O pavilhão esportivo Portimão Arena, convertido em um hospital de campanha em Portimão, Portugal, em 9 de fevereiro de 2021 ( AFP / Patricia De Melo Moreira)

Declarações de médico português sobre vacinados hospitalizados foram tiradas de contexto

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Um trecho da transmissão de um jornal de Portugal no qual se garante que a maioria dos internados com covid-19 no país é de pessoas que já receberam duas ou três doses da vacina foi compartilhado milhares de vezes nas redes desde meados de janeiro de 2022. A fonte da informação é creditada ao diretor do Serviço de Infectologia de um hospital de Coimbra. No entanto, o médico garantiu à AFP que suas declarações foram tiradas do contexto. Na gravação original, ele se referia apenas a dados do centro onde trabalha. Especialistas apontaram que, pelas estatísticas, é lógico que, graças ao andamento das campanhas de vacinação, lideradas por Portugal na Europa, haja mais pacientes internados com ciclo completo do que pessoas sem vacinação.

“Vejam ! Em Portugal, maioria das pessoas internadas com covid tomaram duas ou três doses da picada !”, diz a legenda de uma publicação compartilhada no Twitter (1, 2, 3) com a peça audiovisual de 32 segundos.

Conteúdo similar circulou no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2), e também em espanhol.

Captura de tela feita em 14 de fevereiro de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

A apresentadora que aparece na sequência afirma: “A maioria dos internamentos por covid-19 em Portugal diz respeito a pessoas com vacinação completa e algumas já com dose de reforço”.

“A informação foi prestada pelo diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, que avisa que a pressão sobre os hospitais portugueses está aumentando há duas semanas. Vítor Duque diz que a maior parte das pessoas internadas com covid-19 neste momento estão vacinadas com duas ou três doses e são as pessoas que mais precisam de cuidados”, continua.

Na margem superior esquerda da gravação há um logotipo com as letras “CM” em vermelho. O vídeo foi retirado de uma notícia transmitida pelo canal de televisão privado português Correio da Manhã (CMTV). Uma busca pela manchete no Google levou à mesma sequência, publicada em 23 de dezembro de 2021 pelo portal multimídia da emissora.

Declarações descontextualizadas

A apresentadora cita como fonte da informação Vítor Duque, diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC), em Portugal, com base em declarações que o médico fez à rádio SIC Notícias e que foram transmitidas em 21 de dezembro de 2021.

Consultado pela AFP em 4 de fevereiro de 2022, Duque destacou que o fragmento de suas declarações foi apresentado por outras emissoras “de uma forma descontextualizada”.

No início do vídeo da SIC Notícias é possível ouvir o médico falando da situação no serviço do qual ele é diretor. “No nosso serviço de infectologia, com equipes dedicadas ao tratamento de doentes com covid, neste momento, a grande maioria tem vacinação completa e alguns têm inclusive (...) terceira dose”, disse o médico.

Duque explicou à AFP que o serviço que dirige “é uma unidade dedicada ao internamento de doentes infetados por SARS-CoV-2, não se tratando de uma unidade de cuidados intensivos onde se encontram os doentes críticos, ou seja, os doentes com elevado risco de morrerem”.

“Mais de 50% dos doentes internados [no Centro Universitário de Coimbra] nessa altura tinham vacinação com duas doses para COVID-19 e a alguns, inclusivamente, tinham 3 doses de vacina (vacinação completa)”, enquanto a maioria dos doentes internados na área dos cuidados intensivos do centro não foram vacinados, explicou o médico do CHUC.

Duque também criticou o uso “abusivo” da entrevista para questionar a eficácia das vacinas.

“Como mais de 90% da nossa população de risco está vacinada, é normal que haja uma maior proporção de doentes internados vacinados”, disse Duque sobre a situação de saúde em Portugal. “A vacinação permite diminuir o risco de doença grave e morte associada à covid-19, mas não a infeção”, lembrou.

Questionado pela AFP, um assessor de imprensa do Ministério da Saúde português informou que os dados sobre internações por covid-19 no país estão disponíveis no relatório de monitoramento da pandemia que é publicado todas as sextas-feiras. A porcentagem de pacientes vacinados e não vacinados do total de internados em centros médicos não aparece nos relatórios semanais publicados em 2022 (1, 2, 3, 4, 5, 6). O que eles mostram é o risco de internação por idade com base nas doses de vacina recebidas.

“Os cidadãos com um esquema vacinal completo tiveram um risco de internamento duas a cinco vezes menor do que os cidadãos não vacinados, entre o total de pessoas infetadas em novembro”, especificou o mais recente relatório de monitoramento da pandemia de coronavírus em Portugal, publicado em 11 de fevereiro de 2022.

“Os cidadãos com um esquema vacinal completo tiveram um risco de morte três a seis vezes menor do que os não vacinados, entre o total de infetados em dezembro”, informou a mesma fonte.

Portugal, país líder em vacinação na Europa

Até o momento da publicação desta checagem, Portugal era o país europeu com maior porcentagem de cidadãos vacinados, com mais de 91% da população com o esquema primário vacinal completo, segundo o Our World in Data, plataforma que utiliza dados de fontes oficiais.

Salvador Macip, pesquisador da Universidade de Leicester, na Inglaterra, e professor de Ciências da Saúde da Universidade Aberta da Catalunha (UOC), comentou à AFP sobre o vídeo viral: “O que se deve observar não é a porcentagem de pessoas que são vacinados em hospitais, porque isso depende diretamente do grau de vacinação em cada país”.

O pesquisador desenvolveu seu argumento com um exemplo: “Em um lugar onde 100% da população é vacinada, 100% dos pacientes do hospital seriam vacinados; da mesma forma que em um país onde ninguém fosse vacinado, o percentual de pessoas vacinadas seria zero”.

O cientista de dados Marcelo Oliveira, vinculado ao Infovid, grupo interdisciplinar dedicado à divulgação de informações científicas sobre a covid-19, usou uma analogia para exemplificar por que é preciso analisar a taxa de incidência em determinada população: “Seria o mesmo que olhar se os que morreram eram canhotos ou destros, ver que destros são 90% dos óbitos e dizer que ser destro é comorbidade. A população no geral é 90% destra”, concluiu.

Apesar do aparecimento de novas variantes do coronavírus e do aumento de infecções na Europa nos últimos meses, as vacinas continuam sendo eficazes no combate a condições médicas graves, como vários especialistas explicaram à AFP em diversas verificações (1, 2, 3).

“Com o surgimento da variante ômicron, a proteção oferecida pelas vacinas é menor para infecção, mas é muito alta para reduzir a mortalidade”, disse à AFP em 2 de fevereiro a epidemiologista e pesquisadora associada do ISGlobal Silvia Sanjosé. “Graças às vacinas, as pessoas que receberam três doses e se infectaram raramente acabam no hospital, ao contrário do início da pandemia”, frisou.

“O número relevante é o percentual de vacinados que acabam no hospital e os dados mostram claramente que a vacina evita muitas internações”, concluiu Macip.

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