Documento divulgado em 2000 não mostra uma carta do filho de Kennedy chamando Biden de “traidor”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, em março de 2025, que milhares de documentos sobre o assassinato do ex-presidente John F. Kennedy (1961-1963) perderam o sigilo. Nesse contexto, desde o dia 18 do mesmo mês tem sido compartilhada dezenas de vezes nas redes sociais uma suposta carta escrita pelo filho de Kennedy, falecido em 1999, na qual ele acusa o ex-presidente Joe Biden de ser um “traidor”. No entanto, o arquivo, disponível publicamente desde 2000, se refere a uma ameaça de morte contra Biden em 1994, investigada pelo FBI, que classificou o autor como anônimo.

“JFK Jr. alertou que Joe Biden era um traidor dos EUA antes de ser morto”, é a legenda de uma publicação no X. Alegação semelhante é compartilhada no Facebook e no Instagram

O conteúdo também circula em inglês, francês e espanhol.

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Captura de tela feita em 31 de março de 2025 de uma publicação no X (.)

Em 17 de março de 2025, Trump anunciou a retirada de sigilo dos arquivos governamentais restantes em posse do governo norte-americano sobre o assassinato do ex-presidente John F. Kennedy, em 1963. 

Os documentos estão disponíveis nos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos. 

No entanto, a imagem que circula nas redes sociais não tem relação com essa retirada de sigilo. 

O documento compartilhado junto às postagens virais mostra o selo do FBI (a polícia federal norte-americana) e exibe uma carta datada de 8 de setembro de 1994, enviada ao então senador Joe Biden, que começa: “Estimado senador Biden: você é um traidor… ”. A nota tem como assinatura o nome “John F. Kennedy Jr.”.

O filho de Kennedy faleceu em 1999 quando o avião que pilotava caiu no Oceano Atlântico. 

Seguidores da teoria da conspiração QAnon afirmam que ele ainda está vivo e apoiando o trabalho de Trump. 

Steven Gillon, professor de História na Universidade de Oklahoma e autor de uma biografia de Kennedy Jr., afirmou que o arquivo “é absolutamente uma farsa”, acrescentando que “John nunca escreveu essa carta. Mas isso não impede que os conspiracionistas a manipulem para minar a credibilidade de Biden”.

Arquivo fora de contexto

As publicações virais sugerem que o documento faz parte dos arquivos cujo sigilo foi retirado em março de 2025, mas, na realidade, o arquivo foi tornado público em 2000 após uma solicitação feita pela agência de notícias norte-americana Associated Press (AP) com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA, na sigla em inglês) .

O documento faz parte de uma coleção de mais de 25 páginas que detalham uma ameaça de morte contra Biden, que é descrito como “vítima”, ocorrida em 1994. O relatório indica que naquele ano o político recebeu uma carta com selos do estado de Massachusetts e assinada por “John F. Kennedy Jr.”, na qual estava escrito: “Você deve morrer”.

O FBI investigou o caso, coletou impressões digitais e outras evidências. No entanto, a investigação foi encerrada depois de alguns meses e sem que nenhum suspeito fosse identificado. O relatório se refere ao documento como um “arquivo de cartas anônimas” e usa o termo “unsub”, abreviação empregada pelas autoridades de segurança para se referir a um “sujeito desconhecido”

Gillon observou que a carta também estava incluída em um lote de outros materiais do FBI que obteve por meio de uma solicitação via FOIA em 2017, a maioria dos quais estava relacionado a tentativas de assassinato contra o filho do ex-presidente Kennedy. 

“Aparentemente, alguém se passando por John escreveu aquela nota”, disse o historiador à AFP em um e-mail em 25 de março de 2025. “John nunca chamou Biden de traidor”, acrescentou. 

“A carta tem tanta credibilidade quanto as alegações de que John iria ressuscitar e seria o companheiro de chapa de Trump”, disse, referindo-se às crenças de alguns seguidores da teoria QAnon.

Gillon considerou que o engano poderia ter sido planejado para minar Kennedy, “envolvendo-o no mundo da política partidária, algo que ele evitava assiduamente”.

O mesmo documento circula, pelo menos, desde 2020, sendo vinculado a conteúdos falsos sobre o ex-presidente Biden. 

Referências

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