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Publicações espalham desinformação sobre ovos, coágulos sanguíneos e vacinas anticovid
- Este artigo tem mais de um ano
- Publicado em 31 de janeiro de 2023 às 23:20
- Atualizado em 31 de janeiro de 2023 às 23:23
- 4 minutos de leitura
- Por Manon JACOB, AFP Estados Unidos, AFP Brasil
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“Cientistas alertam que os ovos estão causando coágulos sanguíneos "repentinos" em milhares de pessoas”, diz mensagem que circula no Telegram e no Twitter, acompanhada de um artigo publicado em inglês no site NewsPunch, em 24 de janeiro de 2023. A alegação também é compartilhada no Facebook.
O artigo, que cita um estudo da Cleveland Clinic, afirma: "No que parece ser outro exemplo da elite global tentando distrair o público da verdadeira causa do aumento de problemas cardíacos desde o lançamento da vacina, os cientistas agora querem que acreditem que um nutriente encontrado nos ovos aumenta o risco de coagulação do sangue."
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O apresentador norte-americano Joe Rogan e a osteopata norte-americana Sherri Tenpenny, que já promoveram desinformação sobre vacinas, também repercutiram a alegação no Facebook e no Twitter, onde ganharam centenas de milhares de visualizações.
As postagens ocorrem em meio a uma onda de alegações não comprovadas de que profissionais de saúde estariam tentando encobrir os perigos das vacinas contra a covid-19, que as autoridades de saúde confirmam que são seguras e eficazes na prevenção de doenças graves e morte.
O NewsPunch, que já foi verificado pela AFP, cita como evidência uma reportagem do Daily Express, um jornal britânico. O texto do Express, publicado em 22 de janeiro e atualizado posteriormente, diz que o estudo da Cleveland Clinic descobriu que um composto "encontrado em ovos" está associado a um risco aumentado de coagulação sanguínea.
Mas o artigo do NewsPunch não apresenta com precisão as descobertas do centro acadêmico de Medicina.
"A pesquisa não mostrou uma ligação direta entre o consumo de ovos e a 'formação repentina de coágulos sanguíneos'", disse a Cleveland Clinic à AFP em um comunicado de 27 de janeiro.
Estudo foca em suplementos
O artigo de 2017 focava na colina, um nutriente encontrado nos ovos.
A Cleveland Clinic disse que o trabalho de seus pesquisadores “mostrou que tomar colina suplementar em uma cápsula, um suplemento bastante comum, aumentou os níveis de TMAO”, um composto produzido por bactérias intestinais. Isso pode representar "um fator de risco para eventos trombóticos, como ataque cardíaco e derrame", disse à AFP.
No entanto, os mesmos cientistas publicaram outro estudo em 2021 que verificou que "o consumo de ovos não demonstrou elevação de TMAO ou resposta plaquetária aprimorada em voluntários saudáveis".
Martha Gulati, diretora de cardiologia preventiva do Smidt Heart Institute no Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles, disse à AFP que "comer ovos definitivamente não causa a coagulação do sangue".
Ela explicou que a colina "está em muitos alimentos diferentes, incluindo ovos, mas quando as pessoas tomam suplementos, geralmente tomam altas doses que não são a quantidade dos alimentos".
Vacinas são seguras
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos afirmam em seu site que reações graves após a vacinação contra a covid-19 são raras. A Agência de Medicamentos e Alimentos dos EUA (FDA) recomenda a vacinação para crianças e adultos.
As autoridades de saúde norte-americanas estão monitorando alguns raros “eventos adversos de interesse” relatados após a vacinação contra a covid-19 – incluindo trombose com síndrome de trombocitopenia, que causa a coagulação do sangue.
A condição ocorreu em aproximadamente quatro casos por um milhão de doses da vacina contra covid-19 da Johnson and Johnson. O CDC tem recomendado injeções da Pfizer e Moderna em vez de Johnson e Johnson.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também monitora a segurança das vacinas aprovadas no Brasil e oferece o sistema VigiMed, no qual profissionais de saúde e cidadãos podem registrar suspeitas de eventos adversos.
A Anvisa disponibiliza para consulta online as bulas das vacinas anticovid. Entre as vacinas liberadas no Brasil, apenas Fiocruz/Astrazeneca e Janssen registraram casos raros (1 em 100.000) e muito raros (1 em 1.000 vacinados) de surgimento coágulos sanguíneos.
A vacinação contra a covid-19 de adultos e crianças também é recomendada pelo Conselho Nacional de Saúde.
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