O Red Bull não deu positivo para covid-19 e este vídeo não demonstra ineficácia de testes

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Um vídeo em que um homem mostra como uma bebida energética supostamente deu positivo para covid-19 após ser submetida a um teste de antígeno foi visualizado dezenas de milhares de vezes em redes sociais desde o início de fevereiro. No entanto, especialistas explicaram à AFP que o resultado visto nas imagens é inválido, e não positivo, e que a sequência não prova que estes testes não funcionam, já que os kits são elaborados para serem utilizados com amostras biológicas do corpo humano.

“Depois da Cabra, Melão, Coca-cola, chegou a vez da Red bull, testou positivo ao COv1d...Vamos rex. Reflita!”, diz uma das publicações ilustradas com o vídeo no Facebook (1, 2, 3). “Não se deve confiar nos testes. Pois eles dão resultados de FALSO Positivo”, escreveu outro usuário ao publicar a sequência.

Na gravação, o encarregado de realizar o teste diz, em alemão: “Hoje testaremos o Red Bull. Veremos se o resultado será positivo ou negativo”. Em seguida, introduz um cotonete na lata da bebida, o retira e o passa no orifício do kit onde se coloca a amostra. Depois, derrama um pouco do líquido diretamente sobre o teste. Após alguns segundos, o exame apresenta um resultado e o homem diz que é positivo.

As imagens também circularam no aplicativo de mensagens Telegram (1, 2) assim como em publicações em inglês, espanhol, italiano e polonês

Captura de tela feita em 18 de fevereiro de 2021 de uma publicação no Telegram

Tipos de testes

Os diferentes tipos de testes para detectar a covid-19 podem ser divididos em duas categorias: diagnósticos (PCR e testes de antígenos) e sorológicos. Os primeiros detectam se uma pessoa está infectada com o coronavírus, enquanto os segundos analisam se ela desenvolveu anticorpos.

O vídeo da bebida energética mostra um kit de teste de antígeno. Esse tipo de análise é menos precisa que os exames de PCR, mas fornece os resultados de maneira mais rápida. Estes testes também são menos sensíveis que os de PCR, o que significa que precisam de uma carga viral mais alta para identificar a infecção. Isso quer dizer que, especialmente se o contágio ocorreu recentemente, o exame de antígenos pode dar falsos negativos. 

Embora não seja possível identificar a marca do teste utilizado no vídeo viralizado, em outras verificações a AFP analisou o manual de funcionamento do teste de antígeno MEDsan. Este indica que o resultado é válido e positivo se aparecem dois traços distintos na janela principal: a linha de controle (C) e a linha de teste (T). A maioria dos testes de covid-19 são semelhantes e funcionam da mesma maneira.

Se aparece somente a linha (C), o teste deu negativo, e se aparece apenas a linha (T), o resultado é inválido. A linha de controle (C) deve estar sempre visível para que o exame seja válido, já que mostra se foi produzida uma reação ou não.

Captura de tela feita em 18 de fevereiro de 2021 do manual de teste de antígeno da MEDsan; o destaque em verde é do AFP Checamos

No vídeo compartilhado nas redes sociais é visível a linha (T), mas não a segunda linha (C), que confirmaria um resultado positivo: 

Captura de tela feita em 18 de fevereiro de 2021 de uma publicação no Facebook

“Se a linha (C) não aparece, significa que algo está errado com a amostra ou com o teste”, explicou Robert Flisiak, responsável pelo Departamento de Doenças Infecciosas e Hepatologia da Universidade Médica de Bialystok, na Polônia.

Se “a linha de controle (C), ou a linha de controle (C) e a linha de teste (T) não aparecem” o resultado é inválido, explica o manual da MEDsan. “As razões mais prováveis para o não surgimento da linha de controle são um volume de amostra incorreto ou técnicas processuais incorretas”, acrescenta.

O guia também detalha que o teste só é adequado para examinar “as secreções nasofaríngeas e/ou orofaríngeas em seres humanos” e que o teste “não se destina a ser utilizado para outros fluídos corporais e amostras”.

Testes com alimentos

Kai Markus Xiong, porta-voz da MEDsan, disse à equipe de verificação da AFP em dezembro de 2020 que o trabalho do fabricante de testes é proporcionar resultados confiáveis a seus clientes. No entanto, usá-lo em produtos alimentícios não é um experimento válido para questionar sua capacidade de detectar o SARS-CoV-2.

“O vídeo não demonstra que os testes de antígenos não são confiáveis”, assegurou Oliver Stojković, geneticista da Universidade Médica de Belgrado. Por e-mail, o especialista explicou que um teste de antígeno pode dar um falso positivo “se a amostra utilizada no teste tem um nível de pH extremamente baixo”. O pH do Red Bull é de 3,4, esclareceu. O pH das amostras de material biológico recolhido de seres humanos, por sua vez, tem uma acidez neutra, ou seja, de aproximadamente 7.

Por isso, disse, os testes podem ser usados com qualquer amostra humana, mas não tem sentido utilizá-los com produtos alimentícios, especialmente aqueles com um pH abaixo do ácido.

Outros cientistas também indicam que a aplicação correta dos testes é crucial para obter um resultado válido. “O teste foi desenvolvido para permitir a ligação de um anticorpo aos antígenos, não para reagir a certos alimentos. Do mesmo modo, podemos reclamar de um carro que não funciona, porque colocamos outro líquido no tanque no lugar da gasolina”, escreveu Thomas Decker, professor de imunobiologia da Universidade de Viena, em e-mail enviado à AFP em 10 de dezembro de 2020.

De modo semelhante, Annette Beck-Sickinger, bióloga da Universidade de Leipzig, na Alemanha, explicou que um procedimento químico só é preciso quando é utilizado corretamente e que o teste funciona quando são cumpridas as condições adequadas.

O AFP Checamos já verificou vídeos semelhantes em que um kiwi, um purê de maçã e um refrigerante foram submetidos a testes de covid-19 para desacreditar o método de diagnóstico amplamente utilizado durante a pandemia.

Em todos os casos, tanto os fabricantes dos exames como distintos especialistas explicaram que esses experimentos foram conduzidos sob condições incorretas, o que torna seus resultados inválidos.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
CORONAVÍRUS