Um trabalhador de saúde exibe um frasco de ivermectina em Cali, Colômbia, em 21 de julho de 2020 (Luis Robayo / AFP)

A eficácia da ivermectina contra a covid-19 não foi demonstrada cientificamente

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Desde o início da pandemia, publicações compartilhadas centenas de milhares de vezes em redes sociais apresentam a ivermectina, um medicamento antiparasitário, como um tratamento útil contra a covid-19, e até mesmo como um remédio “milagroso”. Até agora, porém, sua eficácia não foi comprovada e as evidências científicas não permitem afirmar que o medicamento previna ou cure a doença, explicaram vários especialistas e instituições.

A ivermectina é um medicamento barato para uso veterinário e humano, recomendado contra parasitas, como sarna, oncocercose e piolhos.

No último ano e meio, multiplicaram-se nas redes sociais publicações sobre seu mérito e suposta eficácia no combate à covid-19 não apenas em português, mas também em espanhol, francês, inglês, entre outros idiomas.

Nos Estados Unidos, médicos reunidos em um grupo chamado “Front line COVID-19 Critical Care Alliance” defendem com afinco este medicamento. Em dezembro de 2020, seu principal responsável, o médico Pierre Kory, assegurou, inclusive perante uma comissão do Senado norte-americano, que sua eficácia havia sido comprovada.

No Brasil, o medicamento passou a ser frequentemente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (1, 2).

Sua suposta eficácia contra a covid-19 também foi mencionada pelo infectologista Ricardo Zimerman em junho de 2021, durante uma audiência na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga se o governo federal foi negligente na gestão da pandemia. 

Para promover o medicamento, é frequentemente utilizada a mesma retórica, segundo a qual as autoridades o ignoram porque é barato e, portanto, não seria rentável para a indústria farmacêutica.

As evidências científicas disponíveis até este momento não permitem afirmar, no entanto, que o remédio possa ser utilizado para combater a covid-19.

In vitro

Embora um estudo australiano publicado em abril de 2020 tenha observado uma eficácia in vitro (laboratório) da ivermectina contra o vírus SARS-CoV-2, isso não foi demonstrado em humanos, já que, até o momento, os ensaios foram limitados e muito enviesados.

Além disso, muitas vezes, os tratamentos in vitro não podem ser traduzidos para humanos, especialmente porque as mesmas concentrações de drogas não podem ser administradas.

A Sociedade Francesa de Farmacologia e Terapêutica (SFPT) explica claramente em seu site que “a concentração na qual a ivermectina tem um efeito terapêutico contra o SARS-CoV-2 in vitro é 35 vezes superior à concentração máxima obtida após a administração da dose oral recomendada em humanos para o tratamento antiparasitário usual”.

Além disso, a instituição sinaliza que as células utilizadas no estudo australiano também são motivo de preocupação. “O modelo utilizado neste estudo (células Vero) é irrelevante para analisar uma infecção por SARS-CoV-2, já que os mecanismos enzimáticos necessários para a ação do vírus em células humanas estão ausentes nelas”, afirma em seu site.

“Até o momento, nenhum dado permite recomendar a utilização da ivermectina para prevenir ou tratar uma infecção por Sars-CoV-2. Além disso, não há dados sobre a segurança de sua utilização para esse propósito”, sinalizou também a SFPT em nota atualizada em 1º de abril de 2021. 

Um médico do Sistema de Emergências Médicas de Buenos Aires (SAME) borrifa álcool em seu colega em 20 de maio de 2020 (Ronaldo Schemidt / AFP)

Na realidade, “a maioria dos estudos clínicos (publicados) recentemente sobre o assunto são inconclusivos, a maioria ou são pré-publicações não validadas por colegas, ou, quando são publicados, são estudos com vieses metodológicos de maneira que os resultados são de difícil interpretação e não permitem tirar conclusões”, resume a instituição francesa.

Em outubro de 2020, a Sociedade Argentina de Infectologia (Sadi) publicou um comunicado indicando que “a evidência disponível in vitro sugere que para alcançar níveis eficazes de ivermectina, seriam necessários aumentos de dose significativos e potencialmente tóxicos”, e que mesmo “doses até 10 vezes maiores do que as aprovadas não alcançariam as concentrações in vitro eficazes contra o SARS-CoV-2”.

Segundo a Sadi, a evidência científica disponível até o momento sobre o uso da ivermectina no tratamento ou prevenção da covid-19 era de “qualidade muito baixa” e não contava com “dados claros de eficácia clínica”.

À pergunta “Devo tomar ivermectina para prevenir ou tratar a covid-19?”, a agência de medicamentos dos Estados Unidos, FDA, responde: “Não. Embora existam usos aprovados de ivermectina em pessoas e animais, ela não está aprovada para a prevenção ou tratamento de covid-19”, como indica em seu site em 18 de junho de 2021.

Sem revisão

Outras fontes frequentemente citadas nas redes sociais são, na verdade, estudos que não foram revisados por outros cientistas antes de sua publicação em um periódico. Dois deles (1, 2) associam a ivermectina a uma menor mortalidade por covid-19, no entanto, ambos os trabalhos foram retirados, como indica a palavra “RETRATADO” sobreposta aos documentos.

Alguns de seus autores são os mesmos que publicaram um controverso estudo sobre a hidroxicloroquina que foi retirado da revista científica britânica The Lancet em junho de 2020. Os trabalhos utilizavam informações médicas da nebulosa e polêmica companhia Surgisphere, que nunca explicou de onde vieram seus dados.

A Unitaid, a organização internacional de compra de medicamentos para países pobres que monitora de perto qualquer tratamento potencial contra a covid-19, estima que há “dados preliminares promissores”, mas que “devemos aguardar os resultados de outros testes”, antes de eventualmente prever novas etapas.

“Para ter 100% de certeza da eficácia de uma droga, precisamos de resultados de maiores ensaios clínicos randomizados” do que foi feito até agora, explicou à AFP o professor Kim Woo-joo, do departamento de Doenças Infecciosas do Hospital Universitário da Coreia, em Seul.

Uso não recomendado

Em resposta a atenção internacional que a ivermectina vinha recebendo como um possível tratamento contra a covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu um painel de especialistas independentes para revisar dados de 16 ensaios clínicos randomizados sobre o medicamento.

A conclusão dos especialistas foi divulgada em 31 de março de 2021: “Eles determinaram que a evidência sobre se a ivermectina reduz a mortalidade, necessidade de ventilação mecânica, necessidade de admissão hospitalar e o tempo para melhora clínica em pacientes com covid-19 é de ‘certeza muito baixa’, devido ao pequeno tamanho e às limitações metodológicas dos dados de ensaios disponíveis”.

Como consequência, a OMS recomenda que a ivermectina somente seja utilizada para tratar a covid-19 em ensaios clínicos.

Avaliação semelhante foi feita pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), em março de 2021. “Após notícias e publicações recentes sobre o uso da ivermectina, a EMA revisou as últimas evidências publicadas por estudos de laboratório, estudos observacionais, estudos clínicos e meta-análises”, afirmou.

“A maior parte dos estudos revisados pela EMA eram pequenos e tinham outras limitações, incluindo diferentes regimes de dosagem e uso de medicamentos concomitantes. Portanto, a EMA concluiu que a evidência disponível atualmente não é suficiente para embasar o uso da ivermectina contra a covid-19 fora de estudos clínicos”, indicou a agência.

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