Estudo da cloroquina contra covid foi retirado em junho de 2020; mas outros atestam a sua ineficácia

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Publicações compartilhadas milhares de vezes em redes sociais desde o último dia 23 de janeiro afirmam que cientistas pediram desculpas por “estudo ter desqualificado” o uso da cloroquina contra a covid-19 e que “agora” o mundo reconhece os resultados positivos do medicamento. Isso não é verdade. Um estudo que apontava efeitos adversos associados ao uso de cloroquina ou hidroxicloroquina realmente foi retratado, mas em junho de 2020. No entanto, desde então, diversos outros artigos constataram a ineficácia do remédio contra o coronavírus.

“Cientistas pedem desculpas ao mundo, por estudo ter desqualificado o uso da Cloroquina no combate a pandemia. É só pedir desculpas e está tudo certo?”, diz o título de um artigo, cuja captura de tela foi compartilhada mais de 3.500 vezes no Facebook (1, 2, 3) e Instagram (1, 2, 3).

Na imagem que circula nas redes também é possível ler um subtítulo: “Incontáveis mortes poderiam ter sido evitadas com o uso da hidroxicloroquina, agora o mundo todo passa a afirmar os resultados positivos do medicamento. Todos que lutaram e bradaram contra, são os verdadeiros genocidas?”.

Captura de tela feita em 4 de fevereiro de 2021 de uma publicação no Facebook

Uma busca no Google pelo título do artigo localiza o texto original, publicado no site Tribuna Nacional em 22 de janeiro de 2021. O subtítulo visto na imagem viralizada não aparece no artigo em 8 de fevereiro, mas uma busca pelo trecho no Google leva à publicação do Tribuna Nacional, indicando que a matéria pode ter sido editada.

O artigo se refere a um estudo publicado na revista The Lancet que apontava um maior risco de morte associado ao uso de cloroquina ou hidroxicloroquina contra a covid-19 e que foi, efetivamente, retratado.

Isso ocorreu, contudo, em junho de 2020. Desde então, diversos outros estudos constaram: a cloroquina e seu derivado menos tóxico, a hidroxicloroquina, não são eficazes contra a covid-19.

Estudo retratado há meses

Em 22 de maio do ano passado, a revista científica The Lancet publicou um artigo que comparava a evolução de pacientes com covid-19 que foram tratados com cloroquina ou hidroxicloroquina com aqueles que não receberam nenhum destes dois remédios.

Para fazer a comparação, os autores do estudo utilizaram uma base de dados fornecida pela companhia Surgisphere, que supostamente coletou as informações de quase 100 mil pacientes, tratados em 671 hospitais espalhados por todos os continentes.

Após a análise, os autores não apenas não identificaram nenhum benefício no uso da hidroxicloroquina ou cloroquina contra a covid-19, como também constataram um aumento na mortalidade hospitalar e na ocorrência de arritmias cardíacas associado a esses dois remédios.

O resultado do estudo teve grande repercussão. Menos de uma semana após sua publicação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu temporariamente seu ensaio clínico com a hidroxicloroquina por questões de segurança, ação tomada também por outros pesquisadores.

Logo em seguida, no entanto, começaram a surgir dúvidas sobre a base de dados que fundamentou o estudo. O artigo levou em consideração, por exemplo, 600 casos de covid-19 confirmados na Austrália e 73 mortes registradas até 21 de abril. No entanto, dados da Johns Hopkins University mostravam apenas 67 óbitos em todo o país até a mesma data. 

Em 29 de maio, 120 cientistas enviaram uma carta aberta aos autores do estudo listando outras preocupações com a integridade da análise e pedindo que a companhia Surgisphere compartilhasse os dados utilizados como base para o artigo. 

Farmacêutico segura um frasco e uma pílula de hidroxicloroquina em Provo, Estados Unidos, em 20 de maio de 2020 (George Frey / AFP)

Em 5 de junho do mesmo ano, o periódico The Lancet abordou as preocupações levantadas pela comunidade científica e retirou o polêmico estudo.

“Após a publicação do nosso artigo na Lancet, várias preocupações foram levantadas com relação à veracidade dos dados e análises conduzidos pela Surgisphere Corporation. [...] Lançamos uma revisão por pares independente e terceirizada [...] para avaliar a origem dos elementos da base de dados, para confirmar a integridade do banco de dados e para replicar as análises apresentadas no artigo”, escreveram os autores do estudo.

Segundo informaram, no entanto, a companhia se recusou a transferir os dados completos alegando que isso violaria requisitos de confidencialidade. “Com base neste acontecimento, nós não podemos mais garantir a veracidade das fontes de dados primárias. Devido a este infeliz acontecimento, os autores solicitam que o artigo seja retratado”, comunicaram.

O problema com a base de dados aconteceu, contudo, meses atrás - e não recentemente como sugerem as postagens de janeiro deste ano. Além disso, não é verdade que, desde então, estudos comprovaram a eficácia dos remédios contra a covid-19.

Ineficácia comprovada por outros estudos

No mesmo dia em que o artigo da Lancet foi retirado, foram publicados os resultados de um ensaio clínico randomizado conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford, o Recovery Trial.

Após compararem a evolução de pacientes de covid-19 que receberam hidroxicloroquina com aqueles que receberam o tratamento usual, os cientistas concluíram que não houve diferença significativa na taxa de mortalidade ou evidência de redução no período de internação hospitalar.

“A hidroxicloroquina e a cloroquina têm recebido muita atenção e têm sido amplamente utilizadas para tratar pacientes de covid-19 apesar da ausência de qualquer boa evidência. O Recovery Trial mostrou que a hidroxicloroquina não é um tratamento eficaz para pacientes hospitalizados com covid-19. Embora seja decepcionante que esse tratamento tenha se mostrado ineficaz, isso nos permite dedicar os cuidados e a pesquisa a medicamentos mais promissores”, escreveu Peter Horby, pesquisador-chefe do estudo.

O ensaio clínico da OMS, que havia sido suspenso após a publicação do artigo da Lancet, foi retomado em 3 de junho. Apenas algumas semanas depois, no entanto, o estudo, conhecido como Solidarity Trial, também descartou a eficácia da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus.

“Em 17 de junho de 2020, a OMS anunciou que o braço de hidroxicloroquina do Solidarity Trial, para encontrar um tratamento eficaz contra a covid-19, estava sendo interrompido”, diz a organização em seu site.

A OMS explicou o motivo da decisão: “Dados do Solidarity [...] e os resultados recentemente anunciados do Recovery Trial do Reino Unido mostraram que a hidroxicloroquina não resulta na redução de mortalidade em pacientes hospitalizados com covid-19, quando comparado com o tratamento padrão”.

Desde então, diversos outros estudos chegaram a conclusões semelhantes. 

Uma química participa de um ensaio clínico em busca de um tratamento contra a covid-19 em Nantes, França, em 25 de janeiro de 2021 (Loic Venance / AFP)

Em 6 de agosto, um ensaio clínico duplo-cego randomizado - considerado o padrão de excelência para estudos deste tipo - foi publicado no The New England Journal of Medicine. Para o artigo, os autores acompanharam 821 adultos que haviam sido expostos ao novo coronavírus nos Estados Unidos e no Canadá.

Quatro dias após a exposição, alguns pacientes receberam a hidroxicloroquina e, outros, o placebo. Não houve diferença significativa na quantidade de pessoas que contraíram a doença entre os dois grupos. “Após alto risco ou risco moderado de exposição à covid-19, a hidroxicloroquina não preveniu doenças compatíveis com a covid-19 ou infecção confirmada quando usada como profilaxia pós-exposição”, concluíram os pesquisadores.

Em outubro de 2020, a hidroxicloroquina também não se mostrou capaz de reduzir substancialmente a gravidade de sintomas em pacientes ambulatoriais com covid-19 leve e inicial.

Em novembro, pesquisadores também avaliaram o efeito do uso da hidroxicloroquina quando utilizada antes da exposição à covid-19. Para isso, acompanharam pacientes com artrite reumatóide ou lúpus que utilizavam o medicamento antes da pandemia e aqueles que não o utilizavam. De maneira semelhante, não foi encontrada nenhuma diferença de mortalidade por covid-19 entre os dois grupos.

Medicamentos não são recomendados

Ao contrário do que dão a entender as publicações viralizadas, a cloroquina e a hidroxicloroquina continuam a não ser recomendadas como tratamento para a covid-19 por autoridades de saúde de todo o mundo.

Em seu site, a Agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) reitera que os dois medicamentos não se mostraram seguros e eficazes para tratar ou prevenir a covid-19.

De maneira semelhante, a Agência Europeia de Avaliação de Medicamentos (EMA) destaca que a hidroxicloroquina e a cloroquina não mostraram efeitos benéficos no tratamento da doença. Além disso, os medicamentos “podem causar alguns efeitos colaterais, incluindo problemas cardíacos”, diz a organização.

No Brasil, onde o próprio presidente Jair Bolsonaro é um aberto defensor desses remédios no combate à covid-19, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) continua a não recomendar “o uso indiscriminado desses medicamentos, sem a confirmação de que realmente funciona”.

Em resumo, são enganosas as publicações de janeiro de 2021 que afirmam que cientistas pediram desculpas por um estudo que desqualificou o uso da cloroquina contra a covid-19 e que posteriormente o mundo reconheceu os efeitos benéficos do medicamento. O estudo citado foi retirado em junho de 2020 mas, desde então, diversos outros constataram a ineficácia do remédio contra a covid-19.

AFP Brasil
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