Frascos da vacina da Pfizer-BioNTech contra a covid-19 durante ação de imunização de crianças em Berlim, em 8 de janeiro de 2022 ( AFP / Hannibal Hanschke)

Citadas por comentarista, falas de Robert Malone sobre vacinação em crianças são infundadas

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Um vídeo em que a ex-jogadora de vôlei e atual comentarista Ana Paula Henkel cita no programa “Os Pingos nos Is”, da Jovem Pan, uma declaração dada pelo médico norte-americano Robert Malone foi compartilhado mais de 37,3 mil vezes nas redes sociais desde 17 de dezembro de 2021. Ela reproduz as afirmações de que as vacinas de RNA mensageiro podem “danificar o sistema reprodutivo” e que são necessários “cinco anos” para conhecer os riscos associados a essa tecnologia. Mas cientistas consultados pela AFP afirmam que essas alegações são infundadas ou carecem de contexto.

“Manifestação do Dr. CIENTISTA Robert Malone, um dos cientistas que colaboraram com o desenvolvimento da técnica do RNA mensageiro, utilizada na vacina da Pfizer, lida em sua integralidade pela Ana Paula Henkel, no Pingo nos Is. Por favor, Srs Pais, Srs. Avós, Srs. Tios: Assistam”, diz a legenda de uma das publicações, compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), Instagram (1, 2), Twitter (1, 2) e YouTube (1, 2).

Captura de tela feita em 24 de janeiro de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

O vídeo viralizado, com pouco mais de quatro minutos, é um trecho do programa que foi ao ar em 17 de dezembro de 2021 no canal do YouTube do programa “Os Pingos nos Is”, quando Ana Paula Henkel cita a fala do médico norte-americano Robert Malone, cuja gravação também viralizou nas redes sociais.

Henkel assinala que Malone é “inventor da técnica vacinal do RNA mensageiro”, como o próprio médico descreve em seu perfil no Twitter.

Embora sua pesquisa no final dos anos 1980 tenha contribuído para o desenvolvimento das vacinas de mRNA, tecnologia usada nos imunizantes contra a covid-19 da Moderna e da Pfizer-BioNtech, muitos outros especialistas estiveram envolvidos nesse processo por várias décadas.

Algumas das alegações expostas por Malone, e repetidas por Ana Paula Henkel, carecem de fundamento ou contexto, segundo especialistas consultados pela AFP.

1. As proteínas “spike” são “tóxicas” e “costumam causar danos permanentes a órgãos críticos em crianças”: Sem fundamento

Desde o início das campanhas de vacinação a proteína spike ou “S” tem sido alvo de inúmeros rumores sobre sua alegada periculosidade ou viralidade, desinformação já verificada pela AFP em diversas ocasiões (1, 2, 3).

Localizada na superfície do SARS-CoV-2, a proteína spike permite a adesão e a entrada do vírus nas células humanas para infectá-las, além de lhe dar o formato característico de coroa. Esse elemento é essencial no funcionamento das vacinas de mRNA, que não contêm a proteína em si, mas um manual genético para que ela seja gerada pelo organismo e, assim, possa se proteger ao se deparar com o coronavírus.

“O mRNA entra pelas células musculares e instrui o mecanismo celular a produzir uma porção inofensiva de algo chamado proteína S. (...) Uma vez que o corpo fabrica a porção da proteína, nossas células quebram o mRNA e o eliminam”, explicam os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos em seu site, em texto atualizado em 4 de janeiro de 2022.

A teoria de que uma proteína spike vacinal poderia ser perigosa foi desmentida por vários especialistas nesta verificação da AFP em junho de 2021.

Daniel Dunia, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), explicou à AFP em 9 de dezembro de 2021 que “a vacina de RNA mensageiro é injetada localmente no músculo, e a expressão da proteína spike é limitada às células que ela inicialmente almeja para desencadear a resposta imune. O mRNA é instável e se degrada rapidamente”.

Em sua recomendação à ampliação do uso da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), em novembro de 2021, indica que o imunizante pode ter efeitos adversos em pessoas dessa faixa etária, embora leves, mas não menciona envolvimento de órgãos críticos.

Em uma seção de “Mitos e Fatos” sobre a vacinação contra a covid-19 em crianças, os CDC apontam para a segurança da imunização: “Em ensaios clínicos da vacina contra a covid-19 que foram realizados com milhares de crianças não foram identificados casos graves de pós-vacinação, problemas de segurança e os efeitos colaterais foram leves e não duradouros. Algumas crianças não terão efeitos colaterais e efeitos colaterais graves são pouco frequentes”.

“Não há absolutamente nenhuma evidência de que a proteína spike possa causar danos permanentes a órgãos vitais de crianças”, disse à AFP em dezembro de 2021 Deborah Greenhouse, integrante da Academia Americana de Pediatria.

Alexandra Yonts, especializada em doenças infecciosas pediátricas no Children’s National Hospital em Washington D.C., afirmou na mesma data que os dados mostram que a covid-19 poderia causar os problemas listados por Malone, mas não as vacinas de mRNA.

2. “Você não pode reparar um sistema imunológico redefinido geneticamente”: Sem fundamento

No vídeo, Henkel também cita uma fala de Malone de que não é possível “reparar um sistema imunológico redefinido geneticamente”. Mas essa analogia entre vacinação e terapia gênica é contestada por acadêmicos. Especialistas consultados pela AFP lembraram que, ao contrário de certas terapias genéticas, as vacinas contra a covid-19 não têm a capacidade de modificar o DNA humano.

“O objetivo da terapia gênica é claramente modificar o DNA para reparar um gene defeituoso. O vetor, seja um adenovírus ou um retrovírus, permitirá a integração no genoma de um gene normal não mutado, o que permitirá o reparo da função defeituosa”, algo que não acontece com os imunizantes contra o SARS-CoV-2 de mRNA, explicou à AFP em agosto de 2021 Thierry Walzer, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), ligado ao Centro Internacional de Pesquisa em Doenças Infecciosas de Lyon, na França.

Além disso, o RNA mensageiro é muito frágil para integrar o núcleo da célula e modificar o genoma: “Com essas vacinas trazemos uma molécula de RNA que fará com que as células do sistema imunológico produzam a proteína spike do vírus de forma muito transitória, o que fará com que os linfócitos reajam, mas esse RNA não persiste e não permanece no corpo”, disse também à AFP, em agosto passado, Anne Galy, diretora do laboratório público de pesquisas tecnológicas em terapia genômica do Inserm.

3. “Esta vacina pode causar danos reprodutivos”: Sem provas

A alegação de que as vacinas prejudicam o aparelho reprodutor ou causam infertilidade, por afetar a proteína conhecida como sincitina, envolvida no desenvolvimento da placenta, circula com frequência nas redes sociais. No entanto, isso não tem base científica. O risco de o organismo “perder” essas capacidades é inexistente, explicaram vários especialistas à AFP neste artigo em espanhol de dezembro de 2020.

Um estudo no qual a vacina da Pfizer, que usa a tecnologia do mRNA, foi administrada em animais antes e durante a gravidez não encontrou efeitos adversos relacionados ao imunizante na fertilidade e no desenvolvimento fetal, explica a fabricante em seu site.

Outro estudo, publicado em abril de 2021 no New England Journal of Medicine, avaliou 35.691 mulheres grávidas que haviam recebido a vacina e “não mostrou nenhum risco particular” para a saúde das participantes.

Em julho de 2021, o Ministério da Saúde recomendou que gestantes sem comorbidades a partir de 18 anos e puérperas deveriam ser imunizadas contra a covid-19. Naquele momento os dados indicavam que a letalidade da doença no Brasil em grávidas era de cerca de 10%, enquanto na população em geral essa taxa estava em 2%.

No mesmo sentido se manifestou em 8 de setembro de 2021 a diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), já que até então mais de 270 mil gestantes haviam contraído a covid-19 nas Américas e mais de 2,6 mil haviam falecido em decorrência do SARS-CoV-2.

Afirmações sobre os danos do imunizante circularam igualmente relacionadas ao sistema reprodutivo masculino e também não têm fundamento. “A vacina de RNA permanece localmente, não vai se espalhar por todos os lados em seus testículos, que são um santuário imunológico. E nunca vacinamos ninguém nos testículos”, disse à AFP o professor Jean-Daniel Lelièvre, imunologista do Henri Mondor Hospital de Créteil, na França, em 16 de março de 2021.

O Checamos já verificou outras alegações (1, 2) semelhantes.

4. “Essa nova tecnologia [mRNA] não foi testada de forma adequada”: Sem fundamento

As vacinas contra o SARS-CoV-2 que utilizam o mRNA, citadas por Henkel a partir da fala de Malone, são as desenvolvidas pela Pfizer-BioNTech e pela Moderna.

De acordo com a Academia Francesa de Medicina, a tecnologia de RNA mensageiro não é algo “novo”, pois “cientistas e industriais [a] desenvolveram e [a] melhoraram por mais de 30 anos” e ela “demonstrou ser muito eficaz para a vacinação contra o SARS-CoV-2”.

Os resultados da fase 3 - a última - dos ensaios clínicos feitos com milhares de voluntários foram publicados em dezembro de 2020 para ambos imunizantes (1, 2), mas podem ser atualizados dependendo das autorizações, inicialmente emergenciais, recebidas de agências de saúde locais.

Como parte desse procedimento emergencial, a Agência Europeia de Medicamentos (1, 2) deu o seu aval por um ano renovável e destacou que as vacinas contra a covid-19 só podem ser autorizadas na Europa se “cumprirem todos os requisitos de qualidade, segurança e eficácia definidos na legislação farmacêutica da União Europeia”.

Segundo informações publicadas no site da biblioteca da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health em outubro de 2021, as vacinas de mRNA foram descobertas no início dos anos 1960 e as pesquisas para descobrir como ele poderia ser levado às células ocorreram nos anos 1970.

Nos Estados Unidos, a regularidade de certos ensaios clínicos da vacina da Pfizer foi contestada em novembro de 2021 por uma ex-funcionária da Ventavia, uma empresa terceirizada para conduzir uma pequena parte dessas análises em nome da gigante farmacêutica. Segundo a ex-funcionária, ocorreram violações durante alguns desses exames.

No entanto, essa empresa testou somente mil pessoas, enquanto a vacina, no total, foi avaliada em cerca de 44 mil pacientes em todo o mundo. Após essas acusações, as autoridades da Agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) reiteraram a sua “total confiança nos dados que deram suporte à autorização da vacina Pfizer-BioNTech”.

No Brasil, apenas a vacina de RNA mensageiro da Pfizer-BioNTech está sendo utilizada e seu registro definitivo foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 23 de fevereiro de 2021.

5. “Precisamos de, pelo menos, cinco anos de testes” para avaliar os riscos do mRNA e “os riscos de novos medicamentos costumam ser revelados muitos anos depois”: Sem fundamento

Até o momento, os dados científicos não sustentam essas duas afirmações.

Como indicado anteriormente, a Academia Francesa de Medicina indica que a tecnologia de RNA mensageiro tem sido desenvolvida e aperfeiçoada por mais de três décadas.

Além disso, as vacinas autorizadas para o combate à covid-19 são, como qualquer novo medicamento, submetidas a uma fase de farmacovigilância para o controle de seus efeitos colaterais por organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Anvisa.

Em janeiro de 2022, a agência brasileira reafirmou ao Checamos que “todas as vacinas à disposição no Brasil, e até hoje aprovadas para uso pela população, passaram pela análise técnica da agência, com total garantia pelo órgão de que possuem segurança, qualidade e eficácia”.

Criança recebe a primeira dose da vacina da Pfizer-BioNTech contra a covid-19 em São Paulo, em 14 de janeiro de 2022 ( AFP / Nelson Almeida)

6. “Não há benefício para seus filhos ou para sua família em vacinar seus filhos contra os pequenos riscos do vírus”: Enganoso

Essa afirmação feita por Malone ignora os casos graves aos quais algumas crianças podem estar expostas e é refutada por Jean-Daniel Lelièvre: “A criança tem um lugar especial na infecção de covid-19, que é muito menos grave que a do adulto, mas não é nula”, explicou à AFP em 20 de dezembro de 2021.

“Não podemos dizer que as crianças não representam um reservatório e que não há risco, mesmo que esse risco seja muito inferior ao dos adultos”, acrescentou.

“Do ponto de vista individual, sabemos que há crianças muito expostas a formas graves, principalmente quando o sistema imunológico está falhando, quando há patologias crônicas de base, quando estão imunossuprimidas”, explicou Vincent Maréchal, pesquisador em virologia na Universidade de Paris-Sorbonne.

Em um comunicado de 24 de novembro de 2021, a OMS destacou que apesar de haver proporcionalmente menos infecções sintomáticas e casos graves da doença em crianças e adolescentes, eles podem apresentar sintomas prolongados e até sequelas. Uma delas seria a síndrome inflamatória multissistêmica (SIM-C) que, “embora rara, tem sido relatada em todo o mundo e dificulta a recuperação”.

Em 16 de dezembro de 2021, a Anvisa aprovou a vacinação de crianças entre 5 e 11 anos com o imunizante da Pfizer, e a imunização foi autorizada pelo governo em 5 de janeiro de 2022. A vacinação de crianças no Brasil começou no último dia 14 de janeiro, em São Paulo.

Em 20 de janeiro, a agência ampliou o uso da CoronaVac para crianças e adolescentes de 6 a 17 anos.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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