Rapper Nicki Minaj posa para fotos durante o Met Gala de 2019 em Nova York, em 6 de maio daquele ano ( AFP / Angela Weiss)

Não há evidências de que vacina contra covid cause impotência, ao contrário do dito por Nicki Minaj

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A rapper Nicki Minaj sugeriu que vacinas contra a covid-19 podem causar impotência em homens, em uma publicação feita no Twitter no último dia 13 de setembro. Na postagem, replicada mais de 100 mil vezes, Minaj afirmou que um amigo de seu primo sofreu dessa condição, assim como de inchaço testicular, após ser imunizado. Mas especialistas negaram a alegação, indicando que não há evidências de que as vacinas contra o novo coronavírus afetem a fertilidade ou a genitália masculina.

“Meu primo em Trinidad não vai se vacinar porque um amigo dele tomou e ficou impotente. Seus testículos ficaram inchados”, diz, em tradução livre do inglês, o texto publicado pela cantora.

A rapper, que nasceu em Trinidad e Tobago e foi criada em Nova York, publicou o tuíte sobre a vacinação contra a covid-19 durante o Met Gala de 2021, evento que exigiu que os convidados apresentassem um comprovante de imunização para comparecer. Minaj não se vacinou e não participou da gala, considerada uma das maiores festas do mundo da moda.

Captura de tela feita em 15 de setembro de 2021 de mensagem publicada pela rapper Nicki Minaj no Twitter ( . / )

O tuíte sobre impotência foi retuitado mais de 100 mil vezes, curtido mais de 130 mil vezes, e difundido com a tradução automática para o português em capturas de tela publicadas no Facebook (1, 2, 3).

Essa é apenas uma das muitas afirmações incorretas que associam vacinas à infertilidade e que têm prejudicado a adesão às campanhas de vacinação contra a covid-19 em todo o mundo. A equipe de checagem da AFP já verificou diversas dessas alegações (1, 2, 3).

Mas “não há nenhuma evidência de que vacinas contra a covid-19 causem disfunção erétil masculina ou infertilidade”, disse à AFP Tony Chen, professor assistente clínico de urologia da Universidade de Stanford, acrescentando que também “não há evidências de que as vacinas contra a covid-19 causem inchaço nos testículos”.

Em vez disso, ele disse que o inchaço é mais comumente causado por infecções virais, como caxumba, ou por infecções bacterianas, como infecções sexualmente transmissíveis, algo que já havia sido apontado a Minaj no Twitter.

Chen também mencionou um estudo recente da Universidade de Miami que comparou amostras de sêmen de voluntários saudáveis colhidas antes e de dois a três meses após as duas doses das vacinas da Moderna ou da Pfizer-BioNTech. “E eles não encontraram nenhum impacto negativo em nenhum parâmetro de sêmen”, afirmou.

Na verdade, é a infecção com o novo coronavírus, que é mais provável entre os não vacinados, que “pode causar sérios problemas na genitália masculina”, disse.

Michael Eisenberg, diretor de cirurgia e medicina reprodutiva masculina em Stanford, também mencionou o estudo da Universidade de Miami e, da mesma maneira, disse que não há evidências de que a vacinação possa prejudicar a fertilidade.

Helen Bernie, diretora de medicina sexual e reprodutiva da Universidade de Indiana, também negou que as vacinas afetem a fertilidade ou a genitália masculina, criticando a desinformação que “tem circulado sobre a eficácia e segurança das vacinas”.

Ela apontou, por outro lado, que ainda não há estudos sobre o impacto de vacinas que não são de mRNA na fertilidade masculina. Esse tipo de imunizante corresponde a dois dos três aprovados para uso em Trinidad e Tobago.

“Não estou ciente de nenhum levantamento feito, por enquanto, sobre as vacinas vivas sem mRNA”, disse Bernie.

“No entanto, nós utilizamos rotineiramente outras vacinas de vírus vivo atenuado, como a tríplice viral, a contra catapora, contra o rotavírus e outras e nunca houve uma correlação entre infertilidade e essas vacinas. Dessa maneira, eu não vejo nenhuma razão para que a vacina contra covid-19 impacte a fertilidade”, acrescentou.

Para uma outra verificação da AFP, a doutora María Victoria Sánchez, pesquisadora do Laboratório de imunologia e desenvolvimento de vacinas do argentino Instituto de Medicina e Biologia Experimental de Cuyo, disse, de maneira semelhante: “Não há bibliografia que sustente [a afirmação de que] a vacina pode afetar a reprodução”.

“As células que processam os antígenos das vacinas - neste caso a proteína ‘spike’ do novo coronavírus - para gerar a resposta imune são chamadas de células apresentadoras de antígenos”, explicou. “Os testículos não são órgãos do sistema imunológico capazes de montar a resposta imune; as células apresentadoras de antígenos visam os órgãos linfóides para isso; não interferem de maneira nenhuma na espermatogênese”.

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