
Fotos de “pirâmide” em sítio arqueológico na Indonésia foram criadas com inteligência artificial
- Publicado em 3 de abril de 2025 às 22:38
- 4 minutos de leitura
- Por Tommy WANG, Pasika KHERNAMNUOY, AFP Hong Kong, AFP Tailândia, AFP Indonésia
- Tradução e adaptação AFP Brasil
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“Gunung Padang: A pirâmide mais antiga do mundo escondida no subsolo”, afirmam publicações no Facebook e no Instagram, citando supostas escavações arqueológicas que teriam descoberto camadas subterrâneas nas ruínas que poderiam "reescrever a história da humanidade".
As publicações compartilham diferentes imagens (1, 2, 3) das supostas descobertas e acrescentam: “E se a pirâmide mais antiga do mundo não fosse no Egito, mas na Indonésia? Gunung Padang, um local misterioso em Java Ocidental, pode ser exatamente isso. Embora pareça como uma simples colina coberta de vegetação densa, sob a sua superfície encontra-se uma enorme estrutura antiga”.

Publicações com alegações semelhantes também circulam em inglês, chinês, tailandês e indonésio.
Terraços de pedra
Diversos especialistas disseram à AFP que é impreciso caracterizar Gunung Padang como uma pirâmide.
Lutfi Yondri, um arqueólogo da Universidade de Padjadjaran que já fez diversas escavações em Gunung Padang desde 1997, disse à AFP em 20 de março de 2025 que a única estrutura que permanece no local é um “complexo de terraços de pedra”.
O especialista ainda afirmou que a datação por carbono mostra que os terraços foram construídos por volta de 117 a 45 a.C. e estão no topo de colunas rochosas formadas por um processo geológico natural.
Truman Simanjuntak, do Centro de Estudos de Pré-História e dos Austronésios, disse que Gunung Padang “não tem absolutamente nada a ver” com pirâmides.
“Afirmar que há câmaras feitas pelo homem dentro das colinas é uma alucinação”, afirmou em 20 de março de 2025. “Vamos pensar racionalmente e falar sobre dados”.
Um estudo, publicado em 2023 no periódico Archaeological Prospection, que descreveu Gunung Padang como uma “pirâmide pré-histórica” foi retratado depois que especialistas em geofísica, arqueologia e datação por radiocarbono levantaram preocupações quanto à precisão da pesquisa.
'Fisicamente implausível'
Além disso, as imagens que circulam nas redes sociais não se assemelham ao local real, como mostra uma foto da AFP feita em julho de 2011.

O diretor do Media Forensics Lab da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, Siwei Lyu, disse que uma análise das imagens compartilhadas em diferentes idiomas mostrou uma “possibilidade próxima de 100%” de que elas tenham sido geradas por IA.
Ele observou que uma das imagens , por exemplo, viola a geometria da perspectiva, onde quatro linhas que deveriam ser paralelas no mundo real não se cruzam. “Esse é um sinal revelador de sua natureza gerada por IA”, disse Lyu.

Já o diretor do Laboratório de Aprendizado de Máquina e Perícia de Mídia (M2) da Universidade Purdue, Shu Hu, afirmou que as sombras vistas em outras das imagens são "fisicamente implausíveis em um cenário real", pois as luzes apontam em direções diferentes.

Não existe um método infalível para detectar mídias geradas por IA, mas identificar inconsistências visuais pode ajudar, pois erros ainda ocorrem apesar do progresso meteórico na IA generativa.
Referências
Retratação feita pelo periódico Archaeological Prospection sobre estudo retirado