A fundação de Bill Gates participou de uma simulação de pandemia, mas com sintomas comuns a várias cepas do coronavírus

A fundação de Bill Gates, o Fórum Econômico Mundial e representantes da indústria farmacêutica previram em 2019 a atual epidemia de coronavírus? Isso é o que afirmam publicações em vários idiomas que circulam nas redes sociais desde o fim de janeiro. De fato, a simulação existiu, mas ela se baseou em um modelo de vírus inventado, que coincide com epidemias de anos anteriores, causadas por outras cepas.

“O coronavírus é outro truque para manipular a sociedade, e vender mais vacinas?”, questiona uma das postagens compartilhadas nas redes sociais desde o dia 31 de janeiro, cujo texto continua: “Segundo as informações, antes do coronavírus chinês começar a ser notícia mundial, o Johns Hopkins Center for Health Security , em parceria com o Fórum Econômico Mundial e a Fundação Bill e Melinda Gates, realizou um exercício de pandemia de alto nível chamado 'Evento 201' que parece ter sido um plano preditivo para o que agora está acontecendo com o surto de coronavírus, ou que pelo menos está preste acontecer [sic].

Captura de tela feita em 3 de fevereiro de 2020 de publicação no Facebook

Outras publicações também circularam amplamente, desde 24 de janeiro, inclusive com uma animação em vídeo mostrando o suposto vírus se espalhando pelo mundo. Alegações similares foram igualmente encontradas em espanhol, inglês e francês.

Muitas publicações, além disso, assinalam que o novo coronavírus que assola a China teria sido criado pelos Estados Unidos e mostram como supostas provas algumas patentes antigas, mencionando o próprio Bill Gates como dono de uma delas. A AFP verificou essas postagens e você pode conferir a checagem em português e espanhol.

O problema respiratório causado por essa nova cepa do coronavírus surgiu no final de 2019 na cidade chinesa de Wuhan e já deixou mais de 400 mortos, 20 mil infectados e dezenas de milhões de pessoas foram colocadas em quarentena no país.

O Evento 201

O evento mencionado nas publicações de fato ocorreu em outubro de 2019. Algumas delas, inclusive, contêm um vídeo do mesmo, intitulado “Event 201 Pandemic Exercise” (“Evento 201 Exercício de Pandemia”, em tradução livre do inglês), publicado em 4 de novembro de 2019 pelo Centro para a Segurança de Saúde da Universidade Johns Hopkins.

A gravação mostra um resumo do encontro que, como destacam algumas postagens, foi coorganizado pelo Fórum Econômico Mundial e pela Fundação de Bill e Melinda Gates. Como foi detalhado no site do evento, este era uma simulação de resposta a “pandemias graves” com o objetivo de “minimizar as suas consequências econômicas e sociais em grande escala”.

Em comunicados à imprensa publicados durante o encontro, o Centro para a Segurança de Saúde explicou que o Evento 201 era “um exercício multimídia de pandemia do qual participaram líderes governamentais, da política, de saúde pública e empresas globais que pertencem a indústrias-chave na resposta a pandemias e para que as economias e as sociedades se mantenham ativas durante um surto intercontinental grave e de transmissão rápida”.

Em 24 de janeiro, a instituição divulgou uma declaração, em inglês, em resposta às publicações viralizadas em vários idiomas: “Para esclarecer, o Centro para a Segurança de Saúde e seus sócios não fizeram uma previsão durante o exercício de simulação. Para o cenário, desenhamos um modelo de pandemia de coronavírus fictício, mas declaramos explicitamente que não se tratava de uma previsão”.

Além disso, nesse comunicado, negaram especificamente qualquer ligação com o novo coronavírus: “Embora o nosso exercício de simulação incluísse um novo coronavírus simulado, as entradas que usamos para modelar o impacto potencial desse vírus fictício não são similares às do 2019-nCoV”.

Captura de tela feita em 4 de fevereiro de 2020 do comunicado da Universidade Johns Hopkins

De acordo com a descrição fornecida no vídeo do evento, o vírus fictício usado no exercício foi denominado Síndrome Pulmonar Associada ao Coronavírus (CAPS, na sigla em inglês). A história criada para a simulação relata que o vírus, que se espalhou pelo mundo, começou no Brasil, onde foi transmitido de porcos para humanos, provocando sintomas respiratórios que iam desde leves gripes a pneumonias severas.

Os sintomas com os quais o vírus da simulação foi modelado são comuns a diferentes cepas de coronavírus. “Os coronavírus, em geral, causam problemas respiratórios  em seres humanos, sim [para a simulação] escolheram um coronavírus, iam levar sim ou sim a problemas respiratórios”, explicou à AFP Juan Carballeda, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas (Conicet) e membro da Associação Argentina de Virologia (SAV).

O especialista também destacou que, para o evento, segundo informação publicada pelos organizadores, não foi desenhado um vírus a nível molecular que permitisse saber exatamente a sua sequência, de forma a inviabilizar a realização da comparação com o que provocou a epidemia de Wuhan. “Não há maneiras de saber se trata-se do mesmo vírus. Um foi inventado, o outro é real, não têm nada a ver”, afirmou Carballeda.

Em uma declaração à imprensa sobre o evento, Eric Toner, acadêmico sênior do Centro para a Segurança da Saúde de Johns Hopkins, destacou que o desenho da simulação toma como base epidemias reais de anos anteriores.

“Só faltou lembrar de situações de menos de 20 anos atrás, como a da SRAS de 2003 ou a gripe aviária H5N1 de 2005, ou a pandemia de gripe A (H1N1) de 2009, para se dar conta do potencial que têm de provocar uma catástrofe global. Durante o Evento 201, assim como nesses casos reais, os principais desafios foram resolver aspectos econômicos, enquanto garantiam que os serviços de saúde e [a entrega] de antivirais estivessem disponíveis e fossem acessíveis àqueles que necessitassem”, explicou.

Infográfico produzido pela AFP mostra dados sobre o coronavírus

Na descrição do vídeo oficial pode-se ler: “Baseando-se em casos reais, o Evento 201 identifica aspectos políticos importantes e desafios a nível de preparação, que poderiam ser resolvidos com a vontade e atenção política adequadas. Estes temas foram apresentados como uma narrativa que permite envolver e educar os participantes e a audiência”.

O 2019-nCoV, como foi chamado o novo coronavírus que se originou na China, gerou grande preocupação devido a sua semelhança com a epidemia de SRAS de 2002-2003. Em 30 de janeiro, a OMS declarou emergência internacional diante da propagação do vírus, que já infectou mais de 20 mil pessoas na China.

Em resumo, a fundação de Bill Gates, o Fórum Econômico Mundial e o Centro para a Segurança da Saúde da Universidade Johns Hopkins coorganizaram uma simulação de resposta a uma epidemia de coronavírus em 2019. No entanto, o modelo utilizado foi o de um vírus fictício, inventado, cujas características são comuns a várias cepas de coronavírus, não exclusivamente à 2019-nCoV, que causou uma epidemia na China.

AFP Argentina
Nadia Nasanovsky
AFP Brasil