
Documento divulgado em 2000 não mostra uma carta do filho de Kennedy chamando Biden de “traidor”
- Publicado em 4 de abril de 2025 às 21:04
- 3 minutos de leitura
- Por Bill MCCARTHY, AFP Estados Unidos
- Tradução e adaptação AFP México , AFP Brasil
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“JFK Jr. alertou que Joe Biden era um traidor dos EUA antes de ser morto”, é a legenda de uma publicação no X. Alegação semelhante é compartilhada no Facebook e no Instagram.
O conteúdo também circula em inglês, francês e espanhol.

Em 17 de março de 2025, Trump anunciou a retirada de sigilo dos arquivos governamentais restantes em posse do governo norte-americano sobre o assassinato do ex-presidente John F. Kennedy, em 1963.
Os documentos estão disponíveis nos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos.
No entanto, a imagem que circula nas redes sociais não tem relação com essa retirada de sigilo.
O documento compartilhado junto às postagens virais mostra o selo do FBI (a polícia federal norte-americana) e exibe uma carta datada de 8 de setembro de 1994, enviada ao então senador Joe Biden, que começa: “Estimado senador Biden: você é um traidor… ”. A nota tem como assinatura o nome “John F. Kennedy Jr.”.
O filho de Kennedy faleceu em 1999 quando o avião que pilotava caiu no Oceano Atlântico.
Seguidores da teoria da conspiração QAnon afirmam que ele ainda está vivo e apoiando o trabalho de Trump.
Steven Gillon, professor de História na Universidade de Oklahoma e autor de uma biografia de Kennedy Jr., afirmou que o arquivo “é absolutamente uma farsa”, acrescentando que “John nunca escreveu essa carta. Mas isso não impede que os conspiracionistas a manipulem para minar a credibilidade de Biden”.
Arquivo fora de contexto
As publicações virais sugerem que o documento faz parte dos arquivos cujo sigilo foi retirado em março de 2025, mas, na realidade, o arquivo foi tornado público em 2000 após uma solicitação feita pela agência de notícias norte-americana Associated Press (AP) com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA, na sigla em inglês) .
O documento faz parte de uma coleção de mais de 25 páginas que detalham uma ameaça de morte contra Biden, que é descrito como “vítima”, ocorrida em 1994. O relatório indica que naquele ano o político recebeu uma carta com selos do estado de Massachusetts e assinada por “John F. Kennedy Jr.”, na qual estava escrito: “Você deve morrer”.
O FBI investigou o caso, coletou impressões digitais e outras evidências. No entanto, a investigação foi encerrada depois de alguns meses e sem que nenhum suspeito fosse identificado. O relatório se refere ao documento como um “arquivo de cartas anônimas” e usa o termo “unsub”, abreviação empregada pelas autoridades de segurança para se referir a um “sujeito desconhecido”.
Gillon observou que a carta também estava incluída em um lote de outros materiais do FBI que obteve por meio de uma solicitação via FOIA em 2017, a maioria dos quais estava relacionado a tentativas de assassinato contra o filho do ex-presidente Kennedy.
“Aparentemente, alguém se passando por John escreveu aquela nota”, disse o historiador à AFP em um e-mail em 25 de março de 2025. “John nunca chamou Biden de traidor”, acrescentou.
“A carta tem tanta credibilidade quanto as alegações de que John iria ressuscitar e seria o companheiro de chapa de Trump”, disse, referindo-se às crenças de alguns seguidores da teoria QAnon.
Gillon considerou que o engano poderia ter sido planejado para minar Kennedy, “envolvendo-o no mundo da política partidária, algo que ele evitava assiduamente”.
O mesmo documento circula, pelo menos, desde 2020, sendo vinculado a conteúdos falsos sobre o ex-presidente Biden.