Esta é a porcentagem de pessoas com patologias prévias em uma amostra de mortos por COVID-19

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Um vídeo em que um deputado italiano afirma que 96,3% das vítimas do novo coronavírus na Itália faleceram, na verdade, “por outras patologias” foi compartilhado dezenas de milhares de vezes em redes sociais desde o início de maio. O político europeu confundiu, no entanto, a taxa de comorbidade com a de causa da morte no discurso viralizado.

“AS FALSAS MORTES NA ITÁLIA POR CORONAVÍRUS (Denúncia no Parlamento Italiano)”, diz o título do vídeo, visualizado mais de 81 mil vezes no YouTube desde o último dia 3 de março.

“O parlamentar italiano Vittorio SGARBI DENUNCIA a HIPOCRISIA e MENTIRA sobre o coronavírus na ITÁLIA, COM INFORMAÇÕES ALARMANTES”, escreveu uma usuária, ao publicar a gravação no Facebook. “Os NÚMEROS anunciados de 25 MIL MORTES na Itália por CORONAVÍRUS SÃO FALSOS, TERRORISMO COM MORTES foi usado, a verdade é que 96,3% destas mortes FORAM EM DECORRÊNCIA de OUTRAS PATOLOGIAS e não o coronavírus [sic], continua a postagem.

O mesmo vídeo foi publicado pela deputada federal Carla Zambelli, em postagem compartilhada mais de 43 mil vezes no Facebook. A gravação ainda ilustra diversas outras publicações no Facebook e YouTube, além de ter circulado amplamente em espanhol

Captura de tela feita em 29 de maio de 2020 mostra vídeo publicado no Facebook

As imagens mostram uma intervenção do político italiano - que não faz parte de nenhum grupo parlamentar - realizada na Câmara dos Deputados no último dia 24 de abril e cujo vídeo foi publicado em seu próprio canal no YouTube.

A partir dos 58 segundos, Sgarbi afirma: “Não digam, inclusive aqui, 25 mil mortos, não é verdade! Não usem os mortos para retórica e para terrorismo. Os dados do Instituto Superior de Saúde dizem que 96,3% morreram por outras patologias”.

“Os 25 mil mortos (...) morreram de infartos, de câncer, para elevar a taxa”, continua, a partir dos 3 minutos e 30 segundos da sequência.

No entanto, Vittorio Sgarbi não interpretou corretamente as estatísticas do Instituto Superior de Saúde Italiano publicadas no último dia 23 de abril.

O estudo realizado pelo instituto italiano com 2.041 pessoas falecidas que haviam testado positivo para o novo coronavírus mostrou que “74 pacientes (3,6% da amostra) não apresentavam nenhuma patologia [prévia], 294 (14,4%) apresentavam uma patologia, 431 (21,1%) apresentavam duas patologias e 1.242 (60,9%) apresentavam três patologias ou mais”

Captura de tela do site do Instituto Superior de Saúde da Itália, feita em 26 de maio de 2020

Somadas, as porcentagens das vítimas que haviam uma ou várias patologias além do novo coronavírus, totalizam 96,4%, cifra semelhante à citada por Sgarbi. Esse número corresponde aos pacientes que tinham alguma comorbidade, ou seja, a presença de mais de uma doença simultaneamente.

A hipertensão arterial (69,1% da amostra) e a diabetes tipo 2 (31,7%) são as principais patologias prévias identificadas neste estudo.

Embora sofrer destas doenças tenha tornado os pacientes mais vulneráveis ao novo coronavírus isso não significa, como afirmou o deputado italiano, que 96,3% dos pacientes do levantamento faleceram “por outras patologias”.

Além disso, como indicou o site de checagem italiano Pagella Politica, dados publicados no início do mês de maio pelo Instituto Italiano de Estatísticas (Istat) mostram que, de 20 de fevereiro até 31 de março de 2020, foram registradas 25.354 mortes a mais na Itália do que a média dos cinco anos anteriores. Destas mortes, 13.170 foram atribuídas a COVID-19 até agora.

Até este dia 29 de maio, 33.142 pessoas que contraíram o novo coronavírus faleceram na Itália, segundo o levantamento da AFP, feito com base em dados oficiais.

Em resumo, a afirmação de que 96,3% das mortes atribuídas ao novo coronavírus na Itália se devem, na verdade, a outras patologias não é correta. Esta taxa corresponde à quantidade de pessoas que tinham patologias prévias em um grupo de vítimas da COVID-19.

AFP Brasil
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