O cubano Alexis Valdés escreveu em 2020 o poema conhecido como “Quando a tempestade passar”

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Um poema sobre os ensinamentos que uma crise coletiva pode deixar aos seres humanos foi compartilhado mais de 16 mil vezes nas redes sociais desde o fim de setembro com a afirmação de que foi escrito no século XIX depois de uma epidemia. Mas o autor do texto é, na realidade, o ator e humorista cubano Alexis Valdés, que publicou-o pela primeira vez em sua conta no Instagram em 20 de março deste ano.

“Olhem que beleza desse poema escrito há 2 séculos”, indicam publicações compartilhadas milhares de vezes no Facebook (1, 2) desde o último dia 28 de setembro, juntamente com um poema de 10 estrofes com uma reflexão sobre como os seres humanos podem melhorar após atravessar uma crise coletiva.

Ao final da última estrofe, afirma-se que as linhas foram escritas por K. O’Meara “durante a epidemia de peste em 1800”.

Captura de tela feita em 9 de outubro de 2020 de uma publicação no Facebook

A afirmação de que o poema foi escrito no século XIX também circulou no Instagram e nas redes sociais em espanhol.

A origem do poema

Uma busca no Google por palavras-chave mostrou rapidamente que o texto foi publicado pela primeira vez em 21 de março de 2020 na conta do Instagram do ator e humorista cubano radicado em Miami Alexis Valdés, intitulado “Esperança”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Esperanza. Cuando la tormenta pase Y se amansen los caminos , y seamos sobrevivientes de un naufragio colectivo. Con el corazón lloroso y el destino bendecido nos sentiremos dichosos tan sólo por estar vivos. Y le daremos un abrazo al primer desconocido y alabaremos la suerte de conservar un amigo. Y entonces recordaremos todo aquello que perdimos y de una vez aprenderemos todo lo que no aprendimos. Ya no tendremos envidia pues todos habrán sufrido. Ya no tendremos desidia Seremos más compasivos. Valdrá más lo que es de todos Que lo jamas conseguido Seremos más generosos Y mucho más comprometidos Entenderemos lo frágil que significa estar vivos Sudaremos empatía por quien está y quien se ha ido. Extrañaremos al viejo pue pedía un peso en el mercado que no supimos su nombre y siempre estuvo a tu lado. Y quizás el viejo pobre era tu Dios disfrazado. Nunca preguntaste el nombre porque estabas apurado. Y dodo será un milagro Y todo será un legado Y se respetará la vida, la vida que hemos ganado. Cuando la tormenta pase te pido Dios, apenado, que nos devuelvas mejores, como nos habías soñado. Alexis Valdés

Uma publicação compartilhada por Alexis Valdes (@alexisvaldes) em

A publicação recebeu inúmeros comentários. A maioria parabenizou Valdés pelo poema, mas outros criticaram dizendo que ele teria plagiado o poeta uruguaio Mario Benedetti, ou a autora “K.O. Meara”, que supostamente escreveu-o “durante a peste de 1800”.

Por telefone, Alexis Valdés confirmou à equipe de checagem da AFP que a autoria de “Esperança” é sua e falou sobre a confusão iniciada poucas semanas após ter publicado-o.

“Em abril houve gente que atribuiu o poema a Mario Benedetti. A fundação do autor no Uruguai teve que negar publicamente que fosse dele”, contou.

De fato, a Fundação Mario Benedetti esclareceu em abril que o poeta uruguaio não havia escrito a obra que circulava nas redes sob o título “Esperança”, “Quando a tempestade passar”, ou “Tempestade”.

Repercussão

O poema se tornou viral e personalidades do mundo hispânico, incluindo o próprio Alexis Valdés, o recitaram em um vídeo coletivo publicado em 21 de abril.

Com produção do músico cubano Yainer Horta, Valdés também compôs uma canção a partir de seu poema. O cantor e compositor argentino Piero fez o mesmo e tornou pública a sua versão em junho.

“Me sinto lisonjeado com o sucesso do poema. Durante cinco meses recebi mensagens de agradecimento de pessoas que o leram”, disse Valdés à AFP. E indicou que foi contatado por atores, locutores, estudantes, docentes, sindicatos e funcionários da saúde da região e da Espanha pedindo a sua autorização para gravá-lo e interpretá-lo.

“Há 40 anos eu atuo e faço comédia. Trabalhei em muitos países e nunca havia feito nada que se tornasse tão significativo para tanta gente”, assinalou.

Quem é K. O’Meara?

“Soube que estão atribuindo o poema a alguém do século XIX”, afirmou Valdés, que no Instagram levou com surpresa e bom humor o boato de que as estrofes haviam sido escritas por “K. O’Meara” há mais de 200 anos.

A verdade é que o de Valdés não é o primeiro poema atribuído erroneamente a esta autora.

Em março, alguns dias antes da publicação de “Esperança”, o poema de uma professora aposentada de Wisconsin, nos Estados Unidos, chamada Catherine “Kitty” O'Meara viralizou nas redes sociais.

Seu texto, intitulado “Em tempos de pandemia” e originalmente escrito em inglês, foi rapidamente atribuído nas redes à irlandesa Kathleen O’Meara (1839-1888), autora de várias biografias e romances, mas não de poesia. Além disso, assim como com o poema de Valdés, assinalaram que a obra de “Kitty” datava “da peste de 1800”.

Em abril, o Checamos verificou “Em tempos de pandemia”, constatando que a semelhança entre os nomes Catherine O’Meara - autora do poema - e Kathleen O’Meara - escritora do século XIX - pode ter estado na origem da confusão sobre a autoria.

O poema do artista cubano, também relacionado à pandemia de covid-19 e publicado alguns dias depois do texto da professora norte-americana, foi igualmente vítima de um mal-entendido.

“Todos queremos que reconheçam a autoria do que fazemos, porque é como um filho que se tem. Mas já sabemos como são as redes sociais: as pessoas dizem coisas sem refletir e sem confirmar”, concluiu Valdés, que está trabalhando em seu primeiro livro de poesia.

Em resumo, é falso que o poema “Esperança”, também conhecido como “Quando a tempestade passar”, tenha sido escrito no século XIX por K. O’Meara. O texto pertence ao ator e humorista cubano Alexis Valdés, que publicou-o pela primeira vez em sua conta no Instagram em março de 2020.

 
Ana Prieto
AFP Argentina
Tradução e adaptação
AFP Brasil
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