Vídeos de perda de peso são manipulados com IA para vender “métodos” de emagrecimento
- Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 17:00
- 5 minutos de leitura
- Por AFP Brasil
Gravações de transformações corporais acumulam mais de 5,8 milhões de visualizações em páginas que promovem métodos e produtos de emagrecimento nas redes sociais desde dezembro de 2025. Mas os vídeos manipulam registros reais de pessoas comuns com inteligência artificial (IA) para alterar sua aparência e, assim, persuadir consumidores a investir dinheiro em métodos incapazes de entregar os resultados prometidos. Um especialista em desinformação nas redes sociais explicou à AFP que os conteúdos são parte de uma tendência crescente de fraudes que usam IA para vender resultados irreais.
“O que você vê nesse vídeo não é só um corpo diferente. É o resultado de constância, ajustes simples e uma mudança de mentalidade que aconteceu antes do espelho refletir qualquer coisa. Se quiser começar sua própria transformação com um método possível para a vida real, clique no link da bio”, diz uma das publicações que compartilham vídeos de perda de peso no Instagram.
Gravações semelhantes também circulam em outros idiomas, publicadas por perfis que promovem a venda de diferentes métodos e produtos para emagrecimento.
As sequências viralizadas mostram diferentes transformações. Em um primeiro trecho, uma pessoa — geralmente, uma mulher — mostra seu corpo antes de perder peso. Em seguida, exibe os resultados do processo de emagrecimento.
No entanto, os vídeos virais foram manipulados com inteligência artificial para mostrar transformações mais drásticas e persuadir usuários a comprar produtos.
Manipulações de transformações reais
Buscas reversas por fragmentos dos vídeos virais (1, 2) conduziram aos conteúdos originais (1, 2) publicados por pessoas comuns em seus perfis nas redes sociais. Algumas de fato registram processos de emagrecimento, enquanto outras apenas publicam vídeos de suas rotinas na internet.
Uma delas, que aparece em uma das gravações virais vestindo uma bermuda jeans e um sutiã preto, é Jillian, que mora no estado norte-americano da Carolina do Norte. Jill — como se nomeia em suas contas — publica regularmente vídeos sobre sua jornada pessoal de saúde e perda de peso.
Entretanto, as imagens disseminadas pelas publicações falsas manipulam digitalmente um vídeo postado por Jill em abril de 2025, mostrando uma mudança ainda mais drástica do que a originalmente registrada.
O AFP Checamos entrou em contato com Jillian para comentários, mas não obteve resposta até a data desta publicação.
Em outro caso, a aparência de um casal foi alterada no momento anterior à suposta transformação, exibindo-os falsamente acima do peso antes de contrastar a imagem com o conteúdo original, em que aparecem magros.
Na sequência verdadeira, publicada pela influenciadora digital Gabi Fuller no TikTok em 2023, ela e o noivo posam com diferentes roupas em frente a um armário espelhado, sem qualquer indicação de um processo de emagrecimento.
Contatado em 15 de janeiro de 2026, o empresário de Fuller afirmou que ela estava “ciente”, mas não desejava comentar sobre o assunto.
O Checamos submeteu os vídeos à ferramenta de detecção de IA Hive Moderation, que apontou em todos uma alta probabilidade de parte do conteúdo ter sido gerada com inteligência artificial.
"Efeitos modestos e variáveis"
Os perfis que publicam as gravações indicam, nas legendas, que os usuários que desejam atingir o mesmo resultado devem conferir os links presentes na descrição das contas, que, por sua vez, os encaminham a sites de vendas de métodos ou produtos para emagrecer, como probióticos.
As publicações em português direcionam os usuários a um método de emagrecimento de 21 dias, disponibilizado através da plataforma de vendas Hotmart, sob o custo de R$ 167,90 à vista ou em 12 parcelas de R$ 17,36.
O método em questão foi desenvolvido por uma nutricionista e é comercializado na Hotmart em um modelo de afiliados: ou seja, diversos perfis podem divulgar o produto e, dessa forma, ganhar comissões em cima de cada venda feita.
O Checamos entrou em contato com a nutricionista responsável e enviou o link de um dos perfis que divulgavam seu método usando IA para prometer resultados mais drásticos. Em resposta, a profissional afirmou que “não tem nenhuma relação com esse perfil” e que enviaria o link em questão à Hotmart para que o afiliado fosse identificado.
Ana Paula Geraldo, professora adjunta e pesquisadora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explicou à AFP em 20 de janeiro de 2026 que, apesar de mudanças de hábitos em um curto período de tempo poderem funcionar como um ponto de partida, “isoladamente não sustentam perdas de peso elevadas nem permitem afirmar que o emagrecimento ocorrido seja adequado para todos”.
Similarmente, o uso de probióticos pode exercer um papel complementar no processo de emagrecimento. Mas, segundo Geraldo, apesar de existirem estudos que sugerem que “cepas específicas [de microrganismos] estejam associadas a pequenas reduções de peso ou de gordura corporal”, a literatura científica “indica que esses efeitos são modestos, variáveis e dependentes de múltiplos fatores”.
A pesquisadora reforçou que a exposição a transformações irreais ou pouco contextualizadas “tende a criar expectativas que não consideram a fisiologia nem a grande variabilidade individual”, podendo gerar “sentimentos de frustração, culpa e percepção de falha pessoal”, “abandono precoce do tratamento” e intensificação da insatisfação corporal.
“Antes de iniciar qualquer intervenção, é fundamental que a pessoa passe por avaliação médica para compreender seu estado de saúde e possíveis riscos”, completou.
Tendência crescente de golpes
Bruno Mattos, coordenador de projetos no Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (Netlab) e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicou à AFP que a disseminação de ferramentas de inteligência artificial generativa cada vez mais precisas, baratas e acessíveis alimenta uma tendência crescente de golpes, fraudes e desinformação online.
“A inteligência artificial é o melhor jeito para se vender resultados irreais, principalmente quando estamos tratando de resultados estéticos”, afirmou.
Segundo Mattos, esse “novo artifício”, que teve início com a manipulação da imagem de celebridades, passou a mirar usuários comuns. “Agora também temos esquemas envolvendo pessoas que não fazem a menor ideia de que a sua imagem está sendo usada para aquele fim, pessoas que estão fora do holofote midiático, que têm suas fotos nas redes sociais usadas para esse tipo de situação”, detalhou.
A manipulação da confiança dos usuários e a promoção de supostos resultados tangíveis também acarreta em efeitos nocivos para a audiência. “A pessoa de verdade que está atrás da tela ainda vai ser lesada, vai perder dinheiro, vai insistir às vezes em tratamentos prolongados ou soluções que podem não levar a nada, e isso tem um custo emocional muito evidente também”, concluiu.
Referências
- Vídeos originais publicados nas redes sociais (1, 2, 3, 4)
- Perfil de Ana Paula Geraldo
- Perfil de Bruno Motta
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