Uma trabalhadora da área de saúde posa com uma seringa contendo uma dose de vacina contra covid-19 no Rio de Janeiro, em 18 de janeiro de 2022 ( AFP / Carl De Souza)

Imagem engana ao listar efeitos colaterais da covid-19 como se fossem causados pela proteína spike

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Uma lista com 48 efeitos colaterais mais comuns que seriam causados pela proteína spike do SARS-CoV-2, utilizada para geração de proteção contra a covid-19 pelas vacinas de RNA mensageiro, foi compartilhada mais de 400 vezes nas redes sociais desde, pelo menos, fevereiro de 2022. Mas os sintomas presentes na lista estão associados à infecção pelo coronavírus, não à vacinação ou à proteína spike isoladamente, explicaram especialistas à AFP.

“Acorda povo. Efeitos colaterais possíveis pós vacina”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2) e no Twitter.

Captura de tela feia em 10 de março de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

A proteína spike ou proteína “S” é uma das proteínas do SARS-CoV-2, causador da covid-19, e está associada à capacidade do vírus de infectar as células humanas. Vacinas de RNA mensageiro (mRNA), como as da Pfizer e da Moderna, ensinam o organismo a produzir essa proteína, que o sistema imunológico aprende a reconhecer e a neutralizar. Dessa forma, caso o indivíduo vacinado seja infectado pelo novo coronavírus, seu organismo já saberá como combatê-lo, como explica a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

As publicações virais são acompanhadas de uma imagem na qual se lê o título “48 efeitos colaterais mais comuns causados pela proteína spike”, com a palavra “spike” riscada. No centro, há a figura de um corpo humano e, nas laterais, a lista dos supostos efeitos colaterais que incluem desde dor de cabeça a redução da capacidade pulmonar e falência renal, dentre outros.

A imagem viral é creditada ao médico José Roberto Melo, identificado também com seu respectivo registro profissional, conhecido como CRM, e MG (Minas Gerais). Abaixo da figura do corpo humano, há, ainda, o código “DOI:10.1101/2021.01.27.21250617”.

Uma pesquisa pelo nome e pelo CRM contido nas imagens levou a reportagens sobre uma investigação do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG) à conduta do profissional, que teria recomendado a adoção do chamado “tratamento precoce”, cuja eficácia não foi comprovada contra a covid-19 (1, 2).

No momento da publicação deste artigo, o nome de usuário no Instagram indicado nas publicações viralizadas, @drjoserobertomelo, estava indisponível.

Já uma busca pelo DOI (Identificador de Objeto Digital, em português) contido na imagem trouxe como resultado um artigo preprint - ou seja, que ainda não foi revisado por pares - a respeito dos efeitos de longo prazo da covid-19, também conhecidos como “covid longa”. Em nenhum momento do artigo é mencionada a proteína spike.

Na página 10 desse texto, há uma imagem semelhante à viralizada. No entanto, diferentemente da que aparece nas publicações, a figura é intitulada “Efeitos de longo prazo da covid-19”, em tradução livre do inglês, e não os relaciona com a proteína spike ou com vacinas.

Captura de tela feita em 10 de março de 2022 de um artigo preprint sobre os efeitos a longo prazo da covid-19 ( . / )

A proteína spike e as vacinas

Lorena Chaves, virologista e pesquisadora da Emory University, Estados Unidos, disse ao Checamos em 10 de março de 2022 que as alegações vistas nas publicações virais “não têm fundamento nenhum”, já que a proteína spike isoladamente não é patogênica, ou seja, não pode causar doenças em um indivíduo.

“Hoje, sabemos que o uso dessa proteína na produção de vacinas é uma técnica segura e eficiente. Os efeitos colaterais relacionados a essas vacinas (quando acontecem) não têm a ver com a proteína spike em si, mas (geralmente) com o processo individual de resposta imunológica após imunização”, continuou.

A pesquisadora também reforçou o fato de as outras proteínas encontradas no vírus não estarem presentes nas vacinas, e, por isso, não existir a possibilidade de uma infecção.

Juarez Cunha, presidente da SBIm, ressaltou ao Checamos que a lista viralizada utiliza como referência um artigo a respeito da chamada “covid longa”:

De acordo com Fernando Spilki, virologista da Universidade Feevale e coordenador da Rede Corona-ômica.BR-MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) para sequenciamento do SARS-CoV-2 no Brasil, uma relação entre a proteína spike e determinados sintomas seria possível no campo teórico, mas não necessariamente na prática.

“Alguns estudos realmente nem têm dados in vivo para poder dizer que há uma relação exata, mas o estudo da estrutura [do vírus] no computador denotaria a possibilidade de haver aquilo que a gente chama de domínios ou de determinados fragmentos da proteína que pudessem levar a uma relação com esse ou aquele sintoma. Mas nem tudo isso é comprovado na prática”, assinalou à AFP.

Outro ponto relevante, segundo o doutor em química e pesquisador da Fiocruz Pernambuco Roberto Lins, é o fato de que a proteína spike produzida no organismo humano por meio da vacinação apresenta um comportamento diferente da proteína viral, já que aquelas produzidas pelos imunizantes seriam versões “otimizadas” para fornecer mais proteção:

“As proteínas são moléculas flexíveis, isto é, podem adotar diferentes conformações/estruturas. Há uma conformação específica da proteína spike na qual o vírus SARS-CoV-2 utiliza para infectar as células. Apenas anticorpos específicos contra essa conformação serão capazes de impedir que o vírus entre nas células”, disse. “Além disso, existem várias cepas do vírus circulando. Os cientistas conhecem todos esses detalhes. Desta forma, a proteína spike codificada pelas vacinas é uma versão otimizada para que o nosso sistema imunológico produza uma resposta específica e eficaz contra o vírus.”

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os efeitos colaterais das vacinas contra a covid-19 têm sido leves a moderados e não costumam durar mais do que alguns dias. As manifestações mais comuns incluem dor no local da injeção, febre, fadiga, dor de cabeça, dor muscular, calafrios e diarreia. Reações alérgicas graves, como anafilaxia, foram associadas aos imunizantes em casos “extremamente” raros.

A vacina da Pfizer, que utiliza a técnica de RNA mensageiro e está sendo aplicada no Brasil, traz em sua bula a descrição de reações adversas mais comuns e mais raras. Os possíveis eventos adversos não incluem, por exemplo, redução da capacidade pulmonar, falência renal ou diabetes, como descrevem as publicações virais. 

Desde o início das campanhas de vacinação, a proteína spike ou “S” tem sido apontada como "tóxica” e “perigosa” em peças de desinformação já verificadas pela AFP (1, 2, 3).

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