Os planos genocidas de Bill Gates e os perigos da vacinação: as desinformações do vídeo viral de uma deputada italiana

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O objetivo das medidas contra a pandemia de COVID-19 é “a dominação absoluta” dos seres humanos; Bill Gates está executando planos para reduzir a população mundial e suas iniciativas deixaram milhares de mulheres estéreis e provocaram paralisias em crianças: estão são algumas das polêmicas declarações feitas pela deputada italiana Sara Cunial, conhecida por seus posicionamentos antivacinas, em uma intervenção parlamentar no último dia 14 de maio. A gravação do seu discurso foi compartilhada mais de 3,2 mil vezes nas redes sociais, mas várias de suas afirmações são falsas, ou inexatas.

“Deputada italiana denuncia Bill Gates,alegando crimes contra a humanidade” e “BOMBA DEPUTADA Italiana pede PRISÃO de BILL GATES alegando CRIMES CONTRA a HUMANIDADE (OMS, Deep State, NWO) Essa heroína nos ouviu e denunciou o genocida Bill Gates, merece todo nosso carinho e adimiração! [sic], dizem algumas das publicações no Facebook (1, 2) com vídeo, que circula ao menos desde 14 de maio de 2020.

A sequência, que foi gravada na Câmara dos Deputados do Congresso italiano, também foi encontrada no YouTube (1, 2, 3), no Twitter (1, 2, 3) e no Instagram.

Além do português, o discurso em italiano foi legendado em vários idiomas, como inglês, francês e espanhol.

“Agora sim,muitos não teve essa coragem parabéns e que pague pelo que fez com todas as crianças,tava na cara ou ele é vidente,o mundo é só do Pai ele cobra demora mas cobra é lei [sic], comentou um usuário.

Captura de tela feita em 25 de maio de 2020 de uma publicação no Facebook

A deputada que protagoniza o vídeo viralizado é Sara Cunial (independente), que em 2019 foi excluída do grupo parlamentar do Movimento 5 Estrelas, que se apresenta como antissistema.

O discurso teve Bill Gates como alvo, assim como os esforços para desenvolver uma vacina contra a COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus. Em 2018, a legisladora já havia considerado que vacinar a população era um “genocídio gratuito”.

Nas palavras de Cunial, “o verdadeiro objetivo disso tudo é o controle total, a dominação absoluta dos seres humanos, reduzidos ao nível de cobaias e de escravos”.

No entanto, ao menos três afirmações feitas pela legisladora durante a sua intervenção diante do Parlamento italiano em 14 de maio, que viralizou nas redes sociais, são falsas.

“Há décadas, [Bill Gates] trabalha no desenvolvimento de planos de despovoamento [...] Ele diz, nas palavras textuais retiradas de sua declaração: ‘se fizermos um bom trabalho com as novas vacinas, saúde e saúde reprodutiva, podemos diminuir a população mundial de 10% a 15%’. E continua, entre aspas: ‘somente um genocídio pode salvar o mundo’”.

FALSO. A deputada Cunial mal interpretou as palavras ditas por Bill Gates durante uma conferência em 2010.

Aos 4 minutos e 30 segundos desta apresentação no fórum TED de 2010 sobre como alcançar a neutralidade de carbono a nível mundial, Gates disse: “O mundo tem atualmente 6,8 bilhões de pessoas. E está a caminho de chegar a 9 bilhões. Agora, se fizermos um grande trabalho em novas vacinas, cuidados de saúde e serviços de saúde reprodutivos, poderíamos diminuir essa cifra, talvez, 10% ou 15%, mas veríamos um aumento aproximado de 1,3%”.

Captura de tela feita em 25 de maio de 2020 da conferência de Bill Gates no TED2010

Desde então, várias publicações acusam o cofundador da Microsoft de querer reduzir a população mundial por meio da sua fundação, criada em janeiro de 2000 e que trabalha no desenvolvimento de vacinas. De qualquer forma, não é a população mundial que Bill Gates espera ver reduzida de “10 a 15%”, segundo o seu discurso, mas o crescimento demográfico mundial, que ainda assim se manteria em valores positivos.

Segundo Gates, uma das alavancas do crescimento econômico e do desenvolvimento nos países mais pobres consiste em lentificar o crescimento demográfico, a fim de que os governos disponham de mais formas para melhorar a vida dos cidadãos.

Neste sentido, para Gates, desenvolver vacinas é essencial para reduzir a mortalidade, particularmente a infantil, e para dar início a “um círculo virtuoso [...] para que um país saia da pobreza”.

Não há registros da suposta declaração atribuída a Gates pela deputada italiana, segundo a qual ele teria afirmado que “apenas um genocídio pode salvar o mundo”. Isto também não foi mencionado em nenhum meio de comunicação.

“Graças às suas vacinas, ele conseguiu esterilizar milhões de mulheres na África”.

FALSO. A legisladora italiana faz eco de um boato, cuja falsidade foi provada, segundo o qual as vacinas enviadas para a África teriam como objetivo esterilizar as mulheres deste continente.

Este boato surgiu no Quênia em 2014, como reportou o jornal Le Monde. Análises ordenadas por bispos quenianos em amostras de sangue de mulheres deste país vacinadas contra o tétano mostraram a presença de hormônios da gravidez HCG (gonadotrofina coriônica humana). Isto, segundo os bispos, provava que existia a intenção de tornar estas mulheres estéreis por meio da vacinação. 

Em um comunicado conjunto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) afirmaram que a vacina era segura. “É importante assinalar que as análises do conteúdo de um medicamento, por exemplo a vacina contra o tétano, devem ser realizadas em um laboratório adequado, e a partir de uma vacina/medicação extraída de uma nova embalagem, não de uma amostra de sangue”, destacaram as organizações.

Um médico responsável por um dos laboratórios que realizou a análise explicou ao jornal queniano The Daily Nation que os resultados dos testes haviam sido mal interpretados e que a vacina antitetânica em questão não continha o hormônio da gravidez, que, segundo os bispos, deixava as mulheres estéreis.

Segundo ele, não havia sido especificada a natureza das amostras enviadas para as suas equipes e os testes não foram feitos de maneira adequada. O ministro da Saúde queniano também desmentiu em várias ocasiões (1, 2 e 3) a suposta nocividade da vacina antitetânica.

Criança é vacinada contra a poliomielite em Hyderabad, no sul da Índia, em 20 de junho de 2016
“[Bill Gates] causou uma epidemia de poliomielite que paralisou 500 mil crianças na Índia”.

FALSO. Cunial repete um boato falso que circula nas redes. 

Assim como Sara Cunial, publicações nas redes sociais asseguram que devido a uma campanha de vacinação contra a poliomielite na Índia impulsionada por Bill Gates, “490.000 crianças ficaram paralisadas”. Outras versões viralizadas nas redes afirmam que médicos desse país processaram Gates e que a sua fundação foi expulsa deste Estado asiático.

Consultados pela AFP, porta-vozes da Fundação Bill e Melinda Gates responderam por e-mail em 11 de maio que estas acusações eram falsas.

As estatísticas da OMS incluem apenas cerca de 20 casos nos quais a poliomielite foi contraída devido à vacina. Como explica a organização, “os poliovírus derivados das vacinas são formas raras de poliovírus, que sofreram mutações genéticas a partir de um vírus atenuado (enfraquecido) presente na vacina antipoliomielítica oral (VAO)”. A OMS também detalha que “em casos ainda mais raros, os vírus vacinais podem sofrer mutações genéticos que lhes conferem a capacidade de produzir paralisia, criando-se, assim, os chamados poliovírus circulantes de origem vacinal (cVDPV)”.

Segundo dados da OMS, entre 2000 e 2017 foram registrados 17 casos de poliomielite derivados da vacinação na Índia. Entrando neste link e selecionando “India” no menu e depois o ano, pode-se ver o número de casos de cVDPV registrados pela OMS.

Como se pode conferir na captura de tela a seguir, em 2009 houve 15 casos e outros dois em 2010.

Capturas de tela feitas em 20 de maio de 2020 no site da OMS

O programa de erradicação da poliomielite na Índia, apoiado pela Fundação Bill e Melinda Gates, faz parte da Iniciativa mundial para a erradicação da poliomielite, uma aliança público-privado da qual também são membros a OMS, a associação Rotary Internacional, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e o Unicef.

A Fundação Gates não foi “expulsa” da Índia, como asseguram as publicações nas redes, e continua trabalhando em dois estados do norte desse país. O Ministério da Saúde indiano desmentiu que tenha rechaçado a cooperação médica com essa fundação: “É uma afirmação enganosa e inexata. A Fundação Bill e Melinda Gates continua cooperando e apoiando o Ministério da Saúde”, assegurou em um comunicado.

“Bill Gates já profetizou a pandemia em 2018, depois simulou, em outubro passado, no ‘Evento 201’”.

ENGANOSO. Gates realmente advertiu em 2018 sobre a possibilidade de uma pandemia. A simulação “Evento 201” foi realizada no ano seguinte, mas se baseou em um modelo de vírus inventado, com características que não são exclusivas do novo coronavírus.

Em fevereiro de 2018, durante uma conferência em Munique, Bill Gates advertiu que o mundo deveria se preparar para enfrentar uma pandemia global. Gates deu como exemplo a epidemia de ebola na África Ocidental em 2014 e 2015, a gripe espanhola de 1918 e mencionou a possível invenção de um vírus com fins “terroristas”, considerando “possível” uma catástrofe a nível mundial.

“Para lutar contra as pandemias globais, também se deve lutar contra a pobreza... É por isso que corremos o risco de ignorar a relação entre segurança de saúde e segurança internacional”, disse naquela ocasião.

Este encontro ocorreu em outubro de 2019 no Centro de Segurança de Saúde da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e foi co-organizado pelo Fórum Econômico Mundial e pela Fundação Bill e Melinda Gates. Segundo o detalhado no site do evento, foi feita uma simulação de resposta a “pandemias graves” com o objetivo de “minimizar as suas consequências econômicas e sociais em grande escala”.

Em 24 de janeiro de 2020, a universidade descartou a suposta previsão: “Para o cenário, desenhamos um modelo de pandemia de coronavírus fictício, mas declaramos explicitamente que não se tratava de uma previsão”.

Também rechaçaram especificamente qualquer vínculo com o novo coronavírus: “Embora o nosso exercício de simulação incluísse um novo coronavírus simulado, as entradas que usamos para modelar o impacto potencial desse vírus fictício não são similares às do nCoV-2019”.

Captura de tela feita em 29 de janeiro de 2020 do comunicado da Johns Hopkins

Os sintomas com os quais o vírus da simulação foi modelado são comuns a diferentes cepas de coronavírus. “Os coronavírus, em geral, causam sintomas respiratórios em seres humanos, se [para a simulação] escolheram um coronavírus, iriam escolher sim, ou sim, sintomas respiratórios”, explicou à AFP no início deste ano o pesquisador do argentino Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet, na sigla em espanhol) e membro da Associação Argentina de Virologia (SAV), Juan Carballeda.

Em uma declaração à imprensa, o acadêmico-sênior do Centro de Segurança de Saúde da Johns Hopkins, Eric Toner, destacou que o projeto da simulação toma como base epidemias reais de anos anteriores.

“Durante o ‘Evento 201’, assim como em casos reais, os principais desafios foram resolver aspectos econômicos, enquanto garantiam que os serviços de saúde e [a entrega de] antivirais estivessem disponíveis e fossem acessíveis aos que necessitassem”, explicou.

Não é a primeira vez

A deputada Cunial já havia feito um pronunciamento no último dia 24 de abril diante do Parlamento italiano com outras polêmicas declarações:

“Já existem provas contundentes de que a vacinação contra a gripe causa 40% mais casos de COVID por interferência viral”.

FALSO. As palavras da deputada italiana são “uma enxurrada de estupidez”, assegurou à AFP Bruno Lina, professor de virología e membro do conselho científico que assessora o governo francês na questão da COVID-19.

“Nunca foi provado que existe uma interferência viral entre a gripe sazonal e o novo coronavírus, e não há nenhum vínculo entre a vacina contra a gripe e o risco de infecção pelo novo coronavírus”, acrescentou Lina.

O virologista Bruno Canard, diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS, na sigla em francês), em Aix-Marseille, explicou à AFP: “Não há nenhuma interferência descrita [pelos pesquisadores] porque ainda é muito cedo. No início da epidemia [de COVID-19], a situação da COVID-19 era complicada por uma epidemia simultânea de gripe, por isso, três meses depois, ainda é muito cedo” para esse tipo de “declaração escandalosa”.

“Uma vacina [contra a COVID-19] não servirá de nada pela mutabilidade do vírus”.

SEM FUNDAMENTOS. Os especialistas concordam que, por enquanto, não existem indícios de que isso irá acontecer.

A questão das mutações do vírus é fundamental no âmbito das pesquisas em andamento para as vacinas, já que a sua eficácia pode ser afetada pela evolução do vírus. Mas, apesar das mutações, “o acompanhamento [do novo coronavírus] não mostra até o momento uma tendência para uma versão 2 do vírus”, assegurou no final de abril Ian Jones, professor de Virologia na Universidade de Reading, na Inglaterra.

“O novo coronavírus é super estável, estamos muito surpresos com isso”, afirmou Bruno Lina, destacando: “Há uma confusão: um vírus pode sofrer pequenas mudanças em um nucleotídeo, ou aminoácido, mas isso não quer dizer que seja o vírus que sofreu mutações”.

“Não é um vírus fácil que vai se deixar ser reduzido a zero, a sua capacidade de mutação é importante e é uma incógnita que falta ser estudada, mas aí a dizer que uma vacina não servirá de nada, é falso”, explicou o virologista Bruno Canard.

“Se nos dermos conta de que ele está sofrendo várias mutações, deveremos pensar em investir em métodos de diagnóstico e de terapias, e não colocar todo o dinheiro nas vacinas”, considerou, ainda.

Pesquisador trabalha na vacina contra a COVID-19 em Copenhague, em 23 de março de 2020

“Nesta etapa, a taxa de mutação do vírus leva a pensar que a vacina desenvolvida para o SARS-CoV-2 será uma vacina única, mais que uma nova vacina a cada ano, como a vacina contra a gripe”, considerou Peter Thielen, geneticista molecular da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, citado em um artigo do Washington Post.

Nesse sentido, Lina afirmou que se conseguirem desenvolver uma vacina, “não haverá necessidade de voltar a fazê-la a cada ano”.

Embora até o momento não exista nenhuma vacina para prevenir a COVID-19, estão em curso uma dúzia de testes clínicos, a metade deles na China, de acordo com os registros da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

A equipe de checagem do Pagella Política revelou a falsidade de outras afirmações de Cunial, particularmente as que têm relação com a política italiana.

Em resumo, o discurso da deputada italiana Sara Cunial do último dia 14 de maio, que viralizou nas redes sociais, contém afirmações falsas e enganosas sobre a COVID-19.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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