
Médico promove alegações falsas sobre morte de crianças e eficácia da vacina contra a covid-19 no Brasil
- Publicado em 4 de abril de 2025 às 20:20
- 7 minutos de leitura
- Por AFP Brasil
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“Estou chocado com aplicação de multa para os pais que não vacinarem seus filhos contra COVID-19. Não tem um estudo sequer que mostre o benefício desse experimento de RNA mensageiro. Muito pelo contrário quanto mais passa o tempo mais aparecem evidências do seu malefício. Eu participei diretamente da pandemia. Nunca vi uma criança sadia morrer de COVID”, diz a publicação que circula no X, no Instagram e no Facebook.
O vídeo viral também foi compartilhado no Instagram pela deputada federal Bia Kicis (PL).

Na gravação viral, o médico Roberto Zeballos, que já difundiu alegações verificadas anteriormente pela AFP, diz estar “chocado” com a decisão que prevê multa para pais que não vacinarem seus filhos. “Primeiro, a criança nunca foi alvo, na Alemanha não morreu nenhuma criança de covid, aqui no Brasil é mínima a quantidade de crianças que morreram, mas a gente não sabe se foi de covid, porque as crianças saudáveis, eu vi, não tinha ninguém saudável que tinha problema com a covid”, afirma em um trecho do vídeo viral.
Em 18 de março de 2025, o STJ determinou que os pais que se recusarem a vacinar seus filhos contra a covid-19 estão sujeitos ao pagamento de uma multa prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A multa foi aplicada após os ministros analisarem o recurso de um casal contra a decisão da Justiça do Paraná, que determinou o pagamento da multa de três salários mínimos.
Os alvos da punição foram os pais de uma criança que, de acordo com o Ministério Público do Paraná, não foi vacinada contra a covid-19 mesmo após notificação do Conselho Tutelar. O entendimento unânime dos ministros levou em conta que a vacinação contra a covid-19 é recomendada em todo o país desde 2022 e que o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou constitucional a obrigatoriedade da imunização, desde que tenha sido incluída no Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Mas, ao contrário do que afirma o médico no vídeo em que critica a decisão do tribunal, crianças saudáveis morreram em decorrência da covid-19 no Brasil e estudos comprovam a eficácia das vacinas de RNA mensageiro (mRNA) contra a doença.
Mortes de crianças por covid-19 no Brasil
A equipe de checagem do Comprova, projeto de verificação colaborativo do qual o AFP Checamos faz parte, realizou buscas no portal do Ministério da Saúde por dados oficiais sobre a morte de crianças pela covid-19 no Brasil.
A pesquisa levou aos números do Boletim Epidemiológico nº162, de abril de 2024, o mais recente divulgado, que mostra que 10 das 19 crianças com menos de 1 ano que morreram por covid-19 de janeiro a abril daquele ano não tinham comorbidades.

Segundo o informe da semana 52 de 2024 de Vigilância das Síndromes Gripais, foram registradas, de janeiro a dezembro de 2024, 82 mortes por covid-19 entre crianças menores de 1 ano e 11 anos de idade, conforme mostra a tabela abaixo:

Já o informe mais recente, até a semana 12, de janeiro a março de 2025, mostra que, nas semanas 2 e 3, a proporção de mortes por covid-19 em crianças menores de 2 anos só foi menor do que na faixa etária acima de 65 anos.

Contatado pelo Comprova, o pediatra infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBI), Renato Kfouri, afirmou: “É um mito dizer que as crianças que têm quadro grave ou que morrem por covid-19 são crianças de risco”. Mencionando também os dados oficiais do governo, complementou: “São números oficiais do Ministério da Saúde e que justificam a inclusão da vacina no calendário infantil”.
Estudos comprovam eficácia das vacinas mRNA
Na postagem viral, Zeballos também alega que não existe “um estudo sequer que mostre o benefício desse experimento de RNA mensageiro”, em referência às vacinas que utilizam tecnologia de mRNA contra a covid-19, como a Comirnaty, da Pfizer. Mas isso também não procede.
Como consta no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as vacinas só são aprovadas após a análise de estudos que comprovem a qualidade, eficácia e segurança, conforme mostram os itens de fase 1, 2 e 3 no quadro abaixo:

Esse processo ocorreu antes da aprovação do imunizante Comirnaty para crianças de 5 a 11 anos, em 16 de dezembro de 2021, e de 6 meses a 4 anos, em 16 de setembro de 2022. No site da Anvisa (1, 2), informa-se que a vacina foi aprovada para essas faixas etárias após “uma análise técnica criteriosa de dados e estudos clínicos conduzidos pelo laboratório”. Os resultados dos estudos de fase 1, 2 e 3, que atestam a segurança e eficácia do imunizante, podem ser acessados no portal oficial do governo (1, 2).
Além disso, artigos científicos mostram a efetividade das vacinas em crianças após a aprovação de aplicação na população. É o caso de um relatório publicado no Jornal de Pediatria, que analisou dados obtidos no PubMed, do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria, entre janeiro de 2020 e novembro de 2022. Dentre as conclusões está a que o imunizante da Pfizer, por exemplo, demonstrou“significativa eficácia e segurança”.
Um estudo publicado em fevereiro de 2023 no The New England Journal of Medicine também concluiu que uma série primária de três doses da BNT162b2 (Pfizer/BioNTech) contra a covid-19 se mostrou “segura, imunogênica e eficaz em crianças de 6 meses a 4 anos”.
Uma revisão sistemática publicada na revista The Lancet Child & Adolescent Health em junho de 2023 revelou que em crianças de 5 a 11 anos as vacinas de mRNA provavelmente ofereceram boa proteção contra hospitalizações por covid-19 e se mostraram moderadamente efetivas contra a infecção pela variante ômicron.
De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, o monitoramento da aplicação da vacina em crianças após aprovação pela agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) mostra que elas são seguras e seus benefícios superam os riscos do agravamento da covid-19.
O AFP Checamos já verificou outras alegações sobre a covid-19.
Este texto faz parte do Projeto Comprova. Participaram jornalistas do Estadão Verifica. O material foi adaptado pelo AFP Checamos.
Referências
- Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde
- Informe de Vigilância das Síndromes Gripais da semana 52 de 2024
- Informe de Vigilância das Síndromes Gripais da semana 12 de 2025
- Perfil de Renato Kfouri
- Informações sobre o registro de vacinas contra a covid-19 no site da Anvisa
- Publicações no site da Anvisa sobre a aprovação da vacina da Pfizer (1, 2)
- Resultados dos estudos da fase 1, 2 e 3 no site da Anvisa (1, 2)
- Relatório publicado pelo Jornal de Pediatria
- Estudo publicado no The New England Journal of Medicine
- Revisão sistemática publicada na revista The Lancet Child & Adolescent Health