Amostras de sangue são coletadas de um menino, cuja família estava contaminada com varíola do macaco, em Zomea Kaká, na República Centro-Africana, em 18 de outubro de 2018 ( AFP / CHARLES BOUESSEL)

Varíola do macaco não é herpes-zóster, “em reação” à vacina contra a covid-19

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Publicações compartilhadas nas redes sociais sugerem que os casos de varíola do macaco que começaram a ser detectados em diversos países a partir de maio de 2022 seriam, na verdade, manifestações de herpes-zóster, supostamente em reação aos imunizantes contra a covid-19. Especialistas ouvidos pela AFP explicaram que, apesar de terem sintomas semelhantes, as duas doenças são causadas por vírus “absolutamente distintos” e, portanto, inconfundíveis. Além disso, não existe relação entre a doença endêmica e a vacina desenvolvida para combater o novo coronavírus.

"Varíola? Não. Chama-se Cobreiro/Heroes Zóster, e é uma conhecida ‘reação adversa’ da vacina de covid... Eles até tentaram usar uma foto de herpes zóster e chamá-la de varíola”, diz uma das publicações no Twitter (1, 2, 3). Conteúdo semelhante também circula no Facebook, Instagram e Telegram.

Captura de tela feita em 7 de junho de 2022 de uma publicação no Twitter

A varíola do macaco não é uma doença nova, como já foi verificado pela AFP: ela foi descoberta em colônias de macacos em 1958, mais de 60 anos antes do desenvolvimento dos imunizantes contra a covid-19.

O primeiro caso em humanos foi registrado em 1970 na República Democrática do Congo. Desde então, casos esporádicos têm surgido em algumas partes centrais e ocidentais da selva tropical da África, assinala a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Considerada “uma doença rara”, pela instituição, seus sintomas incluem febre, dor de cabeça, inflamação dos gânglios linfáticos, dores musculares e falta de energia. Depois, aparecem erupções – no rosto, palmas das mãos e solas dos pés –, lesões, pústulas e finalmente crostas.

Desde o início de maio de 2022, casos da enfermidade foram reportados em países como Brasil, Portugal, Canadá e Reino Unido, onde esta ainda não é endêmica.

Vírus diferentes

Mas, ao contrário do que as publicações nas redes sociais sugerem, não há relação entre a varíola do macaco e a herpes-zóster.

Embora alguns sintomas possam ser semelhantes, as duas doenças não são causadas pelo mesmo vírus, ressaltou Isaac Bogoch, professor da Faculdade de Medicina Temerty da Universidade de Toronto.

“Pode haver alguma sobreposição em sua apresentação clínica", disse à AFP, mas "a varíola do macaco e a herpes-zoster são duas infecções completamente diferentes".

Enquanto a herpes-zóster é causada pelo vírus varicela zoster (VVC), um dos nove vírus de herpes conhecidos e o mesmo que transmite a catapora, a varíola do macaco é provocada pelo vírus monkeypox. Este último é classificado como uma zoonose (enfermidades que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos), e é da mesma família da varíola humana.

Os vírus pertencem a grupos distintos, portanto, impossíveis de serem confundidos do ponto de vista morfológico, reiterou Giliane Trindade, pesquisadora do Departamento de Microbiologia do Instituto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG):

Outras diferenças foram apontadas pela virologista da Universidade de Chile Vivian Luchsinger Farias.

“O vírus herpes-zóster tem a peculiaridade de estabelecer uma infecção persistente, ou seja, para a vida toda, pois o genoma do vírus está no núcleo de alguma célula e geralmente não está replicando ou produzindo partículas virais. Às vezes ele se reativa e, com isso, o vírus pode produzir a doença denominada herpes-zóster – que não tem nada a ver com a varíola dos macacos. Ambas as doenças apresentam lesões na pele, mas são diferentes, têm distribuição diferente, são produzidas por vírus diferentes”, declara.

Como explicado por Luchsinger, ambas as doenças podem levar ao desenvolvimento de lesões cutâneas. Contudo, mesmo na manifestação clínica há diferenças, destacou Trindade: as feridas causadas em decorrência da varíola do macaco “são mais circunscritas, mais endurecidas. Elas vão se apresentar todas no mesmo estágio de evolução”.

Já nos casos de herpes, elas possuem estágios diferentes. Além disso, na varíola do macaco, é possível observar o surgimento de lesões nas solas dos pés e na planta das mãos – o que não é característico da herpes.

“Não existe possibilidade de, no laboratório, eles serem confundidos. O diagnóstico é confirmado pelas análises de laboratório e no laboratório, tudo que a gente usa para identificar o vírus da varíola dos macacos é específico para esse vírus. Então eles não seriam confundidos em laboratório”, afirma Trindade.

“Reação” da vacina

Como já explicado em verificação feita pela AFP, a varíola do macaco não tem relação com o adenovírus usado em uma das vacinas anticovid.

“Não há motivo para afirmar que o surto de varíola do macaco esteja relacionado com as vacinas”, explicou também à AFP David Heymann, professor de epidemiologia de doenças infecciosas na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM, na sigla em inglês).

“A varíola do macaco é um vírus de DNA que pertence à família orthopox, apontou Heymann, que investigou surtos da varíola do macaco em humanos na África central e ocidental. Trata-se também de “um vírus muito estável que não modifica; se o faz, é muito pouco”, continuou.

Por outro lado, efetivamente há relatos de pacientes que apresentaram manifestações de herpes-zóster após serem imunizados com uma vacina de mRNA contra a covid-19. No entanto, até o momento, não há estudos conclusivos que permitam estabelecer uma relação definitiva entre os dois.

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