O experimento com um kiwi não prova que testes de antígenos são inválidos

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Um vídeo em que supostos cientistas italianos provariam, por meio de um experimento com um kiwi, que os testes de antígenos para detectar a covid-19 não são eficazes foi compartilhado centenas de vezes pelo menos desde o último dia 25 de dezembro. No entanto, especialistas explicaram à AFP que os resultados desses exames são válidos apenas quando usados ​​nas condições corretas.

Cientistas italianos fizeram o teste de covid em um kiwi, e o resultado foi positivo”, resume uma das publicações acompanhadas por um vídeo compartilhadas mais de 400 vezes no Facebook (1, 2 e 3) e no Instagram

Captura de tela feita em 13 de janeiro de 2020 de publicação no Facebook

Nas imagens é possível ver homens vestindo jalecos brancos em uma sala que parece um laboratório bastante simples. Um deles faz um experimento de antígenos com o kiwi. Ele corta a fruta ao meio, leva o material de teste para um tubo de ensaio, mistura com a solução tampão e, finalmente, deixa cair três gotas no teste

Depois de algum tempo, um traço aparece no teste. O homem afirma em italiano e em tom irônico, que "o kiwi testou positivo", os outros riem e repetem: "É verdade, o kiwi é positivo". Não é informado que tipo de teste foi realizado nem a marca do kit.

Por meio de busca reversa das imagens, a equipe de checagem da AFP constatou que o trecho compartilhado nas publicações é parte de uma gravação mais longa feita pelo canal de streaming italiano contro.tv., em que são testadas outras nove frutas, como tangerina, fruta do conde e uva. 

Nessa versão na íntegra é possível saber quem são os três homens que realizam o teste na gravação. Um deles é o cirurgião Mariano Amici, que, além da Medicina, tentou a carreira política. O segundo é um técnico de laboratório, Domenico d'Angelo, e o terceiro é Stefano Scoglio

Apesar de Scoglio ser apresentado no vídeo original como “doutor”, no seu perfil no LinkedIn vê-se que ele não é médico. Ele atualmente dirige uma empresa privada chamada "Nutritherapy Research Center", que comercializa produtos nutricionais à base de algas e outras preparações de medicamentos naturais.

A AFP procurou o registro dos três no banco de dados da Câmara Médica Italiana (FNOMCeO), mas não encontrou os de Scoglio e d’Angelo. Apenas o de Amici foi encontrado. 

Na mídia italiana, Scoglio replicou suas teorias da conspiração sobre o coronavírus e opinou que o vírus nunca havia sido isolado, alegação que o Checamos já demonstrou ser falsa

O experimento

A pedido do AFP Checamos, o virologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fernando Motta, assistiu ao vídeo e fez considerações que revelam a fragilidade do experimento apresentado. 

Em primeiro lugar, Motta destacou que os três homens não mostram em nenhum momento qual é o teste usado e se ele é realmente para detecção do vírus SARS-CoV-2. “Existem milhares de testes de fluxo lateral, como o que aparece no vídeo. Não dá para saber se, de fato, aquele é um teste para o novo coronavírus. Ele não mostra a embalagem”, afirma o virologista. “Não dá para dizer que é de detecção do novo coronavírus ou se é para detectar antígenos ou anticorpos”, acrescenta.

O segundo problema apontado por Motta se refere ao fato de o teste não ter sido feito para o tipo de amostra coletada. “Qualquer ensaio desse tipo é padronizado para uma amostra clínica específica”, esclarece. No caso do teste de antígenos para detectar infecção por covid-19, a amostra deve ser colhida das vias respiratórias. Se uma amostra de outro tipo é utilizada, o teste não pode ser considerado eficaz. “Se uma mulher disser que fez um teste de gravidez com saliva, em vez de usar a amostra padrão, que é urina, alguém acreditaria no resultado?”, comparou. 

Sobre o resultado apresentado na parte final do vídeo, Motta alerta para o fato de ter aparecido somente uma linha no cassete, que seria a linha de controle. 

Captura de tela feita em 13 de janeiro de 2020 de uma publicação no Facebook

O médico explica, entretanto, que “apenas a linha de controle indica ensaio inválido e negativo”. A explicação do virologista pode ser confirmada, por exemplo, no manual de uso de um teste de antígeno produzido pelo laboratório Dialab GmbH

Captura de tela tirada em 17 de dezembro de 2020 do prospecto publicado pela Dialab GmbH

Nesse caso, ainda que o teste usado no experimento tenha sido realmente de antígenos para detecção de covid-19, o kiwi não teria testado positivo para o novo coronavírus, como alegam os participantes. 

Os testes são inúteis?

A equipe de checagem da AFP já verificou vídeos semelhantes: os que testaram bebida com cola, suco (em espanhol) e purê de maçã como amostra também tiveram resultados positivos.

Em todos os casos, os diversos especialistas consultados indicam que as experiências foram realizadas em condições incorretas, fazendo que os resultados obtidos sejam inválidos.

"O teste foi desenvolvido para permitir a ligação de um anticorpo a antígenos, e não para reações a certos alimentos", disse Thomas Decker, professor de Imunobiologia da Universidade de Viena, à AFP

Na mesma linha, Anette Beck-Sickinger, professora de Bioquímica da Universidade de Leipzig, na Alemanha, ressaltou que modificar as condições do teste, como pH ou temperatura, pode "causar uma reação inespecífica dos anticorpos", gerando um falso positivo. Em outras palavras, uma aplicação incorreta do teste mostra resultados incorretos.
 

Em setembro a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) deu seu aval aos testes com antígenos, demonstrando que eles seriam uma alternativa aos PCR e que poderiam contribuir para conter o avanço da pandemia. No entanto, em seu guia atualizado em dezembro, os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos advertiram que os testes de antígenos são menos sensíveis que os PCR.

“Grande farsa” 

No final do vídeo, Scoglio afirma que a covid-19 é "uma grande farsa" e uma "ameaça inexistente". Acrescenta que os testes também são "uma grande farsa desde o início" e apela: "Não faça o teste, não se vacine, não fique doente, não morra em 2021”

O vírus que causa a covid-19 foi identificado e isolado em laboratórios. Seu código genético foi publicado em março de 2020 pelo Centro de Saúde Pública, pela Escola de Saúde Pública de Xangai e no GenBank, uma base de dados para sequenciamento de ácido nucleico. Os CDC dos Estados Unidos se referiram ao isolamento do vírus em um artigo de maio. 

As estatísticas de mortes e descrições dos esforços de cientistas e médicos podem ser encontradas no site da Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com dados de 13 de janeiro, o número de casos confirmados de covid-19 no mundo ultrapassou 90 milhões, e o balanço de mortes é de aproximadamente 1,9 milhão de pessoas em 223 países e territórios do mundo. 

Esse vídeo foi checado por outros sites, entre eles o Estadão Verifica, o Aos Fatos e o Boatos.org.

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