Uma técnica de laboratório usa uma pipeta para testar amostras do novo coronavírus no Biogroup Laboratory, em Londres, em 21 de janeiro de 2021 (Justin Tallis / AFP)

Oxford não confirmou a eficácia da ivermectina contra a covid-19, apenas começou um estudo

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Publicações compartilhadas mais de 4,4 mil vezes nas redes sociais desde o último dia 23 de junho afirmam que um estudo feito pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, já mostra que o uso antecipado da ivermectina pode diminuir a carga viral do novo coronavírus. As postagens, no entanto, desconsideram o fato de que o estudo ainda está na fase inicial e que não há resultados definitivos sobre o medicamento e a covid-19.

“Negacionismo da ivermectina promovido pela esquerda pode ter matado milhares de brasileiros” e “Ivermectina reduz replicação do vírus da Covid, afirma Universidade de Oxford”, são alguns das legendas que acompanham as publicações viralizadas no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2, 3) e em sites (1, 2).

No Twitter (1, 2) alguns usuários se mostraram ainda mais enfáticos: “A própria Universidade de Oxford se obrigou hoje a assumir o sucesso que está tendo nos testes com ivermectina. Agora imaginem se esses políticos e juízes, que fazem uma oposição cega ao presidente, não tivessem impedido nosso povo de usa-la… Quantas vidas teríamos salvado?”.

Captura de tela feita em 24 de junho de 2021 de uma publicação no Twitter

Alegações semelhantes também circularam em espanhol (1, 2, 3).

Uma busca no Google pelos termos, em inglês, “Oxford University + ivermectin” levou a uma publicação de 23 de junho de 2021 no próprio site da instituição onde é informado que a ivermectina, um antiparasitário que combate diferentes tipos de parasitas em diversas fases de desenvolvimento, será analisada como um possível tratamento contra a covid-19.

Segundo a Oxford, a partir do dia 23 de junho o antiparasitário começará a ser investigado na Plataforma de Ensaio Randomizado de Tratamento na Comunidade para Doenças Epidêmicas e Pandêmicas (PRINCIPLE, na sigla em inglês).

Sob a liderança da universidade, esse estudo busca analisar tratamentos para pessoas com maior risco de formas graves da covid-19 que possam acelerar a recuperação, reduzir a gravidade dos sintomas e prevenir a necessidade de internação hospitalar. Até então, mais de 5 mil voluntários foram recrutados em todo o Reino Unido.

No site do PRINCIPLE é explicado que a ivermectina demonstrou reduzir a replicação do SARS-CoV-2, vírus causador da covid-19, em laboratório. De fato, este remédio mostrou um bom resultado in vitro, mas isso significa que os testes não foram realizados dentro de um organismo vivo, como explicou o AFP Checamos nessa verificação.

Há, contudo, uma ressalva feita pelo PRINCIPLE: apesar de alguns pequenos estudos-piloto terem mostrado que o uso antecipado da ivermectina pode diminuir a carga viral e a duração dos sintomas em pacientes com formas leves da covid-19, “há poucas evidências de ensaios clínicos randomizados em grande escala para demonstrar que ela pode acelerar a recuperação da doença ou reduzir a internação hospitalar”.

Uma bióloga do laboratório farmacêutico OSE Immunotherapeutics trabalha no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19 em Nantes, na França, em 31 de março de 2021 (Loic Venance / AFP)

Segundo o professor Chris Butler, do Departamento de Ciências da Saúde de Nuffield da Universidade de Oxford e pesquisador-chefe do estudo, “ao incluírem a ivermectina em um ensaio em larga escala como o PRINCIPLE, esperamos gerar evidências robustas para determinar a eficácia do tratamento contra a covid-19, e se existem benefícios ou danos associados ao seu uso”.

Para participar do teste é necessário ter idade igual ou superior a 65 anos ou no caso de pessoas mais novas (entre 18 e 64 anos), ter falta de ar como parte dos sintomas da covid-19, ou alguma das comorbidades listadas no folheto explicativo.

Este não é o primeiro estudo feito pelo PRINCIPLE para encontrar tratamentos contra a doença causada pelo novo coronavírus que evitem a ida de pacientes ao hospital.

Um caso semelhante a esse foi o de um estudo argentino publicado na revista Lancet que, segundo as publicações viralizadas, constataria a eficácia da ivermectina na redução da carga viral de pacientes com covid-19. Nesta verificação da AFP, os autores explicam que além do tamanho da amostra utilizada, mais testes são necessários para, de fato, determinar se o antiparasitário pode prevenir ou tratar a doença causada pelo novo coronavírus.

Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a ivermectina seja empregada apenas em ensaios clínicos. A Agência de Medicamentos e Alimentos (FDA) dos Estados Unidos e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) advertiram que o medicamento não funciona como tratamento contra o novo coronavírus, mas que apoiam a realização de estudos com o objetivo de encontrar tratamentos para a doença.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por sua vez, assinalou que não existem “estudos conclusivos” que comprovem ou refutem o uso da ivermectina contra a doença causada pelo Sars-CoV-2 e que “não existem medicamentos aprovados para prevenção ou tratamento da covid-19 no Brasil. Nesse sentido, as indicações aprovadas para a ivermectina são aquelas constantes da bula do medicamento”.

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