Matéria do Fantástico não falou sobre o spray nasal contra covid-19 que Bolsonaro buscou em 2021

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Em publicações compartilhadas mais de 6 mil vezes, usuários nas redes sociais questionam a edição do último dia 5 de junho do programa “Fantástico” por, supostamente, ter falado sobre o uso de sprays nasais para o tratamento da covid-19 sem mencionar que o presidente Jair Bolsonaro enviou uma comitiva a Israel, em 2021, para saber mais sobre o mesmo produto. Mas essas publicações são enganosas. O programa não falou sobre nenhum fármaco específico, e sim sobre a possibilidade do desenvolvimento de vacinas em formato de spray, que seriam capazes de impedir a infecção pelo SARS-CoV-2. Já o produto que interessou o governo brasileiro em 2021 não era preventivo, e sim um medicamento em formato de spray nasal chamado EXO-CD24 para tratar a doença.

“O Fantástico de ontem, 05/junho, dedicou quase 10 min p/ falar sobre o Spray Nasal de Israel p/ tratamento de Covid. Nenhuma palavra sobre o PR q, em Fev/21, enviou uma comitiva p/ Israel p/ tratar do spray”, diz uma das publicações no Twitter.

“Fantástico faz ‘especial’ sobre spray nasal contra Covid de Israel, mas não cita Bolsonaro, que trata do produto desde fevereiro de 2021”, garante outro usuário. O conteúdo também circula no Facebook, Instagram e Kwai.

Captura de tela feita em 7 de junho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Em 5 de junho de 2022, o programa "Fantástico", da rede Globo, exibiu uma reportagem sobre a pandemia de covid-19 e sobre as vacinas disponíveis até o momento. Na matéria, especialistas afirmaram que um grande avanço no combate à pandemia seria o desenvolvimento de vacinas que, ao invés de serem inoculadas no músculo, seriam aplicadas no formato de um spray nasal, já que o vírus da covid-19 entra no corpo humano pelas vias respiratórias. Dessa forma, uma vacina nesse formato teria mais chances de impedir a infecção e a proliferação do vírus SARS-CoV-2.

Essa possibilidade, explica o programa, está sendo pesquisada por diversas equipes ao redor do mundo. “Esse novo tipo de vacina ainda está em estudos e ainda não há previsão de uso”, reforça o texto abaixo do título do programa.

Não há menção, na reportagem, a nenhum spray sendo desenvolvido em Israel.

Nas publicações virais, é exibida parte dessa reportagem e, em seguida, um trecho de uma transmissão ao vivo realizada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) em 11 de fevereiro de 2021. Nela, o mandatário brasileiro diz que iria conversar com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a respeito de um remédio para “curar a covid”, em formato de spray.

Mas, ao contrário do que sugerem as postagens, as vacinas em formato de spray nasal mencionadas na reportagem do “Fantástico” não têm relação com o remédio contra covid-19 que interessou o governo brasileiro em 2021.

O spray EXO-CD 24

Na transmissão ao vivo realizada por Bolsonaro em 11 de fevereiro de 2021, após aproximadamente 9 minutos e 10 segundos de transmissão, o presidente diz que estava agendado um encontro virtual com o primeiro-ministro israelense para falar sobre um “novo spray que está servindo, pelo menos experimentalmente ainda, para pessoas em estado grave”. Em seguida, ele menciona que a droga em questão chama-se EXO-CD 24.

Um dia depois, o mandatário brasileiro também tuitou que havia conversado com Netanyahu sobre o medicamento "que, até o momento, vem obtendo grande sucesso no tratamento da covid-19 em casos graves”.

Em março de 2021, uma delegação brasileira viajou a Israel e manteve encontros com representantes de diversos centros de pesquisa científica. Na nota à imprensa publicada à época, é mencionado que a delegação iria se encontrar com representantes do Centro Médico Sourasky, responsável pelo desenvolvimento do spray nasal EXO-CD 24. Apesar da viagem, porém, não foi assinado nenhum acordo com o governo brasileiro para adquirir o spray (1, 2, 3).

Em uma nota técnica emitida pelo Ministério da Saúde em fevereiro de 2021, é explicado que o medicamento foi inicialmente desenvolvido para o tratamento do câncer de ovário, e que ele age contra a covid-19 combatendo a chamada tempestade de citocinas desencadeada pela doença. O termo refere-se a uma reação exagerada do sistema de defesa do corpo que pode levar à morte.

No estudo clínico do fármaco registrado na plataforma Clinical Trials, também é possível ver que o medicamento destina-se a pacientes com covid-19 de gravidade moderada a severa.

Ou seja, enquanto o tema do programa eram vacinas, que possibilitariam uma maneira de prevenir a infecção, o medicamento buscado pelo governo brasileiro em 2021 era um possível tratamento contra a covid-19 para casos já avançados da enfermidade.

“Esse medicamento [EXO-CD 24] não tem nada a ver com as vacinas. O mecanismo de atuação do medicamento são exossomos que expressam CD24 para prevenir desenvolvimento de doença severa. Não atua para prevenir infecção”, disse ao Checamos a epidemiologista Denise Garrett, Vice-Presidente do Instituto Sabin de Vacinas, que foi entrevistada na edição de 5 de junho do “Fantástico”. E acrescentou:

O virologista Anderson Brito, pesquisador científico do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), que também participou do programa do “Fantástico”, reforçou ao Checamos que a reportagem em questão falava sobre vacinas que ainda estão sendo desenvolvidas, que seriam aplicadas por via nasal para gerar imunidade no local da aplicação e prevenir a infecção.

“Já o que a tal comitiva do governo prometia era um suposto medicamento, na época ainda em fase de testes, que seria aplicado no nariz, para tratamento. Em comum entre os dois pontos temos apenas o fato de serem aplicados por spray nasal, mas são medidas farmacológicas totalmente distintas”, disse.

De maneira semelhante, o imunologista Jorge Kalil, que pesquisa o desenvolvimento de uma vacina nasal brasileira contra o SARS-CoV-2 e que também concedeu entrevista ao “Fantástico”, afirmou ao Checamos que a “única semelhança” entre sua pesquisa e a realizada em Israel a respeito do EXO-CD 24 é a via de administração: “A que desenvolvo é uma vacina e Israel um [medicamento] imunomodulador”.

Verificação semelhante foi feita pelo Aos Fatos.

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