O lançamento de tecnologias de comunicação não tem relação com epidemias virais

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Publicações que relacionam diversas epidemias registradas nos últimos 100 anos com o lançamento de tecnologias de telecomunicações foram compartilhadas milhares de vezes em redes sociais, em múltiplos idiomas. No entanto, autoridades de saúde e especialistas em tecnologia afirmam que não há relação direta entre os dois elementos.

O 5G e coronavírus em 2019, 4G e H1N1 em 2009, 3G e influenza em 1998, 2G e cólera em 1991 e 1G em influenza em 1979, lista uma imagem curtida centenas de vezes no Instagram, vinculando o suposto ano de lançamento de diferentes tecnologias de comunicação com o surgimento de epidemias históricas.

A imagem ainda relaciona a gripe espanhola de 1918 com a introdução das ondas de rádio e termina com a frase: “Você vê um padrão? Toda vez que o mundo ganha uma atualização em seu campo eletromagnético, isso claramente afeta o nosso sistema imunológico diretamente”

Captura de tela feita em 19 de maio de 2020 mostra imagem publicada no Instagram

A mesma figura ilustra diversas publicações (1, 2, 3, 4) no Facebook, com legendas como “Coincidência? Ou tem alguma ligação?” e “Quem toma vacina está tomando o combo completo 1G, 2G, 3G, 4G. Entenderam ou quer que desenhe?”.

A mesma alegação circulou amplamente em espanhol e inglês, somando milhares de compartilhamentos em todos os idiomas, desde o início de abril.

Mas o que realmente aconteceu nos anos listados nas postagens? Abaixo, analisamos as coincidências entre as datas, as epidemias e os lançamentos de tecnologias de telecomunicação mencionados nas imagens viralizadas.

1918 - Ondas de rádio e gripe espanhola

Embora os primeiros casos da chamada gripe espanhola efetivamente tenham sido detectados em 1918, no Kansas, nos Estados Unidos, a “introdução de ondas de rádio” aconteceu antes.

A emissão de rádio começou no final do século XIX, na Europa, com a patente do italiano Guillermo Marconi. Em 17 de dezembro de 1901, o jornal New York Times anunciou a invenção como “a conquista mais maravilhosa dos tempos modernos”.

A inovação radiofônica que ocorreu em 1918 foi a invenção do super-heteródino, um receptor registrado pelo nova-iorquino Edwin Howard Armstrong, que posteriormente inventou a FM, em 1933.

1979 - 1G e “influenza”

A primeira geração de tecnologia móvel, ou 1G, começou no final dos anos 1970 e o Japão foi pioneiro em sua implementação. Sua popularização ocorreu, no entanto, na década de 1980.

Em 1979 foi registrado, também, um surto de gripe similar à gripe de Hong Kong de 1968, embora segundo esta publicação científica, a doença poderia ser também um subtipo da cepa H1N1 em animais, que chegou a toda a Europa no final da década de 1970, procedente dos Estados Unidos.

1991 - 2G e cólera

Os sistemas de comunicação de segunda geração, 2G, realmente começaram a ser implementados em 1991 em todo o mundo.

No mesmo ano, o surto mais grave de cólera foi registrado no Peru, com quase 3 mil mortos e mais de 320 mil casos suspeitos, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A Organização Mundial da Saúde (OMS) não lista, no entanto, outros surtos da doença no ano sinalizado.

1998 - 3G e influenza

O surgimento da tecnologia 3G está mais vinculado ao ano de 2001, quando houve uma implementação progressiva em diferentes regiões do mundo. Em 2002, calcula-se que cerca de 788 milhões de pessoas possuíam esta tecnologia em 169 países.

Quanto à gripe citada na publicação viralizada, houve um surto do vírus H3N2 em porcos em 1998 e outro de gripe aviária em 1997, que afetou apenas humanos. Entrando no século XXI, foram registradas epidemias virais como o SRAS e o já mencionado H3N2 em humanos.

2009 - 4G e H1N1

Em 2010, a União Internacional de Telecomunicações (UIT) lançou a quarta geração, ou 4G. A Suécia foi a pioneira em sua implementação, seguida pelos Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e China.

Já o surto do vírus H1N1, também conhecido como “gripe suína” ou “gripe A” foi a primeira pandemia declarada pela OMS no século XXI, em 2009.

Manifestação contra a tecnologia 5G em frente ao Parlamento suíço em Berna, em 21 de setembro de 2019

2019 - 5G e o novo coronavírus

A quinta geração (5G) tem provocado desconfiança desde antes de seu lançamento. Em abril deste ano, por exemplo, várias torres 5G foram atacadas no Reino Unido. 

A Coreia do Sul lançou a primeira rede nacional de telefonia móvel de quinta geração, ou 5G, em abril de 2019. Enquanto isso, os primeiros registros do novo coronavírus foram detectados em dezembro de 2019, na China. A Coreia do Sul, por sua vez, se destacou como um exemplo no combate ao vírus.

O que dizem os especialistas?

Especialistas consultados pela equipe de checagem da AFP afirmaram que não há evidências científicas de que as redes de 5G tenham provocado o surto de COVID-19, nem que lançamentos tecnológicos anteriores estivessem relacionados a outras epidemias.

“Os vírus não são transportados pelas ondas eletromagnéticas, nem pelas redes de telefonia móvel. A COVID-19 está se espalhando em múltiplos países onde não há rede 5G”, disse a Organização Mundial da Saúde, lembrando que o vírus “é transmitido através de gotículas minúsculas de secreções respiratórias emitidas quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala”.

Tanto a OMS, quanto a plataforma espanhola Salud sin Bulos (Saúde sem Boatos) enfatizaram que as gerações anteriores de telefonia móvel não provocam câncer, nem trazem riscos para a saúde.

Segundo a plataforma espanhola, as ondas de telefonia móvel são “eletromagnéticas não ionizantes (são de baixa energia, não são capazes de ionizar a matéria com a qual interagem)”, enquanto, por exemplo, os raios X são “ionizantes” e “têm interação sobre a matéria”.

O que as ondas não ionizantes fazem “é esquentar como, por exemplo, um micro-ondas, mas no caso do celular é ainda mais fraco e não foi possível comprovar nenhum outro efeito em nossos tecidos”.

“Tendo em conta os níveis muito baixos de exposição e os resultados de investigações reunidos até o momento, não há nenhuma prova científica convincente de que os sinais fracos de RF [radiofrequência] procedentes das estações de base e das redes sem fio tenham efeitos adversos na saúde”, conclui a OMS.

O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos também indica, sobre a radiação não ionizante, que “se estabeleceu que a maioria dos tipos de radiação não ionizante não provoca câncer”.

Afirmações sem fundamento

“Não há como existir uma relação entre o 5G e a COVID-19 e não há nenhuma razão para que estas afirmações estúpidas sejam levadas a sério”, afirmou o médico e pesquisador em Oncologia irlandês David Robert Grimes, em e-mail enviado à AFP no último dia 20 de abril.

E acrescentou: “Não há absolutamente nenhuma maneira de os vírus serem transportados em ondas de rádio e quem afirma isso tem uma compreensão duvidosa de biologia, física e medicina”.

Grimes explicou que a única diferença entre a tecnologia 5G e a atual 4G é uma maior frequência de dados. A tecnologia 5G se refere à quinta geração de telefonia móvel que planeja oferecer uma maior velocidade, com acesso mais rápido aos conteúdos e a possibilidade de fazer circular bilhões de dados sem obstruções, além de permitir que os equipamentos eletrônicos se conectem entre si.

“Embora as informações digitais que eles contêm sejam muito diferentes, do ponto de vista eletromagnético, um sinal 5G e um sinal 4G são basicamente o mesmo”, explicou o diretor do Observatório Nacional de 5G espanhol, Federico Ruiz, em e-mail enviado à equipe de checagem da AFP em 30 de abril.

O especialista também descartou a existência de uma relação entre as epidemias anteriores e as inovações tecnológicas: “Há teorias de que as epidemias não foram provocadas por vírus, mas por supostas perturbações do campo magnético da Terra… É delirante”.

O médico Julio Bonis, integrante do Colégio de Médicos de Madri, afirmou, por sua vez, que “não há evidências” de que um vírus possa ser agravado por um avanço tecnológico. A correlação entre as epidemias e as tecnologias feitas pelas publicações “não tem nenhuma base científica, é uma correlação espúria”.

Em um e-mail enviado à AFP, Bonis deu como exemplo de correlação espúria uma “entre o número de filmes feitos por Nicolas Cage e o número de mortos por afogamentos em piscinas nos Estados Unidos”.

“As telecomunicações modernas utilizam radiofrequência leve, que é utilizada há décadas (...) Os abundantes dados biofísicos e epidemiológicos que temos até hoje dizem que estas tecnologias não têm um impacto mensurável em nossa saúde física”, explicou Grimes.

O médico irlandês acrescentou: “Simplesmente não há fundamento biofísico em nenhuma das afirmações feitas pelos teóricos da conspiração e eles não merecem o oxigênio da publicidade”. “Não me ocorre nenhum mecanismo pelo qual se possa estabelecer uma relação entre o uso de 5G e um vírus”, reiterou.

Ruiz ressaltou, por sua vez, que não há 5G no Irã, “um país bastante afetado” pela COVID-19, com cerca de 7.200 mortes provocadas pela doença até 19 de maio.

“Não foi observado nos seres vivos expostos às ondas 5G nenhuma alteração respiratória, nem do metabolismo energético a nível celular. Muito menos as alterações respiratórias dramáticas típicas da pneumonia provocada pelo SARS-CoV-2”, afirmou à AFP o médico Luis A. Pérez Romasanta, chefe de Radioterapia Oncológica do Complexo Assistencial Universitário de Salamanca.

O AFP Checamos já verificou a afirmação de que o surgimento do novo coronavírus corresponderia a um padrão de epidemias registradas a cada 100 anos.

Em resumo, segundo especialistas consultados, não há relação científica entre as epidemias virais anteriores e as inovações tecnológicas, nem entre a tecnologia 5G recentemente lançada em diversas partes do mundo e o novo coronavírus. Além disso, os anos listados nas publicações para o lançamento de uma tecnologia e o surgimento de uma epidemia nem sempre coincidem.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

 
AFP Australia
 
Natalia Sanguino
AFP Brasil
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