Esta foto não mostra a família de Ugur Sahin, responsável pela primeira vacina contra a covid-19

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Uma foto compartilhada dezenas de vezes em múltiplas postagens nas redes sociais desde o último dia 8 de dezembro mostra uma família de “imigrantes muçulmanos turcos” na Alemanha. Os usuários asseguram que um dos meninos visto na imagem é Ugur Sahin, presidente do laboratório alemão que desenvolveu, junto com a Pfizer, uma das vacinas contra a covid-19. Embora Ugur Sahin tenha chegado à Alemanha procedente da Turquia quando era criança, esta foto não corresponde a sua família.

“Essa é uma família de imigrantes turcos, recém-chegada à Alemanha. O menino de camisa amarela é Ugur Sahin, o médico que acaba de inventar a vacina COVID-19 (Pfizer / BioNTech)”, diz o texto das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3).

A imagem, que também circulou no Instagram, Twitter (1, 2) e em sites (1), mostra uma família - um casal junto com quatro filhos -, e o que usa uma camisa amarela é apontado como Ugur Sahin.

Captura de tela feita em 10 de dezembro de 2020 de uma publicação no Instagram

Sahin é o presidente da farmacêutica alemã BioNTech, que está por trás do desenvolvimento conjunto com a norte-americana Pfizer de uma das vacinas com eficácia comprovada contra a covid-19. Nascido em uma família de imigrantes turcos, chegou à Alemanha em 1969, com quatro anos.

A alegação que acompanha esta fotografia foi igualmente encontrada em outros idiomas, como francês, espanhol, árabe e bósnio. Segundo uma pesquisa da AFP, as primeiras publicações datam de 21 de novembro e foram feitas em italiano.

Outras postagens levam a um artigo escrito em albanês na página Tetova Express, portal de notícias de uma cidade da Macedônia. Este país tem se destacado nos últimos anos pelo surgimento de centenas de sites com o objetivo de difundir desinformação, como explica esta reportagem da AFP de 2018 e este texto, em francês, publicado no final de outubro deste ano em um jornal croata.

Para comprovar as afirmações feitas pelas publicações viralizadas, a equipe de checagem da AFP entrou em contato com a BioNTech, cuja diretora de comunicação, Jasmina Alatovic, confirmou em 27 de novembro que a fotografia “não é do senhor Sahin e de sua família”.

Uma família de Aksaray que chegou a Düsseldorf nas décadas de 1960 e 1970

Uma busca por outros resultados da imagem sem relacionar a Sahin levou a uma publicação no Twitter, com data de 16 de agosto de 2020, em uma conta chamada “Diaspora Türk” com a seguinte legenda: “Novo lar, novas esperanças”. A conta indica que a foto é de 1975.

Em 17 de agosto, esta conta compartilhou outra foto, desta vez mostrando apenas o pai e a mãe da mesma família.

“Quando o neto da família viu a foto em nossa página ontem, pudemos obter informações em primeira mão sobre eles”, afirma a legenda, em turco. “Falou conosco de seus avós, tias, tios e de sua mãe, que não está na foto. A família é de Aksaray. O pai chegou à Alemanha em 1965 como trabalhador”, continua. Foi o neto quem enviou esta nova foto de seus avós.

A conta no Twitter “Diaspora Türk” é gerida por membros da comunidade turca que vivem em diferentes países europeus, segundo disseram os seus administradores à AFP. Seu site, em turco, combina depoimentos, eventos e conselhos de livros sobre as histórias de trabalhadores turcos imigrantes na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Em 26 de novembro, a AFP entrevistou o fundador do “Diaspora Türk”, Gökhan Duman, que assegurou que os descendentes da família retratada não desejam ser contatados, mas aceitaram contar a história transmitida pelo neto.

“O pai foi para a Alemanha em 1965 para trabalhar como pedreiro”, explicou Gökhan Duman por e-mail. Alguns anos mais tarde, levou sua esposa e quatro de seus seis filhos, deixando uma menina e um menino em Aksaray para cuidar da terra e da casa da família.

“Estas fotos foram tiradas em seu novo lar, durante a semana da chegada da família a Düsseldorf. Mais tarde, a mãe encontrou trabalho como auxiliar de cozinha e em 1980 os outros dois filhos chegaram à Alemanha”, continuou.

Segundo Gökhan Duman, o pai morreu em 2002 e a mãe, em 2017. Mas seus filhos continuam na Alemanha: “A filha mais nova trabalha como assistente de dentista, a mais velha é garçonete, o filho é torneiro fresador e a menina com um buraco na meia hoje é, ironicamente, estilista”.

A história desta família é similar à de Ugur Sahin, também filho de pais imigrantes turcos que chegaram à Alemanha na década de 1960. Contudo, há alguns elementos diferentes: os pais de Sahin não são originários de Aksaray, mas de Iskenderun (antiga Alexandreta), encravada no Mediterrâneo, ao sul do país, como descreve este perfil do New York Times. Sahin nasceu em 1965 e chegou à Alemanha aos quatro anos. Em 1975, data da foto viralizada segundo a “Diaspora Türk”, Ugur Sahin tinha 10 anos.

Os pais de Sahin não viviam em Düsseldorf, mas em Colônia, onde o hoje presidente da BioNTech estudou Medicina antes de obter o doutorado em 1993 na Universidade de Colônia graças a sua pesquisa de imunoterapia de células tumorais.

Ugur Sahin, cofundador e presidente executivo da BioNTech, em entrevista à AFP em 19 de novembro de 2020 (Yann Schreiber / AFP)

Uma imagem da fotógrafa alemã Candida Höfer

Uma nova busca reversa pela imagem levou a um artigo da revista internacional de arte Open publicado em 2016. A autora analisa a série de fotos “Türken in Deutschland” (“Turcos na Alemanha”), composta por imagens registradas entre 1972 e 1979 pela fotógrafa alemã Candida Höfer de famílias turcas que imigraram para a Alemanha.

Dentro dessa série também foi produzido um conjunto de fotografias coloridas, todas de 1979, entre as quais está a suposta foto da família do cientista que foi compartilhada nas redes sociais.

Captura de tela feita em 30 de novembro de 2020 do site da revista Open

Candida Höfer é uma fotógrafa várias vezes premiada. Em 2007 recebeu o Prêmio Finkenwerder, que todos os anos reconhece um artista cujas obras contribuíram para a arte contemporânea na Alemanha.

Sua série “Türken in Deutschland” (“Turcos na Alemanha”) se concentra nos “Gastarbeiter” (“Trabalhadores convidados”, em português), como eram conhecidos os imigrantes turcos que chegaram à Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial para fortalecer o mercado de trabalho de um país que havia perdido quase três milhões de homens na disputa.

A acolhida de “Gastarbeiter” parou em 1973, mas a maioria das famílias turcas permaneceu, convertendo-se na primeira população imigrante na Alemanha, como explica a introdução de uma entrevista com Höfer em 25 de setembro de 2019, disponível no site do Harvard Art Museum. A fotografia em questão pode ser vista no minuto 05:02.

A AFP entrou em contato com a Fundação Candida Höfer, que confirmou em 26 de novembro de 2020 que se tratava de um registro feito pela fotógrafa. Herbert Burkert, membro da fundação, disse que não poderia confirmar a identidade da família da foto, já que a imagem foi feita “há muito tempo e o nome desta família não está registrado”.

Na área do site do Harvard Art Museum dedicada à série de fotografias “Türken in Deutschland” também está a segunda imagem tuitada pelo “Diaspora Türk”.

Atualmente, a Alemanha conta com cerca de três milhões de pessoas de origem turca, a maior comunidade desta nacionalidade fora da Turquia no mundo.

Os “Gastarbeiter” da primeira geração aprenderam pouco alemão e, muitas vezes, permaneceram restritos a grupos comunitários, como explica este relatório. A comunidade turca tem uma taxa de desemprego superior à média nacional e segue exposta à discriminação no mercado de trabalho e de imóveis, embora a Alemanha tenha tomado medidas para facilitar a sua integração.

Em resumo, embora o cofundador e presidente da BioNTech Ugur Sahin tenha origem turca e tenha chegado à Alemanha aos quatro anos, a imagem que viralizou nas redes sociais associada a Sahin e sua família pertence, na realidade, a outra família turca que emigrou para a cidade de Düsseldorf na década de 1960.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
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