Artigo publicado em 1987 por jornal britânico não prova relação entre vacina contra varíola e aids

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A imagem de uma capa do jornal britânico The Times foi compartilhada centenas de vezes nas redes sociais desde 4 de fevereiro de 2022. Segundo as publicações, a edição, de 11 de maio de 1987, comprovaria que há uma ligação entre a vacina contra a varíola e a aids. Embora o diário realmente tenha publicado um artigo que abordava essa alegação na época, o texto foi amplamente contestado nos dias seguintes à sua divulgação. Até o momento, nenhuma ligação entre o HIV e a vacina contra a varíola foi comprovada, disseram especialistas à AFP.

“11 de maio de 1987, o diário The Times publicou um artigo explosivo intitulado ‘Smallpox vaccine causes the AIDS virus.’ Sugeriu-se que o programa de vacinação contra a varíola promovida pela OMS é responsável pela propagação da AIDS na África”, afirmam as publicações compartilhadas no Twitter (1, 2, 3) e Facebook (1, 2, 3).

Captura de tela feita em 27 de julho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Postagens semelhantes circulam em espanhol, francês e inglês junto com a mesma imagem do jornal, que inclui a seguinte frase: “Vacina contra a varíola 'desencadeou o vírus da aids'”.

Varíola comum, varíola do macaco e HIV

A varíola, responsável por 300 milhões de mortes no século 20, foi declarada erradicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 8 de maio de 1980, após uma campanha massiva de vacinação.

As publicações nas redes sociais circulam após o aumento global de casos de um primo distante da varíola tradicional, a varíola do macaco, considerada menos perigosa e que afeta especialmente a Europa desde maio de 2022. Até a data de publicação deste texto, o laboratório dinamarquês Bavarian Nordic é o único que produz um imunizante já aprovado especificamente contra a varíola dos macacos.

Os primeiros casos de pessoas infectadas com o vírus HIV, responsável pela Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (aids), foram detectados no início da década de 1980. O vírus, que surgiu na África central, foi transmitido aos humanos por macacos.

Em 2020, a OMS estimou que entre 480.000 e um milhão de pessoas morreram dessa doença em todo o mundo desde o início da epidemia.

Assim como a varíola, a epidemia de aids atingiu de forma massiva o continente africano. No entanto, não há evidências de uma possível ligação entre a campanha de imunização contra a varíola e a aids.

Embora qualquer reforço imunológico, seja na forma de vacina, vírus ou bactéria, possa despertar um vírus latente no corpo, esses casos não provocaram o surto maciço de HIV na África, disseram especialistas à AFP, que também mencionaram registros de agulhas mal esterilizadas.

Artigo contestado do jornal britânico The Times

Contatado em 4 de julho de 2022, o departamento de arquivos do jornal britânico confirmou à AFP que o artigo compartilhado nas redes sociais havia sido publicado na edição do jornal The Times em 11 de maio de 1987. O artigo completo foi divulgado pela organização HIV Ireland. O autor afirma que a OMS estava estudando "evidências científicas sugerindo que a imunização com a vacina contra a varíola Vaccinia causou a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV)".

Para sustentar seu argumento, ele cita um "conselheiro da OMS" sem nomear e dá como exemplo o caso de um militar americano que supostamente começou a desenvolver sintomas de HIV duas semanas e meia depois de ser imunizado contra varíola em várias ocasiões e depois morreu.

O documento publicado pelo HIV Ireland também contém outros artigos, publicados nos dias seguintes por outros meios de comunicação, que citaram vários médicos, incluindo funcionários da OMS, que negaram qualquer ligação entre a vacinação contra a varíola e a epidemia de HIV. Por exemplo, um texto publicado pelo jornal Irish Independent em 12 de maio de 1987 com o título: "Cientistas rejeitam teoria que liga a aids à varíola".

Captura de tela de um documento publicado pela HIV Ireland feita em 13 de julho de 2022 ( . / )

A AFP obteve do jornal The Times uma cópia da edição datada de 13 de maio de 1987, na qual uma resposta foi publicada por Jonathan Mann, então diretor do programa de aids da OMS.

Na ocasião, Jonathan Mann afirmou que o artigo de 11 de maio "junta-se a muitas outras ideias não comprovadas e especulativas sobre a origem da aids”.

"A varíola é uma enfermidade antiga e a vacina contra a varíola tem sido amplamente utilizada em muitas partes do mundo nos últimos dois séculos. Durante esse tempo, nem o vírus da varíola e nem o vírus (atenuado e contido) no imunizante contra a varíola foram associados ao surgimento de outra doença", acrescentou Mann.

"Globalmente, a distribuição geográfica da erradicação da varíola e da aids não coincide. Na Ásia, onde centenas de milhões de vacinas contra a varíola foram administradas entre 1967 e 1972, a aids permanece rara", afirmou.

A AFP perguntou à OMS sobre essa suposta evidência de uma ligação entre a vacinação contra a varíola e a epidemia de aids. "Não temos conhecimento", respondeu um porta-voz da organização em 1º de julho de 2022, sem mais detalhes.

Para apoiar sua teoria, o autor do artigo do Times de 11 de maio de 1987 também cita o Robert Gallo, um pesquisador norte-americano em imunologia e virologia. Renomado especialista em aids, Gallo esteve no centro de uma polêmica científica no início dos anos 1980, quando assumiu a responsabilidade pela descoberta do HIV, disputada por dois pesquisadores do Instituto Pasteur, Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi.

Nenhuma evidência de que a vacinação contra a varíola tenha causado a epidemia de aids

No artigo do Times de 11 de maio de 1987, Robert Gallo é citado: "A ligação entre o programa da OMS e a epidemia na África é uma hipótese interessante e importante. Não posso dizer que realmente aconteceu, mas venho dizendo há alguns anos que usar uma vacina viva como a usada para varíola pode ativar uma infecção latente como o HIV”.

A AFP entrou em contato com Robert Gallo em 27 de junho de 2022. Ele disse que suas declarações "foram obviamente tiradas de contexto".

"Concordo plenamente com a OMS: não há evidências, que eu saiba ou de qualquer outra pessoa, de que qualquer vacina tenha estimulado o HIV", acrescentou.

"Lembro que muitas pessoas destacaram o fato de que o vírus da aids apareceu quando a varíola desapareceu", disse Anne-Marie Moulin, diretora de pesquisa emérita do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica e especialista em medicina tropical e parasitologia.

No entanto, "as hipóteses não eram tanto sobre o papel da vacinação, mas sobre a varíola como parte de um conjunto de doenças predominantes. Você tem que entender que existem vários vírus ao mesmo tempo. Se você mudar alguma coisa nesse equilíbrio, você causará mudanças. Quando [a varíola] desapareceu, havia um buraco e de repente apareceu outro vírus. Nesse momento chegou", explicou à AFP em 27 de junho de 2022.

Para Michaela Muller-Trutwin, chefe da Unidade de HIV, Inflamação e Persistência do Instituto Pasteur, entrevistada pela AFP em 4 de julho de 2022, este artigo relembra uma teoria que relaciona o surgimento da aids com a vacina contra a poliomielite, usada na década de 1950 na África. Uma teoria desde então refutada pelos cientistas.

Pessoas fazem fila para se vacinar contra a varíola em Cingapura, em abril de 1959 ( AFP / -)

Por outro lado, agulhas reutilizadas e mal esterilizadas podem ter tido um papel na transmissão do HIV já presente na população: “O papel das agulhas não esterilizadas na transmissão do HIV e da hepatite já foi documentado muitas vezes”, comentou Anne-Marie Moulin.

"Minha conclusão é que as agulhas que injetam a vacina ou qualquer outra coisa devem ter desempenhado um papel na transmissão do HIV, mas não a vacina contra a varíola em si", disse.

Em 2007, a OMS já havia alertado sobre esse problema, estimando que aproximadamente "5% dos novos casos de HIV no mundo se devem a injeções inseguras em ambiente médico".

Qualquer estimulação imunológica pode despertar um vírus latente, mas não causar uma "onda de infecções"

Segundo os cientistas entrevistados, não é impossível que a vacinação contra a varíola tenha, em alguns casos, ativado o vírus HIV latente já presente no organismo das pessoas imunizadas.

"Quando você está infectado com aids, certas células são infectadas, mas não produzem um vírus. Mas quando essas células T reconhecem um estímulo imunológico [como uma vacina ou um vírus entrando no corpo] elas reagem e se dividem. O HIV latente pode então 'acordar’ e se expressar", descreveu Robert Gallo.

“Assim, o HIV pode ser estimulado, até mesmo despertado, pela vacina contra a varíola, ou qualquer outra vacina ou infecção. Mas isso não faz grande diferença: mais cedo ou mais tarde, o vírus teria sido estimulado”, acrescentou o cientista norte-americano.

"Não podemos descartar nada ", disse Michaela Muller-Trutwin. "Mas se a vacina pode despertar um vírus latente, qualquer outra infecção o faz. Usamos isso em pesquisas para uma terapia curativa para a infecção pelo HIV", explicou. Ao estimular o sistema imunológico, “tentamos tirar o vírus de seus reservatórios latentes e depois matá-lo”.

No entanto, esses casos não podem ser a causa da epidemia de aids ou de uma "onda de infecção" do HIV, segundo os especialistas entrevistados pela AFP.

Na época das campanhas de vacinação contra a varíola, "milhões de pessoas foram vacinadas em todo o mundo, e mesmo assim não havia uma grande epidemia de aids em todos os países", destacou Muller-Trutwin.

De fato, a epidemia de varíola afetou muitos países fora da África, incluindo Brasil, Argentina e grande parte do Oriente Médio e Sul da Ásia.

VACINAS Varíola do macaco