é possível fazer um paralelo entre o HIV e o SARS-CoV-2”, acrescentou.

“O vírus da aids é muito instável, sofre várias mutações, e esse não é o caso do SARS-CoV-2”, afirmou à AFP Serawit Bruck-Landais, diretora do Centro de Pesquisa e Qualidade de Saúde do Sidaction, que assinalou que “existem vários subtipos de HIV circulando, muito diferentes entre si, enquanto para o SARS-CoV-2 existem, por enquanto, no máximo dois subtipos não muito diferentes um do outro”.

Vacinas contra o câncer?

As postagens viralizadas asseguram que não existem vacinas contra o câncer, mas isto é impreciso. Há tipos de câncer para os quais já foram desenvolvidas vacinas, como indica o site da American Cancer Society.

Como explicado nesta seção, existem vacinas que ajudam a prevenir o câncer causado por vírus, como o papilomavírus humano (HPV). A American Cancer Society indica que “vacinar as crianças e jovens adultos contra o HPV ajuda a proteger contra o câncer de colo de útero e outros cinco tipos de câncer”.

Outra vacina preventiva é a da hepatite B (HBV). “As pessoas que têm infecções crônicas (em longo prazo) por este vírus têm um risco maior de ter câncer de fígado. Receber a vacina para ajudar a prevenir a infecção pelo HBV pode reduzir o risco de que algumas pessoas tenham câncer de fígado”.

No entanto, “nem todos os tumores estão relacionados com uma infecção viral, motivo pelo qual uma vacina não pode preveni-los”, afirmou à equipe de checagem da AFP o oncologista clínico argentino Tomás Soulé.

“O melanoma, por exemplo, tem uma clara relação com a exposição solar e não existe uma vacina que previna-o. A prevenção consiste em evitar a exposição ao sol. O câncer de pulmão e o de bexiga estão relacionados com o tabaco e uma vacina tampouco pode preveni-los”, continuou.

Segundo pode-se ler no site do Cancer Treatment Centers of America, “dezenas de cânceres são causados por uma infinidade de mutações genéticas, pelo que é provável que seja impossível desenvolver uma vacina para atacar todas as mutações possíveis”.

E considerando que as células cancerígenas “são células do próprio corpo que se tornaram rebeldes, muitas células cancerígenas podem se esconder a simples vista do sistema imunológico. É por isso que, inclusive, quando o sistema imunológico é estimulado por certos medicamentos, nem sempre sabe quais alvos deve atacar”.

Soulé concorda: “O câncer não é uma só doença, é um conjunto de enfermidades”. “Toda doença oncológica é uma doença genética na qual há uma mutação, um erro no DNA, que faz com que uma célula cresça mais do que o normal, ou morra menos do que o normal. Essa alteração molecular poucas vezes é única. Isso significa que não existe um mecanismo único para desenvolver um tumor, mas múltiplos mecanismos genéticos, e não existe uma ‘chave’ que solucione todo o problema”.

Rapidez no desenvolvimento de vacinas contra a covid-19

As quatro vacinas que desde 9 de novembro comunicaram a sua eficácia para prevenir a covid-19 são inovadoras por terem sido desenvolvidas mediante engenharia genética. São vacinas que, para conseguir que o corpo humano elabore uma resposta de defesa contra o vírus, necessitam apenas reproduzir e inocular material genético do vírus e não o vírus em si, como acontece com as vacinas clássicas feitas à base de vírus inativos ou atenuados.

Tanto as vacinas feitas à base de RNA mensageiro (Moderna e Pfizer/BioNTech) como as feitas à base de vetores de adenovírus (Gamaleïa e AstraZeneca/Universidade de Oxford) têm o objetivo de conseguir que o nosso corpo fabrique uma proteína de SARS-CoV-2.

“Essa nova proteína estranha será reconhecida pelo nosso sistema imunológico, que ‘montará’ o que é chamado de resposta imune de memória”, explicou à AFP a médica María Victoria Sánchez, pesquisadora do Laboratório de Imunologia e Desenvolvimento de Vacinas do IMBECU-CCT-CONICET da Argentina. “Quando existir um novo encontro com o patógeno, essa resposta imune será capaz de reconhecê-lo e o atacará de forma mais eficaz”, continuou.

Pela sua natureza, essas vacinas facilitam a sua fabricação rápida e em larga escala. Além disso, o SARS-CoV-2 “não é muito diferente do MERS-CoV e do SARS-CoV-1”, que provocaram uma epidemia no sudeste asiático em 2003, assinalou o professor Lelièvre.

“Tínhamos levado adiante toda uma investigação para a vacina do SARS-CoV-1. Chegou até os testes da fase I, mas a doença se deteve, por isso não chegamos aos testes da fase III. Do ponto de vista das vacinas, estávamos em um mundo ideal, porque é um vírus novo, mas muito próximo do outro, sobre o qual tínhamos todo o conhecimento”, assinalou.

Se o SARS-CoV-2 tivesse surgido no início da década de 1980, como o HIV, a pesquisa de vacinas “teria levado muito mais tempo”, disse.

Em resumo, comparar o desenvolvimento das vacinas para prevenir a covid-19 com as pesquisas para prevenir a aids e o câncer é enganoso, pois tratam-se de doenças muito diferentes. Diferentemente do SARS-CoV-2, o HIV é altamente instável e ataca o próprio sistema imunológico, tornando a sua resposta à doença incompleta. No caso do câncer, existem vacinas para prevenir alguns tipos de enfermidades causadas por vírus, mas outros tipos não admitem o tratamento preventivo com vacinas.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
CORONAVÍRUS Vacinas