Médico promove alegações falsas sobre morte de crianças e eficácia da vacina contra a covid-19 no Brasil

  • Publicado em 4 de abril de 2025 às 20:20
  • 7 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil
A Terceira Turma do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) autorizou, em março de 2025, a aplicação de multa para pais que se recusarem a vacinar os filhos contra a covid-19. Após a decisão, um vídeo de um médico afirmando que “nenhuma criança saudável morreu por covid-19 no Brasil” e que nenhum estudo mostra o benefício “desse experimento de RNA mensageiro” foi visualizado mais de 900 mil vezes nas redes sociais. Mas essas análises são fundamentais para que a Anvisa aprove os imunizantes e dados do Ministério da Saúde mostram que crianças sem comorbidade morreram, sim, por covid-19 no país.

“Estou chocado com aplicação de multa para os pais que não vacinarem seus filhos contra COVID-19. Não tem um estudo sequer que mostre o benefício desse experimento de RNA mensageiro. Muito pelo contrário quanto mais passa o tempo mais aparecem evidências do seu malefício. Eu participei diretamente da pandemia. Nunca vi uma criança sadia morrer de COVID”, diz a publicação que circula no X, no Instagram e no Facebook.

O vídeo viral também foi compartilhado no Instagram pela deputada federal Bia Kicis (PL).

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Captura de tela feita em 2 de abril de 2025 de uma publicação no X (.)

Na gravação viral, o médico Roberto Zeballos, que já difundiu alegações verificadas anteriormente pela AFP, diz estar “chocado” com a decisão que prevê multa para pais que não vacinarem seus filhos. “Primeiro, a criança nunca foi alvo, na Alemanha não morreu nenhuma criança de covid, aqui no Brasil é mínima a quantidade de crianças que morreram, mas a gente não sabe se foi de covid, porque as crianças saudáveis, eu vi, não tinha ninguém saudável que tinha problema com a covid”, afirma em um trecho do vídeo viral.

Em 18 de março de 2025, o STJ determinou que os pais que se recusarem a vacinar seus filhos contra a covid-19 estão sujeitos ao pagamento de uma multa prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A multa foi aplicada após os ministros analisarem o recurso de um casal contra a decisão da Justiça do Paraná, que determinou o pagamento da multa de três salários mínimos.

Os alvos da punição foram os pais de uma criança que, de acordo com o Ministério Público do Paraná, não foi vacinada contra a covid-19 mesmo após notificação do Conselho Tutelar. O entendimento unânime dos ministros levou em conta que a vacinação contra a covid-19 é recomendada em todo o país desde 2022 e que o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou constitucional a obrigatoriedade da imunização, desde que tenha sido incluída no Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Mas, ao contrário do que afirma o médico no vídeo em que critica a decisão do tribunal, crianças saudáveis morreram em decorrência da covid-19 no Brasil e estudos comprovam a eficácia das vacinas de RNA mensageiro (mRNA) contra a doença.

Mortes de crianças por covid-19 no Brasil

A equipe de checagem do Comprova, projeto de verificação colaborativo do qual o AFP Checamos faz parte, realizou buscas no portal do Ministério da Saúde por dados oficiais sobre a morte de crianças pela covid-19 no Brasil. 

A pesquisa levou aos números do Boletim Epidemiológico nº162, de abril de 2024, o mais recente divulgado, que mostra que 10 das 19 crianças com menos de 1 ano que morreram por covid-19 de janeiro a abril daquele ano não tinham comorbidades. 

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Captura de tela feita em 31 de março de 2025 do Boletim Epidemiológico nº 162 no site do Ministério da Saúde (.)

Segundo o informe da semana 52 de 2024 de Vigilância das Síndromes Gripais, foram registradas, de janeiro a dezembro de 2024, 82 mortes por covid-19 entre crianças menores de 1 ano e 11 anos de idade, conforme mostra a tabela abaixo:

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Captura de tela feita em 31 de março de 2025 do informe da semana 52 de 2024 no site do Ministério da Saúde (.)

Já o informe mais recente, até a semana 12, de janeiro a março de 2025, mostra que, nas semanas 2 e 3, a proporção de mortes por covid-19 em crianças menores de 2 anos só foi menor do que na faixa etária acima de 65 anos. 

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Captura de tela feita em 31 de março de 2025 do informe da semana 12, de janeiro a março de 2025, no site do Ministério da Saúde (.)

Contatado pelo Comprova, o pediatra infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBI), Renato Kfouri, afirmou: “É um mito dizer que as crianças que têm quadro grave ou que morrem por covid-19 são crianças de risco”. Mencionando também os dados oficiais do governo, complementou: “São números oficiais do Ministério da Saúde e que justificam a inclusão da vacina no calendário infantil”.

Estudos comprovam eficácia das vacinas mRNA

Na postagem viral, Zeballos também alega que não existe “um estudo sequer que mostre o benefício desse experimento de RNA mensageiro”, em referência às vacinas que utilizam tecnologia de mRNA contra a covid-19, como a Comirnaty, da Pfizer. Mas isso também não procede. 

Como consta no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as vacinas só são aprovadas após a análise de estudos que comprovem a qualidade, eficácia e segurança, conforme mostram os itens de fase 1, 2 e 3 no quadro abaixo:

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Captura de tela feita em 31 de março de 2025 da tabela com as etapas do registro de vacinas no site da Anvisa (.)

Esse processo ocorreu antes da aprovação do imunizante Comirnaty para crianças de 5 a 11 anos, em 16 de dezembro de 2021, e de 6 meses a 4 anos, em 16 de setembro de 2022. No site da Anvisa (1, 2), informa-se que a vacina foi aprovada para essas faixas etárias após “uma análise técnica criteriosa de dados e estudos clínicos conduzidos pelo laboratório”. Os resultados dos estudos de fase 1, 2 e 3, que atestam a segurança e eficácia do imunizante, podem ser acessados no portal oficial do governo (1, 2).

Além disso, artigos científicos mostram a efetividade das vacinas em crianças após a aprovação de aplicação na população. É o caso de um relatório publicado no Jornal de Pediatria, que analisou dados obtidos no PubMed, do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria, entre janeiro de 2020 e novembro de 2022. Dentre as conclusões está a que o imunizante da Pfizer, por exemplo, demonstrou“significativa eficácia e segurança”.

Um estudo publicado em fevereiro de 2023 no The New England Journal of Medicine também concluiu que uma série primária de três doses da BNT162b2 (Pfizer/BioNTech) contra a covid-19 se mostrou “segura, imunogênica e eficaz em crianças de 6 meses a 4 anos”.

Uma revisão sistemática publicada na revista The Lancet Child & Adolescent Health em junho de 2023 revelou que em crianças de 5 a 11 anos as vacinas de mRNA provavelmente ofereceram boa proteção contra hospitalizações por covid-19 e se mostraram moderadamente efetivas contra a infecção pela variante ômicron. 

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, o monitoramento da aplicação da vacina em crianças após aprovação pela agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) mostra que elas são seguras e seus benefícios superam os riscos do agravamento da covid-19.

O AFP Checamos já verificou outras alegações sobre a covid-19.

Este texto faz parte do Projeto Comprova. Participaram jornalistas do Estadão Verifica. O material foi adaptado pelo AFP Checamos.

Referências

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