Beber muita água e fazer gargarejo com água morna, vinagre, ou sal, não elimina o coronavírus

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Publicações compartilhadas mais de 14 mil vezes nas redes sociais desde o último dia 15 de março afirmam que antes de atingir os pulmões, o novo coronavírus fica na garganta durante quatro dias e, por isso, fazer gargarejo com água morna, sal, ou vinagre, elimina o vírus. Essa indicação é, entretanto, falsa. A temperatura da água não tem nenhum efeito contra a COVID-19 e as recomendações de saúde de vários países não mencionam que os gargarejos sejam efetivos contra o vírus.

“O vírus corona, antes de atingir os pulmões, permanece na garganta por quatro dias e, nesse momento, a pessoa começa a tossir e a ter dores de garganta. Se ele bebe muita água e gargareja com água morna, sal ou vinagre, elimina o vírus. Divulgue essas informações porque você pode salvar alguém com essas informações [sic], dizem as publicações viralizadas nas redes, com mais de 13 mil compartilhamentos no Facebook, acompanhadas por uma ilustração do corpo humano com o vírus na garganta.

Captura de tela feita em 16 de março de 2020 de uma publicação no Facebook

O mesmo conselho circula amplamente em outras postagens no Facebook (1, 2, 3, 4, 5) e em menor escala no Twitter (1, 2), além de ter sido compartilhada em espanhol (1, 2, 3).

Esses conselhos, no entanto, são falsos e não têm nenhuma incidência comprovada na eliminação do novo coronavírus.

A água quente não tem nenhum efeito sobre este vírus, segundo explicado pela equipe de verificação da AFP recentemente. De fato, nenhuma autoridade de Saúde consultada incluiu a ingestão de água morna entre as suas recomendações.

A AFP também consultou as recomendações oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS), assim como das autoridades de Saúde de Estados Unidos, Canadá e França, e tampouco é mencionado que fazer gargarejo é efetivo contra o novo coronavírus.

Trata-se de uma ação que pode ser tomada durante a “dor de garganta comum, não para o novo coronavírus, particularmente”, assegurou à AFP Brandon Brown, epidemiologista da Universidade da Califórnia.

“Não há necessidade de mudar a temperatura da água que você bebe. A água potável sempre é importante, não apenas para o coronavírus”, acrescentou o professor Brown.

O Ministério da Saúde brasileiro indica, ainda, que beber água morna ou quente não traz qualquer benefício em relação à prevenção ou eliminação do novo coronavírus. Por e-mail ao AFP Checamos, acrescentou que, “até o momento, não há nenhum medicamento, chá, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus”.

Por último, tampouco há fundamento para a afirmação de que o coronavírus permaneça “na garganta durante quatro dias” antes de chegar aos pulmões, de acordo com os organismos públicos de Saúde consultados pela AFP, entre eles o Ministério da Saúde espanhol.

Sobre o período em que o vírus permaneceria na garganta, a consultora de comunicação da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e Organização Mundial da Saúde, Larissa Domingues, afirmou em e-mail ao AFP Checamos que “não há evidências científicas que comprovem esta informação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a população se mantenha atualizada sobre a COVID-19 por meio de fontes confiáveis - autoridades de saúde nacionais (Ministérios da Saúde) e internacionais (OPAS, OMS)”.

A OMS insiste que “embora alguns remédios ocidentais, tradicionais, ou caseiros, possam proporcionar conforto e aliviar os sintomas da COVID-19, não há provas de que os medicamentos atuais possam prevenir, ou curar, a doença”.

As recomendações mais repetidas pelos organismos oficiais e compiladas pela OMS são:

- Evitar o contato direto com pessoas com doenças respiratórias.

- Ao tossir, ou espirrar, cobrir o nariz e a boca com a dobra do cotovelo, e lavar as mãos imediatamente depois.

- Manter uma higiene frequente das mãos, sobretudo antes de ingerir alimentos e bebidas, e depois do contato com superfícies em áreas públicas.

O surto pandêmico do novo coronavírus começou em 31 dezembro de 2019 na cidade chinesa de Wuhan. No último 11 de março, o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou a situação como uma “pandemia” e denunciou os “níveis alarmantes de propagação e inação”.

Em 17 de março, o número mundial de infectados se situava em mais de 183 mil e os mortos, em cerca de 7 mil, segundo consulta no mapa de monitoramento em tempo real do novo coronavírus, desenvolvido pelo Centro de Ciência de Sistemas e Engenharia da Universidade Johns Hopkins.

Em resumo, fazer gargarejos de água quente com vinagre, ou com sal, não tem qualquer incidência na eliminação do novo coronavírus, como tem circulado erroneamente nas redes sociais.

Rafael Martí
AFP Brasil
CORONAVÍRUS