A prisão do cientista norte-americano Charles Lieber não tem relação com a “venda” da COVID-19

Diversos vídeos e imagens da suposta prisão do cientista norte-americano Charles Lieber por ter fabricado e vendido o novo coronavírus à China circulam nas redes sociais desde o último dia 3 de abril. Lieber realmente foi detido em janeiro, mas, diferentemente do que alegam as postagens viralizadas, isto se deu por supostamente trabalhar em segredo com o país asiático no roubo de propriedade intelectual.

“HOMEM QUE VENDEU O CORONA VIRUS NA CHINA, PRESO. Os EUA acabou de descobrir o homem que fabricou e vendeu o virus de Corona à China. Chama-se Dr charles Lieber chefe do departamento de quimica e biologia na Universidade de Havard, EUA. Acabou de ser preso hoje segundo fontes do departamento Americano.. DEUS é Grande e é pai. Essa notícia deu na BBC [sic], indica uma publicação no Facebook, acompanhada de um vídeo sobre a prisão do cientista norte-americano.

O conteúdo foi compartilhado mais de 5,6 mil vezes no Facebook (1, 2, 3, 4, 5), Twitter (1, 2) e no YouTube. Também aparece em sites na Internet e circulou em idiomas como inglês, francês e espanhol.

Alguns usuários demonstraram indignação nas redes sociais: “Ninguém vende um Vírus sem ter o antídoto, se prenderam ele então peçam para ele dar o Antídoto [sic], “A China tinha razão de dizer q o virus vem de fora [sic] e “Depois de mostrar a cura tem que ser morto [sic].

Outros expressaram desconfiança diante da descrição feita sobre o vídeo: “Na notícia não mencionaram qualquer informação sobre a criação do vírus pelo cientista, apenas uma ilegalidade ao ter contracto com a China e trabalhar ao mesmo tempo na universidade de Harvard.. [sic], “Isso é mentira,se fosse verdade seria a Notícia do momento no mundo tdo [sic] e “Isto não passa de fake news, ele não fui preso por Corona virus coisa nem uma, se isto fosse o caso não achas k serio manchete de jornal pelo mundo todo? Pensa mano [sic].

Captura de tela feita em 15 de abril de 2020 de uma publicação no Facebook

A gravação usada como prova é uma matéria transmitida por um noticiário da emissora WCVB, o canal 5 da televisão local de Boston, que pertence à cadeia de comunicação americana ABC.

Charles Lieber

Charles Lieber é um cientista norte-americano nascido em 1959. Cursou Química no Franklin and Marshall College e desde julho de 2015 desempenhava a função de diretor do Departamento de Química e Biologia Química na Universidade de Harvard. Pertence também à Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos e a outras instituições acadêmicas do país.

Segundo o seu perfil no site de Harvard, publicou mais de 400 artigos e é o principal inventor de mais de 50 patentes. “Em seu tempo livre, Lieber comercializou nanotecnologia, em 2001 fundou a companhia Nanosys Inc. e em 2007 a companhia Vista Theraupetics, indica a instituição.

O vídeo viralizado pode ser encontrado no canal do YouTube da emissora WCVB, publicado em 28 de janeiro deste ano.

O procurador de Massachusetts Andrew Lelling disse que emitiu o relatório sobre a prisão de três cientistas - Lieber e outros dois de origem chinesa - por supostamente terem ocultado as suas ligações com o governo chinês.

O procurador assegurou que a China empregava Lieber como “cientista estrategista” e lhe pagava um salário de 50 mil dólares por mês, bem como até 158 mil dólares por ano em gastos. Indicaram que ele recebeu mais de 1,5 milhão de dólares para instalar um laboratório na Universidade de Tecnologia de Wuhan.

Durante a entrevista coletiva, foi dito que Lieber mentiu em duas oportunidades sobre a sua afiliação com a Universidade de Wuhan e afirmou não estar envolvido no “Plano de Mil Talentos” do governo chinês.

Como receptor de mais de 15 milhões de dólares em fundos governamentais para pesquisa, Lieber deveria informar qualquer eventual conflito de interesse financeiro estrangeiro, incluindo apoio financeiro de governos, ou entidades estrangeiras, de acordo com as autoridades norte-americanas.

“Esta é uma pequena amostra da campanha contínua da China de absorver conhecimento e tecnologia norte-americanos em benefício próprio”, assinalou Lelling naquele momento.

Vírus fabricado?

Os oficiais do Departamento de Justiça dos Estados Unidos em nenhum momento mencionaram que Lieber estivesse ligado à criação, ou venda, do novo coronavírus à China.

Atualmente, não se sabe a origem do novo coronavírus. Em 17 de março deste ano foi publicado um estudo na revista científica Nature reiterando que o novo coronavírus tem uma origem natural: “A nossa análise mostra claramente que o SARS-CoV-2 não é uma criação de laboratório, ou um vírus que foi manipulado com um propósito”.

Como parte do estudo, os autores analisaram a estrutura genética do vírus SARS-CoV-2, concluindo que, se houvesse uma manipulação em laboratório, a sua estrutura seria similar a de outros organismos já existentes. “No entanto, os dados genéticos mostram irrefutavelmente que o SARS-CoV-2 não é derivado de nenhuma estrutura do vírus central usado anteriormente”, indica a pesquisa.

Esta possibilidade também é considerada como a mais provável pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo uma explicação encontrada em seu site: “Todos os dados disponíveis sugerem que o SARS-CoV-2 tem uma origem animal e não é um vírus criado em laboratório. O mais provável é que o vírus tenha seu reservatório natural nos morcegos”.

A equipe de checagem da AFP já publicou artigos sobre a suposta origem do novo coronavírus.

Detectada no final de 2019 na cidade de Wuhan, na China, até 15 de abril a COVID-19 já havia deixado mais de 131 mil mortos e mais de 2 milhões de casos de contágio em todo o mundo.

Em resumo, é falso que o cientista norte-americano Charles Lieber tenha sido acusado e detido pela criação e venda do coronavírus SARS-CoV-2 à China. Na verdade, Lieber foi preso por supostamente ser um “cientista estrategista” do governo chinês e ter ocultado o seu papel em um programa de roubo de propriedade intelectual. Além disso, não existem evidências científicas que comprovem que o vírus da COVID-19 foi criado em um laboratório.

Louis Baudoin-Laarman
AFP Brasil