A Itália não encontrou a cura da COVID-19 e outras afirmações falsas de uma mensagem viral

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Uma mensagem compartilhada mais de 4 mil vezes desde 23 de maio de 2020 afirma  que a “Itália finalmente encontrou a cura para coronavírus” e que a COVID-19 “não é um vírus, mas uma bactéria amplificada com radiação eletromagnética 5G”. No texto também é afirmado que esse país usa uma mistura de aspirina e anti-inflamatório para curar a COVID-19, que, na realidade, é uma trombose, e não uma pneumonia, e que, por isso, “os respiradores nunca foram necessários”. Contudo, até o momento não foi descoberta uma cura para o coronavírus. Especialistas consultados pela AFP e organismos internacionais explicam que a mensagem contém afirmações falsas e sem embasamento científico.

“ÚLTIMA HORA. INTERNACIONAL ITÁLIA. NA ITÁLIA A CURA DO CORONAVIRUS É FINALMENTE ENCONTRADA [sic]. Assim começa a extensa mensagem que foi compartilhada no Facebook (1, 2, 3, 4) e no Twitter (1).

A informação também circulou amplamente em francês e espanhol.

Captura de tela feita em 10 de junho de 2020 de uma publicação no Facebook

A grande maioria destes conselhos, no entanto, se baseia em afirmações falsas, ou sem fundamento. Veja a seguir a verificação:

1- A Itália encontrou a cura para o coronavírus: FALSO

“Na Itália a cura do coronavirus é finalmente encontrada [sic]”

Esta afirmação foi desmentida pelo próprio Ministério da Saúde da Itália em um comunicado publicado em 29 de maio. Nele, afirma que “atualmente não existem terapias comprovadas contra a COVID-19. As terapias disponíveis atualmente continuam sendo baseadas no tratamento dos sintomas da doença, proporcionando terapias de apoio (por exemplo, terapia de oxigênio, manejo de líquidos) a pessoas infectadas”.

De acordo com a pasta, estão sendo realizados vários testes clínicos para o tratamento do coronavírus. “A Agência Italiana de Medicamentos (AIFA) fornece informações em seu site sobre os medicamentos para os quais houve aprovação e foram iniciados os testes, realizados sob estrita supervisão médica”, diz o comunicado.

Até a publicação deste artigo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que ainda não há “nenhum medicamento que demonstre prevenir, ou curar essa doença”.

2. O coronavírus nada mais é do que uma trombose: FALSO

“O chamado Covid-19, que nada mais é do que ‘Coagulação intravascular disseminada’ (trombose) [...] Esta notícia sensacional para o mundo foi produzida por médicos italianos, realizando autópsias em cadáveres produzidos pelo Covid-19 [sic]”.

É verdade que existe um estudo sobre necropsias de cadáveres de pessoas que morreram em decorrência da COVID-19 na Itália, especificamente nas cidades de Bergamo e Milão. Nele, é assinalado que foram observados trombos em pequenos vasos sanguíneos em 33 dos 38 pacientes analisados. Os autores concluíram que a COVID-19 está vinculada com “problemas de coagulação do sangue e com trombose”.

No entanto, o texto publicado em 22 de abril não exclui que a pneumonia seja parte das patologias da COVID-19. “No momento da hospitalização, todos os pacientes deram positivo e mostraram sinais clínicos e radiológicos de pneumonia”, indicam os resultados do estudo.

Também é importante assinalar que este estudo ainda está em etapa prévia a sua publicação, ou seja, que as hipóteses ainda não foram validadas por outros especialistas do mesmo campo, um passo imprescindível para verificar a validade e idoneidade de uma pesquisa científica.

À medida que a pandemia de COVID-19 tem avançado, os médicos foram descobrindo novos problemas provocados pela doença, além da questão pulmonar, como é o caso dos coágulos no sangue, que podem levar, inclusive, à amputação de membros.

Outros estudos realizados na França, Irlanda e Holanda, e que já foram revisados, também mostraram a presença de coágulos no sangue em pessoas que faleceram pela COVID-19. Nos três casos é advertido que é possível desenvolver as duas patologias, ou seja, pneumonia e coagulação do sangue.

A OMS também registrou que algumas das complicações associadas aos estados críticos de pacientes infectados pelo novo coronavírus podem ser a tromboembolia venosa, ou a coagulopatia.

Não obstante, o Journal of the American College of Cardiology indica que, por enquanto, os “dados disponíveis sobre o risco trombótico são bastante limitados”.

3. A forma de combater o coronavírus é com antibióticos, anti-inflamatórios e anticoagulantes: ENGANOSO

“A maneira de combatê-lo [o coronavírus], ou seja, sua cura, é com os ‘antibióticos, anti-inflamatórios e anticoagulantes’ [...] o Ministério da Saúde italiano mudou imediatamente os protocolos de tratamento Covid-19... e começou a administrar a seus pacientes positivos Aspirina 100mg e Apraxax [sic]”

A OMS indicou que “até o momento não foi comprovado que nenhum remédio pode curar, ou prevenir, a COVID-19”. Também afirma que “os antibióticos são eficazes contra as bactérias, mas não contra os vírus. Posto que o novo coronavírus (2019-nCoV) é um vírus, não devem ser usados antibióticos nem para prevenir nem para tratar a infecção”.

Nem o napronax (naproxeno) nem a aspirina aparecem na lista de medicamentos essenciais para o tratamento de pacientes com COVID-19 publicada em março de 2020 pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

O paracetamol (acetaminofeno), igualmente recomendado no texto viral, realmente está na lista da Opas, mas é recomendado para tratar a febre.

“O paracetamol tem ação antipirética e, portanto, é muito útil em caso de febre alta, mas não cura as novas infecções por coronavírus”, indica o site do Ministério italiano da Saúde. Um porta-voz da pasta também negou que o país europeu esteja usando aspirina e napronax. “É uma informação falsa”, disse à AFP em 6 de junho.

4. Os ventiladores nunca foram necessários: FALSO

“De acordo com patologistas italianos. ‘Os ventiladores e a unidade de terapia intensiva nunca foram necessários’”.

Segundo um artigo de 28 de abril do meio de comunicação especializado Indústria Italiana, o governo deste país ordenou a fabricação de 500 máquinas de ventilação por mês durante os quatro meses subsequentes.

De acordo com o guia da OMS sobre o tratamento clínico da infecção respiratória aguda (IRAG), “embora a maioria (81%) das pessoas com COVID-19 apresente quadros leves sem complicações […] aproximadamente 5% devem ser tratados em unidades de tratamento intensivo (UTI). Dos doentes críticos, a maior parte requer ventilação mecânica. O diagnóstico mais frequente nos pacientes com COVID-19 grave é a pneumonia grave”.

Atualmente existe um debate científico sobre os casos em que os pacientes devem ser entubados, um procedimento complicado para o corpo e longe de ser sistematicamente bem-sucedido.

Em 27 de abril de 2020, o Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos Estados Unidos publicou uma série de pautas sobre o tratamento de pacientes com dificuldades respiratórias pela COVID-19. De acordo com o documento, não existe uma estratégia única de ventilação para todos os pacientes, mas sim muitos cenários diferentes.

No entanto, adverte que embora “atualmente não existam estudos que abordem as estratégias de ventilação mecânica em pacientes com COVID-19 […] o painel de especialistas acredita que os pacientes com COVID-19 ventilados mecanicamente devem ser tratados de forma similar a outros pacientes com insuficiência respiratória aguda nas Unidades de Tratamento Intensivo”.

5. Os médicos italianos fizeram autópsias burlando uma lei da OMS: FALSO

“Os médicos italianos, desobedeceram a lei mundial da saúde da OMS, para não fazer autópsias nos mortos do Coronavírus”

A OMS não estabeleceu uma “lei de saúde mundial” que proíba realizar necropsias de pessoas que morreram por conta do novo coronavírus.

Essa organização tem um protocolo para a gestão segura de cadáveres infectados com a COVID-19 no qual explica quais medidas de proteção devem ser adotadas para realizá-las. “Se for selecionado para necropsia o cadáver de um paciente com COVID-19 suposta ou confirmada, os centros de atendimento médico devem garantir que foram adotadas as medidas de segurança para proteger quem realiza a necropsia”, assinala o documento, com data de 24 de março de 2020.

Países como Brasil, Equador, Colômbia e Costa Rica implementaram protocolos para realizar necropsias de pessoas que morreram em decorrência da COVID-19.

6. O coronavírus é uma bactéria: FALSO

O coronavírus “não é um vírus como eles nos fizeram acreditar, mas uma bactéria... amplificada com radiação eletromagnética 5G que também produz inflamação e hipóxia”.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, o Instituto Pasteur da França e o Ministério da Saúde da Itália, o novo coronavírus é um vírus respiratório e não uma bactéria.

“Os coronavírus são uma extensa família de vírus que podem causar doenças tanto em animais como em humanos. Nos humanos, sabe-se que vários coronavírus causam infecções respiratórias que podem ir desde o resfriado comum até doenças mais graves […] O coronavírus que foi descoberto recentemente causa a doença por coronavírus COVID-19”, apontou a OMS.

Essa organização não associa o vírus à radiação. De fato, também nega a afirmação de que as redes ou antenas 5G de telefonia móvel possam propagar o vírus.

“Os vírus não se deslocam pelas ondas eletromagnéticas nem pelas redes de telefonia móvel. A COVID-19 está se propagando em muitos países nos quais não existe uma rede 5G”, afirmou a OMS.

Em resumo, segundo especialistas e de acordo com informações de organismos mundiais de saúde, as afirmações que circulam em uma extensa mensagem nas redes sociais e que incluem versões sobre uma suposta cura do novo coronavírus encontrada pela Itália são falsas, ou não têm embasamento científico.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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