Os CDC não anunciaram que a covid-19 causou “somente 6%” das mortes atribuídas a essa doença

Copyright © AFP 2017-2020. Todos os direitos reservados.

Publicações compartilhadas milhares de vezes nas redes sociais desde o final de agosto afirmam que os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos anunciaram que apenas 6% das mortes atribuídas ao SARS-CoV-2 nesse país foram causadas pela covid-19, enquanto as 94% restantes ocorreram por outras doenças. Na verdade, isto surge de uma interpretação incorreta das estatísticas sobre comorbidades, segundo explicou o diretor do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde (NCHS).

“Somente 6% das mortes da pandemia foram causadas exclusivamente por COVID-19, revela CDC”, dizem as publicações que circularam amplamente no Facebook (1, 2), Twitter (1, 2), Instagram (1, 2) e em sites (1, 2) desde o último dia 30 de agosto.

Algumas postagens mostram uma imagem dos CDC juntamente com o seguinte texto: “Um levantamento divulgado na última semana pelo CDC, órgão governamental americano responsável pelo controle de doenças no país, revelou que 94% dos mortos com COVID-19 tinham também outra causa associada à morte; APENAS 6% DOS MORTOS contaminados com o coronavírus morreram em decorrência EXCLUSIVA DE COVID-19”.

Captura de tela feita em 2 de setembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Publicações semelhantes também viralizaram em espanhol, inglês e francês, e a afirmação foi retuitada, entre outros, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Algumas postagens fazem referência a uma tabela com informações estatísticas no site dos CDC. Mas o que estes números refletem?

Bob Anderson, diretor de Estatísticas de Mortalidade do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde (NCHS, por sua sigla em inglês), a principal agência de estatísticas de saúde do dos Estados Unidos, dependente dos CDC, explicou à equipe de checagem da AFP por telefone que todas as mortes na tabela citada se referem às que a covid-19 foi a causa subjacente.

“Consiste basicamente em tabular cada uma das doenças que também são relatadas junto com a covid-19”, disse. “Estes dados provêm das certidões de óbito, e a certidão de óbito é projetada para capturar somente informações sobre as causas de morte, o que significa que a covid-19 não deve ser registrada como ‘um fator incidental, ou trivial’”.

Anderson esclareceu que mesmo que uma pessoa morra de pneumonia, ela a terá desenvolvido a partir da covid-19, e ambas as doenças serão anotadas em sua certidão de óbito, mas a sua morte será contada apenas uma vez, como covid-19.

“É ridículo, porque se realmente lessem, entenderiam um pouco melhor o que está acontecendo aqui”, expressou.

Muitas vezes as comorbidades, termo usado quando uma doença, ou problema, existe simultaneamente com outra, são, na realidade, complicações da covid-19, continuou Anderson.

“Existem coisas como insuficiência respiratória aguda causada pela covid-19, ou pneumonia causada pela covid-19”, assinalou. Assim, embora estas doenças sejam tecnicamente comorbidades, “a covid-19 é a causa subjacente da morte, porque causou pneumonia, que provocou a morte da pessoa”.

Em todos os 161.392 casos que aparecem na tabela de comorbidade dos CDC, a causa subjacente da morte é a covid-19, explicou Anderson. A tabela indica que para 94% das mortes por covid-19 reportadas, “algo mais foi relatado como uma complicação, ou como um fator contribuinte”.

Em um segundo telefonema à AFP, em 2 de setembro, Anderson citou um número ligeiramente inferior, de 92%, em que a covid-19 foi o principal fator que causou a morte registrada pelos CDC.

“Em 92% dos casos é a doença que iniciou a cadeia” de eventos, assinalou. “Mas em 8% dos casos, é reportada como sendo apenas um fator contribuinte. Portanto, algumas outras doenças são reportadas como causa subjacente, e a covid-19 é relatada como fator contribuinte”.

Mas é raro que alguém morra somente por covid-19, afirmou Anderson.

Captura de tela feita em 2 de setembro de 2020 da tabela publicada no site dos CDC

“Queremos a sequência de eventos, queremos essa via causal” que levou à morte, “e a maioria dos certificadores entende isso, então eles vão relatar ‘pneumonia devido à covid-19’”, exemplificou.

Anderson destacou a importância de rastrear as comorbidades pois “isso pode dar uma ideia de quem poderia estar em risco”.

Como já foi verificado pelo AFP Checamos, afirmações similares circularam sobre a contagem de mortos por covid-19 na Itália, confundindo a comorbidade com o motivo das mortes e assegurando, erroneamente, que 96,3% dos italianos oficialmente mortos pelo novo coronavírus, na verdade, “faleceram por outras patologias”.

Até 2 de setembro de 2020, de acordo com uma contagem da AFP com base em dados oficiais, mais de 184 mil pessoas perderam a vida para covid-19 nos Estados Unidos, que registra mais de 6 milhões de casos de contágio.

Em resumo, as afirmações viralizadas nas redes sociais interpretam incorretamente as informações estatísticas publicadas pelos CDC e confundem comorbidade com causa de morte. Todos os 161.392 casos registrados por esta agência em 26 de agosto morreram de covid-19, sendo que 6% deste total não tinha outra patologia relatada como complicação, ou um fator contribuinte para a morte.

EDIT 03/09: Atualiza com declarações adicionais de Bob Anderson nos parágrafos 13, 14 e 15
Claire Savage
 
AFP EUA
Tradução e adaptação
AFP Argentina
AFP Brasil
CORONAVÍRUS