Sala de tratamento em uma área de isolamento pela varíola do macaco em um centro da Médicos Sem Fronteiras, em Zomea Kaka, República Centro-Africana, em 18 de outubro de 2018 ( AFP / Charles Bouessel)

Varíola do macaco: uma doença rara e que geralmente se cura sozinha

Copyright © AFP 2017-2022. Todos os direitos reservados.

A varíola do macaco é uma doença rara originária da África que geralmente é curada espontaneamente. Ainda que seja parecida com a varíola, é considerada menos grave e menos contagiosa.

Chamada também de “ortopoxvirosis simia” (ou “monkeypox”, em inglês), é uma doença considerada rara, cujo primeiro registro em humanos foi em 1970.

“A identificação em maio de 2022 de surtos de varíola em vários países onde não é endêmica [ou seja, não circula] sem vínculos diretos com viagens para áreas endêmicas é algo atípico”, indica a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O que se sabe sobre essa doença?

A varíola do macaco é uma doença rara cujo patógeno pode ser transmitido do animal para o homem e vice-versa.

Apesar do nome, os macacos não são os principais hospedeiros da doença, explica Flávio Guimarães Da Fonseca, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV). A denominação se deve ao fato de que ela “foi identificada causando a doença em macacos”. Segundo Fonseca, no continente africano, de onde o vírus é originário e onde a doença é endêmica, o mais provável é que os hospedeiros sejam roedores.

Em nota divulgada em 23 de maio de 2022, o Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm) da França providenciou informações no mesmo sentido:

“A varíola do macaco é uma doença infecciosa causada por um vírus transmitido aos humanos por animais infectados, mais comumente roedores (embora o vírus tenha sido descoberto pela primeira vez em 1958 em um grupo de macacos que foram estudados para fins de pesquisa, daí seu nome)”.

A organização acrescenta: “Ao contrário do SARS-CoV-2 no momento do seu surgimento, trata-se, portanto, de um vírus que já conhecemos bem há várias décadas”.

O período de incubação pode durar de cinco a 21 dias. Seus sintomas são semelhantes, em menor escala, aos observados no passado em pacientes de varíola: febre, dor de cabeça, dores musculares e dorsais durante os primeiros cinco dias. Depois, aparecem erupções - no rosto, palmas das mãos e solas dos pés -, lesões, pústulas e finalmente crostas.

Esses tipos de erupção “são diferentes das da catapora (pouco frequente entre os adultos). No caso da catapora, as erupções aparecem em surtos locais, sem afetar as palmas das mãos ou as solas dos pés”, explica a Direção Geral de Saúde da França nesta nota de 19 de maio de 2022.

A doença foi identificada pela primeira vez em humanos em 1970 na República Democrática do Congo (então chamada Zaire), em um menino de 9 anos que vivia em uma região onde a varíola havia sido erradicada desde 1968. Desde então, foram registrados casos humanos de ortopoxvirosis simia em 11 países africanos. No início de 2003, também foram confirmados casos nos Estados Unidos, os primeiros fora do continente africano.

“Há vários anos há um ressurgimento da doença na África Ocidental. A retomada do tráfego aéreo e o fim dos confinamentos provavelmente favorecem a propagação dessa doença para fora das regiões onde é endêmica”, assinala o Inserm.

A sede da OMS em Genebra em dezembro de 2021 ( AFP / Fabrice Coffrini)

Como a doença é transmitida?

Pelo o que se sabe com base nas infecções conhecidas desde 1970, os casos iniciais em humanos se devem ao contato direto com sangue, fluidos corporais, lesões na pele ou membranas mucosas de animais infectados.

A transmissão secundária, de pessoa para pessoa, pode ser resultado do contato próximo com secreções infectadas das vias respiratórias, lesões na pele de uma pessoa infectada ou objetos recentemente contaminados com fluidos biológicos ou materiais das lesões de um paciente.

Em 17 de maio de 2022, a OMS afirmou que queria esclarecer, com a ajuda do Reino Unido, os casos detectados desde o início de maio, especialmente na comunidade homossexual. Apesar disso, a Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA) advertiu que “a varíola nunca foi descrita como uma infecção sexualmente transmissível”.

Por sua parte, a Unaids alertou em 22 de maio que as conotações homofóbicas e racistas observadas em vários comentários sobre a varíola do macaco “minam a confiança e a capacidade de responder de maneira eficaz a surtos como esse”.

“Embora o contato físico próximo seja um fator de risco conhecido, no momento não se sabe se a varíola do macaco pode ser transmitida especificamente pela via sexual”, detalha a OMS, observando que existem estudos em andamento para entender melhor a epidemiologia, as fontes de infecção e as formas de transmissão.

Qual a gravidade?

A varíola do macaco geralmente se cura por conta própria, com sintomas que duram de 14 a 21 dias.

Os casos graves ocorrem com mais frequência em crianças e estão relacionados à extensão da exposição ao vírus, ao estado de saúde do paciente e à gravidade das complicações.

Analisando as epidemias, a taxa de mortalidade (a relação entre o número de mortes e o de pessoas infectadas) apresentou grande variação, mas se manteve abaixo dos 10% em todos os casos documentados, principalmente em crianças pequenas. Nos casos dos últimos anos, “foi de entre 3 e 6%”, aclara a OMS.

“A taxa de mortalidade da doença varia de 1 a 10% de acordo com a variante (existem duas), mas um tratamento médico adequado reduz consideravelmente os riscos. A maioria das pessoas se recupera espontaneamente e os focos de contaminação, geralmente, se extinguem sozinhos devido à baixa transmissibilidade do vírus”, acrescenta o Inserm.

Em uma coletiva de imprensa em 25 de maio, Cristóbal Belda, diretor do Instituto Nacional de Saúde Carlos III, na Espanha, explicou que o instituto havia conseguido sequenciar em 100% o vírus, o que confirmou que a variedade presente nesse país europeu era da África ocidental, a mais leve. Até agora, houve 59 casos positivos de orthopoxvírus positivos na Espanha.

A OMS também explicou que, após realizar as primeiras as sequências do genoma, a variante do vírus identificada fora da África em maio de 2022 seria a da África Ocidental, associada a doenças de menor gravidade que a outra (chamada “Bacia do Congo”), que tem uma taxa de mortalidade maior.

“A variante da África ocidental se associou tradicionalmente a uma mortalidade [em relação aos casos confirmados] de em torno de 1% (...). Desde 2017, as mortes de pessoas afetadas por varíola do macaco na África ocidental se associaram a jovens ou a infecções por HIV não tratadas”, acrescentou a organização.

Há algum tipo de tratamento?

Não existem tratamentos específicos ou vacinas contra a varíola do macaco, mas as crises podem ser contidas, explica a OMS. No passado, a vacinação contra a varíola mostrou ser 85% eficaz na prevenção da ortopoxvirosis simia, mas a vacina já não está disponível, depois que sua fabricação foi interrompida após a erradicação mundial da varíola.

A varíola é considerada erradicada graças à vacinação desde 1979, como anunciou a OMS um ano depois. Por esse motivo, as vacinas de 1ª e 2ª geração não são utilizadas para a população em geral desde 1984, devido à erradicação da varíola.

Uma vacina de 3ª geração (vacina viva não replicante, ou seja, que não se replica no organismo humano) foi autorizada na Europa em julho de 2013 e é indicada contra a varíola em adultos.

Ela também é autorizada para comercialização nos Estados Unidos para a prevenção da varíola e da varíola do macaco, informou ao Checamos a Agência Nacional de Vigilância Sanitária brasileira (Anvisa): “Trata-se de uma vacina de duas doses e que atualmente tem disponibilidade limitada”.

Questionada sobre possíveis medicamentos, a agência brasileira sinalizou que um agente antiviral conhecido como Tecovirimat foi autorizado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) em janeiro de 2022 para tratar casos de varíola, varíola do macaco e varíola bovina. Esse remédio ainda não está, contudo, disponível ao público, destacou.

No Brasil, “não há medicamento e nem vacina autorizadas na Agência com a indicação para tratamento ou prevenção da varíola do macaco”, detalhou a Anvisa ao Checamos em 26 de maio.

Informação semelhante é fornecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS): “A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) autorizou o uso para a varíola do macaco de um anti-viral denominado tecovirimat que foi desenvolvido para varíola. No entanto, não está amplamente disponível. Se utilizado para atender o paciente, a administração de tecovirimat em condições ideais deve ser supervisionada em um contexto de investigação clínica com coleta de dados prospectivos”.

Contactado pelo Checamos, o Ministério da Saúde brasileiro informou, em 26 de maio de 2022, que instituiu uma sala de situação para monitorar o cenário da varíola do macaco no país embora, até o momento, não tenha sido notificado de nenhum caso suspeito da doença no território brasileiro.

“Muitos rumores e informações falsas já estão se espalhando na internet, principalmente sobre uma possível ligação entre a doença e as vacinas anticovid que usam um adenovírus de chimpanzé como vetor viral. Essa ligação é absolutamente infundada, em primeiro lugar porque esse vírus não é específico de macacos (até é mais encontrado em outras espécies, principalmente em roedores). Além disso, porque faz parte da família dos poxvírus, e não dos adenovírus”, alerta o Inserm.

3 de junho de 2022 Adiciona novas informações
1 de junho de 2022 Adiciona metadados
26 de maio de 2022 Acrescenta posicionamento da Anvisa
26 de maio de 2022 Atualiza com especialista e mais informações
Varíola do macaco