Vista aérea após um deslizamento de terra causado por fortes chuvas em Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais, Brasil, em 26 de fevereiro de 2026 (AFP / Ivan PISARENKO)

Vídeos falsos de tragédia climática: contas exploram chuvas em Minas para monetizar vídeos gerados com IA

As fortes chuvas que atingiram os municípios mineiros de Juiz de Fora e Ubá causaram enchentes, deslizamentos de terra e deixaram ao menos 70 mortos no final de fevereiro de 2026. Em meio a cenas reais do temporal, supostos registros de casas sendo levadas pelas águas e aparentes relatos de moradores viralizaram nas redes, atingindo mais de 24 milhões de visualizações. Mas a AFP identificou que várias imagens foram geradas com inteligência artificial, como parte de uma estratégia que explorou a tragédia para monetizar contas e promover lojas virtuais no TikTok. 

“Tragédia em Minas ganha destaque internacional e acende alerta global”, diz texto sobreposto a um compilado de vídeos publicado no X, no Facebook, no Instagram e no TikTok que supostamente mostra a destruição causada pelas fortes chuvas.  

Outro conjunto de vídeos de fortes torrentes de água arrastando casas circula no Instagram, no YouTube, no TikTok e no Facebook com pedidos de oração para Juiz de Fora e Ubá. 

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Combinação com capturas de tela feitas em 27 de fevereiro de 2026 de publicações do TikTok. Símbolo de inteligência artificial (Ai) acrescentado pela AFP (.)

Os municípios da Zona da Mata, em Minas Gerais, registraram chuvas torrenciais históricas que levaram a deslizamentos de terra, enchentes e destruição de imóveis desde 23 de fevereiro.

As fortes chuvas deixaram mais de 70 mortos, além de mais de 8 mil desabrigados ou desalojados e dezenas de desaparecidos. 

No entanto, em meio à difusão de cenas reais de destruição, o Checamos identificou uma série de contas no TikTok que publicou imagens criadas com inteligência artificial (IA) visando a monetização e a promoção de lojas virtuais. Os conteúdos enganaram usuários e passaram a ser replicados como se fossem autênticos.  

Cenas falsas de destruição

Ao analisar uma das sequências virais que reúne diferentes cenas da força da água destruindo casas foi possível identificar a marca d’água de uma conta do TikTok chamada “caosclimático”. 

O perfil, agora deletado, havia publicado a mesma gravação em 8 de fevereiro e marcado o conteúdo como gerado por IA. Apesar disso, nos comentários, muitos usuários demonstraram acreditar que as imagens eram das chuvas em Minas. 

A busca reversa pela sequência viral levou a outra publicação com a gravação, feita no mesmo dia por uma conta em inglês dedicada a conteúdos criados com IA. Nessa versão do vídeo é possível ver a marca d’água do Invideo, plataforma de criação de conteúdos realistas com a tecnologia.  

Algumas inconsistências confirmam que o vídeo foi gerado artificialmente, como casas que se sobrepõem e o fluxo distorcido da água: 

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Combinação com capturas de tela feitas em 27 de fevereiro de 2026 de publicações do TikTok. Símbolo de inteligência artificial (Ai) acrescentado pela AFP (.)

Um outro compilado com supostos estragos foi amplamente compartilhado nas redes sociais.  

Mas elementos visuais indicam que ele também foi gerado com IA. Figuras de pessoas nessa gravação aparecem, por exemplo, com um dedo consideravelmente maior do que os demais e o fluxo da água aparece distorcido: 

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Combinação com capturas de tela feita em 3 de março de 2026 com detalhes assinalados pela AFP. Símbolo de inteligência artificial (Ai) acrescentado pela AFP (.)

Ambas as sequências foram submetidas à ferramenta Hive Moderation, que detecta conteúdos produzidos por IA, e foram apontadas com alta probabilidade de terem sido criadas digitalmente. 

O Checamos identificou ao menos outras três sequências diferentes produzidas por IA que supostamente mostram os estragos na Zona da Mata mineira (1, 2, 3). 

Um dos conteúdos alega mostrar a consequência do rompimento de uma barragem na região. 

Mas até a publicação desta checagem não há registros de episódio do tipo, embora uma barragem em Porteirinha, no interior do estado, tenha entrado em risco iminente de rompimento.

Falsos relatos e resgates 

Outro tipo de conteúdo viralizado explora o estrago deixado pelas chuvas históricas: supostos relatos de moradores das cidades atingidas.  

Em um vídeo publicado no TikTok, um suposto morador mostra a rua tomada pela água e se questiona: “até quando a gente vai ficar sofrendo isso?”. O conteúdo foi marcado como gerado por IA na plataforma, mas a legenda da publicação e o texto sobreposto ao vídeo dão a entender que as imagens seriam um registro real. 

O formato se replica em outra publicação em que um homem parece mostrar sua rua alagada e o desabamento de uma casa. 

Mas ambas as gravações possuem inconsistências visuais que indicam se tratar de um conteúdo criado digitalmente, como placas com escrito sem sentido e a falta de reação do homem com uma casa caindo bem ao seu lado, assim como a falta de destroços após o desabamento e as pessoas que permaneceram no imóvel mesmo com a queda. 

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Combinação com capturas de tela feita em 3 de março de 2026 com detalhes assinalados pela AFP. Símbolo de inteligência artificial (Ai) acrescentado pela AFP (.)

Também chama atenção o fato de que, nas duas sequências, o suposto morador pede que as pessoas compartilhem e curtam os vídeos, um indício de que o conteúdo foi criado com a intenção de gerar engajamento. 

Promoção de lojas virtuais 

O Checamos identificou ao menos quatro contas no TikTok (1, 2, 3, 4)  que compartilharam sistematicamente as sequências analisadas e outras criadas por IA no contexto das fortes chuvas. 

A difusão parece fazer parte de uma estratégia para aumentar o engajamento das contas e conseguir ganhos financeiros através do Programa de Recompensas do TikTok — que paga os criadores por visualizações atingidas. 

Apenas um dos vídeos publicados por uma das contas, por exemplo, atingiu mais de 1 milhão de visualizações em meio à comoção pela tragédia. 

Além disso, essas contas possuem outra característica em comum: a promoção de lojas virtuais. 

Alguns perfis divulgam na descrição de suas contas o mesmo link para um curso que ensina a criar influenciadores por IA. A promessa é de ganhos rápidos de 500 a 1000 reais por dia no TikTok Shop com vídeos desses influenciadores falsos. O custo de aquisição varia entre R$ 29,90 a R$ 59,90. 

Outros buscam monetizar seus conteúdos direto pelo TikTok Shop

Lançado no Brasil em maio de 2025, o TikTok Shop incorpora funções de compra à rede social. Um dos recursos disponíveis é a vitrine, que permite que usuários criem uma aba de produtos recomendados dentro dos seus perfis. Ao clicar no ícone de sacola indicado no canto superior das contas, os usuários são direcionados a uma espécie de loja virtual onde podem adquirir os produtos listados. 

Cada vez que um usuário adquire um dos itens através da vitrine de uma conta, o criador de conteúdo responsável ganha uma comissão para criadores de conteúdo que promovem produtos de terceiros, estratégia que parece ter sido utilizada por ao menos três das contas identificadas.

O Checamos já verificou outros conteúdos criados por IA que são utilizados para engajar vendas online (1, 2). 

Referências 

Há alguma informação que você gostaria que o serviço de checagem da AFP no Brasil verificasse?

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