Especialistas negam que a COVID-19 siga um padrão de surtos virais que acontecem a cada 100 anos

Uma imagem compartilhada milhares de vezes nas redes sociais afirma que a pandemia do novo coronavírus segue um padrão de epidemias virais que ocorrem a cada 100 anos. Mas a publicação contém dados inexatos sobre outros contágios históricos e omite epidemias que não cumprem esse padrão. Especialistas também asseguraram à AFP que, embora alguns vírus tenham uma natureza sazonal, não se pode afirmar que os surtos virais aconteçam uma vez a cada século.

“quarentena dia 5 descubro q deus faz a limpa em humanos a cada 100 anos [sic], inicia a postagem, que, em seguida, lista uma série de acontecimentos que teriam sido registrados com uma diferença de 100 anos: “1320: peste bubônica / 1420: peste negra / 1520: império asteca morre de varíola / 1620: Surto de moléstia contagiosa / 1720: praga de Marselha / 1820: Epidemia de cólera / 1920: Gripe espanhola / 2020: Corona vírus [sic]. Essas publicações foram compartilhadas mais de 21 mil vezes no Facebook (1, 2) desde o final de março.

A lista também viralizou no Twitter (1, 2) e Instagram (1, 2), somando nesta última rede mais de 215 mil interações, de acordo com a ferramenta CrowdTangle. Há, por sua vez, uma variação desta lista, na qual o “surto de moléstia contagiosa” supostamente ocorrido em 1620 seria em “passageiros do Mayflower”.

Captura de tela feita em 5 de maio de 2020 de publicação no Instagram

Textos semelhantes circularam em inglês (1, 2) e espanhol (1, 2), mas com algumas diferenças de epidemias e suas supostas datas correspondentes.

Nas publicações, contudo, há imprecisões nas datas dos surtos, além da omissão de algumas pandemias que não cumprem com que esse padrão.

Crises de saúde históricas

De acordo com uma definição encontrada no site do Ministério da Saúde do Brasil, a peste bubônica - e outras variações da doença - é popularmente conhecida como “peste negra”. Estas são apresentadas na lista viralizada como duas doenças diferentes cujas epidemias ocorreram em um espaço de 100 anos, em 1320, ou 1420, mas seu grande surto aconteceu entre 1347 e 1351, como indica este relatório, em inglês, do Centro Nacional de Estudos do Genoma Humano dos Estados Unidos.

O império asteca, por sua vez, não teria sido dizimado devido a uma epidemia de varíola, como indicam as postagens viralizadas. De acordo com um estudo feito por pesquisadores alemães publicado em 2018 na revista Nature e replicado por meios de comunicação, entre 1545 e 1550 cerca de 15 milhões de pessoas - 80% da população asteca - teria morrido em decorrência de salmonela.

Diferentes elementos de proteção durante a Grande Peste, a gripe espanhola e a COVID-19

Duas décadas antes, contudo, uma epidemia de varíola teria deixado entre 5 e 8 milhões de vítimas, um número expressivo, mas consideravelmente menor do que dos mortos por salmonela.

O surto de moléstia contagiosa, indicado em algumas publicações como ocorrido no navio Mayflower - que deixou a Inglaterra no ano de 1620 em direção ao chamado “Novo Mundo”, cujo território atual corresponde aos Estados Unidos - de fato aconteceu no período indicado nas postagens viralizadas.

Segundo uma cartilha lançada pelo Conselho do Condado de  Nottinghamshire, na Inglaterra, sobre o ensino da história dos peregrinos do Mayflower, quando a embarcação chegou na América naquele ano, no período do inverno, muitos passageiros adoeceram e faleceram em decorrência da moléstia contagiosa, que seria uma combinação de diferentes doenças.

A data atribuída à Peste de Marselha, assim como à moléstia contagiosa, coincide com o seu verdadeiro início.

As pandemias de cólera ocorreram seis vezes entre 1817 e 1923, e não apenas em 1820, como indica a imagem. Inclusive, uma sétima pandemia de cólera começou em 1961 e ainda continua.

Segundo a página da Organização Mundial da Saúde (OMS), a gripe espanhola surgiu em 1918, dois anos antes antes do que é afirmado na postagem viralizada.

Este artigo publicado pela AFP enumera outras sete epidemias que ocorreram no último século e não cumprem com o padrão descrito na imagem, entre elas a epidemia de ebola em 2014, o surto de coronavírus SARS em 2002, e as pandemias de aids (iniciadas em 1981 e que ainda continua) e a gripe A H1N1 de 2009.

“Não existe padrão”

Especialistas em saúde também desmentem que exista um padrão temporal entre diferentes surtos epidêmicos.

“Não há um padrão ali”, assegurou a médica Susan Mercado, enviada especial do presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, para iniciativas globais de saúde, em diálogo com à AFP. “Mas se a pergunta for se alguns vírus têm um caráter sazonal, a resposta é: sim, têm”, acrescentou.

Em um e-mail de 12 de março de 2020, um porta-voz da OMS assegurou à AFP que embora “as epidemias de algumas doenças sejam cíclicas”, a pandemia da COVID-19 “é imprevisível, já que a doença é nova”.

 

O novo coronavírus foi detectado na cidade chinesa de Wuhan no final de dezembro de 2019. Até este 6 de maio, o vírus já havia deixado mais de 257 mil mortos e infectado mais de 3,7 milhões de pessoas em todo o planeta, de acordo com dados compilados pela AFP com base em fontes oficiais.

Em resumo, é falso que as epidemias de várias doenças ao longo da história aconteçam a cada 100 anos. A publicação contém datas inexatas e omite outros surtos que não seguem este padrão.