Ímãs de geladeira com o rosto da rainha Elizabeth II em loja próxima ao Castelo de Windsor, na Inglaterra, em 17 de fevereiro de 2022 ( AFP / Adrian Dennis)

Imagem de ivermectina em matéria sobre rainha Elizabeth com covid foi um erro, diz canal de TV

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Desde 21 de fevereiro de 2022, usuários nas redes sociais garantem que Elizabeth II, monarca do Reino Unido e que foi diagnosticada com covid-19, está utilizando ivermectina para o tratamento da doença. As publicações, compartilhadas mais de 11 mil vezes e com mais de 376 mil visualizações, têm como base uma reportagem sobre a saúde da rainha transmitida por um canal de TV australiano, que exibiu a imagem de um fármaco que contém ivermectina. Mas o canal explicou à AFP que essa imagem foi incluída acidentalmente e que não quis sugerir que a rainha está usando o medicamento. Ao Checamos, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos para Saúde do Reino Unido informou que a ivermectina não é recomendada para tratamento da covid-19 no país.

“Rainha Elizabeth II testou positivo para covid e está tomando ivermectina? Ué, não era o remédio proibido? Não era ‘ineficaz’?”, dizem algumas das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3). Conteúdo de teor similar também foi compartilhado no Instagram (1, 2, 3), Twitter (1, 2, 3) e TikTok (1). Postagens semelhantes circulam em inglês e espanhol.

Captura de tela feita em 22 de fevereiro de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Diversas postagens (1, 2, 3) incluem um fragmento do programa de TV australiano “A Current Affair”, no qual é possível ver uma caixa do remédio Stromectol, que contém ivermectina. Nesse momento da reportagem, a narração diz, em tradução livre para o português: “O doutor Mukesh Haikerwal afirma que um paciente com covid-19 com a idade da rainha deve ser isolado e pode se beneficiar de novos medicamentos atualmente aprovados para pacientes de alto risco em hospitais australianos”. A narração não cita a ivermectina como “novo medicamento”.

“Esses comprimidos, ou essas infusões, podem fazer uma diferença dramática para o bem-estar e saúde imediatos, e para a maneira como eles [pacientes] se sentem, mas também para os benefícios a longo prazo”, afirma o médico citado no trecho viralizado, após a aparição do remédio na tela.

A reportagem, exibida em 21 de fevereiro de 2022, falava sobre o fato de a rainha ter testado positivo para covid-19, conforme anunciado pelo Palácio de Buckingham no dia anterior.

A matéria também foi exibida no Facebook do programa, como mostra uma versão em cache da página, que encontra-se indisponível.

“Erro humano”

Em nota, o canal Nine Network, no qual é exibido o programa “A Current Affair”, explicou à AFP que a inclusão da imagem do remédio Stromectol na reportagem não foi intencional.

“Nossa reportagem sobre a rainha continha uma cena que não deveria ter sido incluída. A imagem foi incluída como resultado de erro humano. Nós estávamos destacando um medicamento de infusão aprovado chamado ‘Sotrovimab’, e a reportagem acidentalmente cortou para a imagem de ‘Stromectol’ - um produto que contém ivermectina”, afirmou o canal, em e-mail enviado em 22 de fevereiro de 2022.

“No programa, nós fizemos inúmeras reportagens ressaltando as preocupações em relação ao uso de ivermectina para o tratamento da covid-19. Nós não pretendíamos sugerir que o Dr. Mukesh Haikerwal apoiava o uso de ‘Stromectol’. Nós pedimos desculpas a ele (...). Não sugerimos que a rainha está usando ivermectina. Nós corrigimos a matéria”, acrescentou o texto.

Uma cópia do comunicado também pode ser vista na respectiva matéria, publicada no site do programa, ao final da página.

O medicamento Sotrovimab é um tratamento com anticorpos monoclonais que foi aprovado provisoriamente pela agência reguladora da Austrália, a Administração Australiana de Bens Terapêuticos (TGA), em 20 de agosto de 2021.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento em caráter emergencial em setembro de 2021.

Já a ivermectina não é recomendada como tratamento contra a covid-19 na Austrália nem no Reino Unido. No Brasil, a Anvisa tampouco recomenda o antiparasitário para o tratamento da doença.

A agência reguladora de medicamentos do Reino Unido (MHRA) explicou ao Checamos em 22 de fevereiro de 2022 que a ivermectina não é um produto licenciado para o tratamento da covid-19 no país, e que só pode ser tomada por participantes em ensaios clínicos altamente regulados e monitorados. “Evidências científicas atuais não apoiam seu uso fora de ensaios clínicos”, detalhou a MHRA em nota à AFP.

“Por exemplo, os resultados do ensaio clínico I-TECH – um estudo randomizado que analisa a eficácia da ivermectina contra a covid-19 – acabam de ser publicados no Journal of American Medical Association e não recomendam o uso de ivermectina para pacientes com covid -19”, acrescentou a MHRA.

Imagem “inserida inadvertidamente”

O médico que aparece na gravação viralizada, Mukesh Haikerwal, também afirmou que a imagem do remédio que contém ivermectina foi incluída acidentalmente, em diversas publicações em suas redes sociais (1, 2, 3).

“Esta é a lista de medicamentos que estão sendo usados na Austrália para tratamento definitivo contra a covid-19. Eu entendo que as imagens inadvertidamente inseridas [na reportagem viralizada] serão removidas ao longo do dia de hoje. O canal foi alertado”, escreveu o médico em 21 de fevereiro, em um tuíte que contém um link para uma reportagem sobre medicamentos recentemente aprovados contra a doença. A matéria não menciona ivermectina ou Stromectol.

O Checamos já verificou diversas alegações a respeito do uso da ivermectina contra covid-19 (1, 2, 3, 4).

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