Não há relação comprovada entre casos de paralisia facial e vacina da Pfizer contra covid-19

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Em transmissão ao vivo feita no último dia 12 de dezembro no Facebook, o enfermeiro Anthony Ferrari Penza alerta que a vacina da Pfizer contra a covid-19 causa paralisia facial e choque anafilático. O vídeo teve 47 mil compartilhamentos até o momento. No entanto, essa afirmação é enganosa porque os casos de paralisia e alergias graves são numericamente baixos ao se considerar o total de pessoas que já tomaram a vacina sem ter qualquer tipo de reação adversa. Dados do ensaio clínico do imunizante apontam que somente quatro pessoas entre um pouco mais de 18.000 (ou 0,022%) desenvolveram paralisia facial, sem que fosse possível atribuí-la com certeza às vacinas.

“PERIGO, PERIGO, PERIGO. VACINA CONTRA COVID 19  CAUSA PARALISIA FACIAL !!! EU AVISEI !!!”, alerta o texto que acompanha o vídeo.

“Venho aqui fazer outro alerta à população do Brasil. (...) Quatro cidadãos que fizeram uso da vacina da Pfizer tiveram paralisia de Bell. (...) Essas vacinas, que inclusive existe pessoas defendendo, duas pessoas tiveram choque anafilático. Profissionais de saúde quase morreram. Agora quatro cidadãos tiveram paralisia de Bell. Vocês imagina isso, qualquer tipo de vacina, seja da Pfizer, essa Coronavac, que a própria China não utiliza na própria China (...). Imagina em milhões e milhões e milhões de brasileiros, afirma o enfermeiro no vídeo

Captura de tela feita em 21 de dezembro de 2020 de uma publicação no Facebook

O vídeo circula no momento em que o Brasil debate a vacinação contra a covid-19, que já deixou mais de 187 mil mortos no país e mais de 7 milhões de infectados. 

O autor do vídeo, Anthony Ferrari Penza, foi candidato a vereador pelo Partido Social Democrata (PSD) nas últimas eleições municipais na cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro.

A vacina desenvolvida em conjunto pelos laboratórios norte-americano Pfizer e alemão BioNTech é a primeira a ser aprovada em países ocidentais, como Reino Unido e Estados Unidos, que relatório publicado em 8 de dezembro que a vacina, com nível de eficácia de 95%, não apresentava riscos à segurança que impedissem sua autorização. No texto, a FDA divulgou detalhes dos testes realizados, inclusive sobre os efeitos colaterais.

Especialistas da Agência Norte-Americana de Medicamentos (FDA, na sigla em inglês) apontaram em relatório publicado em 8 de dezembro que a vacina, com nível de eficácia de 95%, não apresentava riscos à segurança que impedissem sua autorização. No texto, a FDA divulgou detalhes dos testes realizados, inclusive sobre os efeitos colaterais.

Os dados de segurança de 38.000 participantes, divididos em grupo vacinado e grupo placebo (produto neutro usado para poder fazer comparações), mostram que os efeitos adversos mais frequentes foram: reações em torno do ponto da aplicação de injeção no braço (84,1%), fadiga (62,9%), dor de cabeça (55,1%), dores no corpo (38,3%), calafrios (31,9%), dores nas articulações (23,6%) e febre (14,2%).

As chamadas reações "graves" ocorreram em proporções que variaram de 0% a 4,6% dos participantes, dependendo do sintoma em questão e do perfil considerado. Em geral, foram mais frequentes em pacientes com menos de 55 anos de idade e após a injeção da segunda dose da vacina. Dos pacientes com menos de 55 anos que receberam a segunda dose da vacina (e não o placebo), 4,6% experimentaram "fadiga severa", o efeito colateral grave com maior incidência, de acordo com o documento da FDA.

Captura de tela feita em 16 de dezembro de 2020 do relatório da FDA

Paralisia facial

Quatro em aproximadamente 18.000 participantes dos ensaios clínicos da vacina Pfizer/BioNTech desenvolveram paralisia de Bell (paralisia facial), 3, 9, 37 e 48 dias, respectivamente, após a vacinação. O primeiro sofreu paralisia durante três dias, mas desenvolveu "sequelas" de acordo com o relatório. Para os outros três casos, as paralisias já haviam terminado ou continuavam em andamento em 14 de novembro, de acordo com o relatório, com durações de 10, 15 e 21 dias, respectivamente.

Até o momento não se sabe se essas paralisias são reações à injeção da vacina da Pfizer ou se esses pacientes as apresentaram por algum outro motivo. Nenhuma paralisia de Bell foi detectada no grupo do placebo, mas, segundo o relatório, a frequência no grupo da vacina (4 em 18.000) não difere da geralmente observada para essa paralisia. Por isso, não se pode afirmar que o sintoma tenha sido causado pela vacina, mas preventivamente a recomendação àqueles com histórico de alergias graves para que não se vacinem. Segundo a MHRA, “qualquer pessoa com histórico de anafilaxia a uma vacina, medicamento ou alimento não deve receber a vacina Pfizer / BioNTech”

Casos graves de alergia

No dia 8 de dezembro, duas pessoas imunizadas com a vacina da Pfizer/BioNTech no Reino Unido sofreram reação alérgica grave, levando a Autoridade Reguladora de Medicamentos Britânica (MHRA, na sigla em inglês) a emitir uma recomendação àqueles com histórico de alergias graves para que não se vacinem. Segundo a MHRA, “qualquer pessoa com histórico de anafilaxia a uma vacina, medicamento ou alimento não deve receber a vacina Pfizer / BioNTech”

A agência britânica ressaltou que “o choque anafilático é um efeito colateral conhecido, embora muito raro, de qualquer vacina” e que “a maioria das pessoas não terá anafilaxia e os benefícios em proteger as pessoas contra covid-19 superam os riscos”.

No último sábado, 19 de dezembro, foi a vez do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) comunicar que seis pessoas que tomaram a vacina tiveram reações alérgicas graves nos EUA. 

O CDC recomendou que pessoas com reação alérgica grave a qualquer ingrediente da vacina a covid-19 não sejam vacinadas e que aqueles que já tiveram reação alérgica grave a outras vacinas ou terapias injetáveis procurem orientação médica para decidir sobre tomar ou não a vacina.

Enfermeira prepara dose de vacina contra coronavírus em San Juan, Porto Rico, em 15 de dezembro de 2020 (Ricardo ARDUENGO / AFP) (AFP / Ricardo Arduengo)

Raio-x detecta covid-19?

Em outro trecho do vídeo, o enfermeiro critica o uso de raio-x para diagnóstico de covid-19: “Outro alerta que eu dou a vocês: raio-x não detecta covid. Não tem como fazer um parâmetro de um paciente com 25, com 30, com 50% do pulmão comprometido”.

Em um guia publicado em junho pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) sobre o uso de exames de imagem de tórax no tratamento da covid-19, afirma-se que “os exames de imagem de tórax foram considerados como parte da investigação diagnóstica de pacientes com suspeita ou probabilidade de COVID-19, nos lugares em que a RT-PCR não está disponível ou em que os resultados demoram ou são inicialmente negativos na presença de sintomas sugestivos de COVID-19. Os exames de imagem também foram considerados na complementação da avaliação clínica e dos parâmetros laboratoriais no tratamento de pacientes já diagnosticados com COVID-19”.

De acordo com a Opas, os exames de imagem devem ser feitos como um dos elementos do diagnóstico, junto com dados clínicos e laboratoriais, em casos específicos, como o de sintomas graves, de pacientes pertencentes a grupos de risco ou que convivam com pessoas de alto risco, por exemplo. 

Entre as modalidades de exames de imagem, a Opas esclarece que, em comparação à tomografia computadorizada de tórax, o raio-x “parece ter uma sensibilidade mais baixa e pode ter especificidade mais alta” enquanto a tomografia “tem uma sensibilidade relativamente alta, mas uma especificidade relativamente baixa, e pode ser útil em pacientes com doenças pulmonares preexistentes”. A Opas menciona também a ultrassonografia pulmonar, que tem “evidências de baixa certeza que apoiam a precisão do diagnóstico”, mas que pode ser útil na investigação de casos de mulheres grávidas e crianças. 

A Opas aponta que diferentes diagnósticos e possíveis complicações “devem ser considerados na escolha da modalidade do exame de imagem”

Venda de oxigênio industrial como medicinal

Em seu vídeo, Anthony Ferrari Penza denuncia que “a Polícia Federal descobriu que estão vendendo oxigênio industrial no lugar de oxigênio medicinal”.

De fato, a imprensa brasileira (1) tem veiculado notícias sobre vendas de oxigênio industrial como se fosse medicinal.

Coronavac na China

Ao contrário do que Anthony Ferrari Penza afirmou no vídeo, a China realizou teste da vacina CoronaVac, da farmacêutica chinesa Sinovac Biotech, em seu território, em todas as fases do estudo, como pode ser verificado na COVID19 Vaccine Tracker, plataforma da canadense McGill University que reúne informações sobre as vacinas desenvolvidas contra o coronavírus. 

Em junho, a Sinovac e o Instituto Butantan firmaram uma parceria para a terceira fase de testes da vacina CoronaVac. O acordo prevê ensaios clínicos com a vacina em voluntários brasileiros no estado de São Paulo e transferência de tecnologia para o Instituto Butantan para que o imunizante possa ser produzido em grande escala no Brasil.

A revista médica The Lancet também publicou um artigo científico em 17 de novembro de 2020 que detalha os ensaios clínicos de fase 1 e 2 conduzidos na China com o imunizante.

Ainda de acordo com a COVID19 Vaccine Tracker, a vacina da Coronavac já começou a ser distribuída na China mesmo antes da divulgação dos resultados da fase 3.

Hidroxicloroquina e ivermectina

Em outro trecho do vídeo o enfermeiro defende o tratamento contra a covid-19 com hidroxicloroquina e ivermectina, apesar de reconhecer que não há comprovação científica desses tipos de tratamento.

Nós já temos estudo observacional de medicamentos que estão ajudando em pacientes. Não só eu, como colegas que estão falando no mundo inteiro, (...) sobre ivermectina, hidroxocloroquina. Não existe comprovação, mas existe comprovação de médicos do mundo inteiro, observacional”

Como já mostramos em outras publicações do Checamos (1, 2, 3), o uso de hidroxicloroquina e ivermectina, medicamento utilizado para tratar algumas infecções parasitárias, contra a covid-19 não teve eficácia comprovada em estudos científicos, apesar de ser, em alguns casos, administrados clinicamente.

A afirmação do enfermeiro Anthony Ferrari Penza no Facebook de que a vacina da Pfizer contra a covid-19 causa paralisia facial e choque anafilático é enganosa. Embora tenham sido registrados alguns casos de paralisia e de alergias graves no ensaio clínico, esse número ainda é considerado muito pequeno se comparado ao número total de doses já administradas, sem que seja possível até o momento atribuir com certeza esses casos às vacinas.

EDIT 22/12: corrige formatação do 22° parágrafo.
AFP Brasil
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