O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após testar positivo para a covid-19 em Washington D.C., em 2 de outubro de 2020 (Saul Loeb/ AFP)

Desinformação sobre as supostas medidas de Trump contra Bill Gates, 5G, vacinas e covid-19

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“TRUMP CANCELA PROJETO DE BILL GATES CONHECIDO COMO ‘ID2020’”, asseguram publicações compartilhadas mais de 15,9 mil vezes nas redes sociais, que enumeram as supostas medidas tomadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas, na verdade, a maior parte das decisões mencionadas não existiu ou não ocorreu como está descrito nas postagens.

As publicações, que circulam desde o final de maio no Facebook (1), Instagram (1), Twitter (1) e em sites enumeram nove ou 10 medidas supostamente tomadas por Trump contra Bill Gates e o projeto “ID2020”. As mensagens voltaram a ganhar força em dezembro (1, 2), no momento em que os Estados Unidos deram início à vacinação contra a covid-19.

Postagens com alegações similares também foram encontradas em espanhol, inglês e francês.

Captura de tela feita em 15 de dezembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Veja a seguir a verificação feita pela equipe de checagem da AFP de cada uma das medidas mencionadas nas redes sociais.

1 - “Cancelou o projeto Bill Gates conhecido como ‘ID2020’”: Falso

De acordo com o seu site, o ID2020 ou Aliança Digital pela Identidade não é de propriedade de Bill Gates, pois se trata de uma coalizão de organizações públicas e privadas que nasceu em 2016 para conquistar avanços em um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas: “Fornecer acesso a uma identidade legal para todos”.

Algumas publicações assinalam que a identificação digital significaria a “inserção de um microchip no corpo humano”, mas no site da iniciativa não há qualquer menção ao uso de microchips.

Ethan Veneklasen, diretor de Comunicação da ID2020, disse à equipe de checagem da AFP que “uma em cada sete pessoas em todo o mundo carece de uma forma reconhecida de demonstrar a sua identidade. Isto significa que não podem ter acesso a serviços sociais vitais, exercer seus direitos como cidadãos e eleitores, e participar da economia moderna”.

O objetivo da iniciativa, de acordo com seu site, é fechar essa brecha por meio do desenvolvimento de um sistema digital no qual o indivíduo tenha controle sobre a sua identificação pessoal e seus dados de saúde, e possa ter acesso a eles quando desejar.

A ID2020 está registrada nos Estados Unidos como uma organização sem fins lucrativos, do tipo “501 C3”, de acordo com a lei fiscal do país. Ainda segundo o site, esta é financiada com contribuições do setor privado e de indivíduos.

Entre seus sócios fundadores está a Microsoft, cofundada por Gates, mas também outras como a Accenture, a Fundação Rockefeller e a Gavi (Aliança Mundial para Vacinas e Imunização), organização com sede na Suíça e nos Estados Unidos que recebe financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates para programas de vacinação nos países mais pobres.

O governo dos Estados Unidos não figura como membro da aliança e não há qualquer menção sobre este projeto no site da Casa Branca ou registros de que Donald Trump tenha feito declarações a respeito do tema.

Além disso, como se pode conferir no site da iniciativa, em 15 de dezembro de 2020 ela continuava ativa e, inclusive, recebendo propostas para novos projetos.

2 - “Decretou que as vacinas sejam VOLUNTÁRIAS e não obrigatórias, cabendo aos militares verificar sua pureza e distribuí-las”: Enganoso

Embora Trump já tenha se manifestado contra a vacinação em geral, enquanto presidente seu discurso mudou de direção. Durante um surto de sarampo que afetou o país em 2019, o presidente estimulou que os pais vacinassem seus filhos. “As vacinas são muito importantes”, assegurou.

Durante a pandemia de covid-19, Trump se tornou um dos principais impulsionadores do desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus no país (1, 2, 3).

Em 14 de dezembro, quando uma profissional da saúde recebeu a primeira vacina nos Estados Unidos, Trump se manifestou em seu Twitter: “Primeira vacina administrada. Parabéns EUA! Parabéns MUNDO!”.

A médica Michelle Chester segura a vacina contra a covid-19 no Long Island Jewish Medical Center, em Nova York, em 14 de dezembro de 2020 (Mark Lennihan / AFP)

Nos Estados Unidos a obrigação de se vacinar ou não é definida pelos estados, não pelo governo federal. Em agosto, o epidemiologista e assessor da Casa Branca Anthony Fauci havia indicado que quando houvesse a vacina ela poderia se tornar obrigatória para crianças de acordo com as leis locais.

“É possível torná-la obrigatória para certos grupos de pessoas, como os profissionais de saúde, mas para a população geral não”, assinalou Fauci.

De acordo com os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, a agência oficial encarregada de questões sanitárias, “todos os estados exigem que as crianças sejam vacinadas contra certas doenças contagiosas para serem matriculadas na escola”. Contudo, esclarece que há “exceções por motivos médicos” e algumas por razões religiosas ou filosóficas.

No país não existe em nível nacional uma obrigação de se vacinar na qual o presidente possa intervir.

Além disso, não há evidências de que os militares vão “verificar a pureza” das vacinas no país, ou que já tenham feito isso.

Em maio, Trump chegou a afirmar em uma entrevista coletiva que os militares estariam envolvidos na distribuição da vacina contra a covid-19. Atualmente, o Departamento de Defesa tem se envolvido nos esforços, mas sem agir diretamente na aplicação ou distribuição de doses.

O Centro de Avaliação e Pesquisa Biológica (CBER), dependente da Agência de Medicamentos e Alimentos (FDA), é o órgão encarregado de analisar e aprovar novas vacinas nos Estados Unidos, incluindo as destinadas a prevenir o contágio pelo novo coronavírus.

Segundo o CDC, para ser aprovada, uma nova vacina passa por oito etapas de avaliação e, uma vez aceita, a FDA continua monitorando a sua produção, inclusive depois do fabricante já ter obtido a licença para produzi-la.

No caso da vacina aplicada desde 14 de dezembro, o imunizante da Pfizer/BioNTech obteve uma autorização de uso emergencial pela FDA. Segundo a agência, esta vacina “cumpriu os critérios estatutários” para distribuição no país.

3 - Cortou os fundos para a Organização Mundial da Saúde (OMS) e quer uma investigação completa de suas operações: Verdadeiro

Em um comunicado à imprensa em abril, a Casa Branca pediu uma investigação sobre a “resposta fracassada” da Organização Mundial da Saúde (OMS) à crise do novo coronavírus.

Em maio, o presidente pôs fim à relação dos Estados Unidos com a OMS, à qual acusa de manejar de forma inadequada a crise da covid-19. “O mundo precisa de respostas da China sobre o vírus. Devemos ter transparência”, disse Trump.

A maior parte do orçamento da OMS provém de contribuições voluntárias, que vão diretamente dos países e de outros doadores para o destino escolhido.

Até o momento, os Estados Unidos eram o maior contribuinte da OMS.

4 - “Cancelou o projeto de lei ‘HR6666’ dos democratas, conhecido como Covid-19 TRACE Act (Testing, Reaching And Contacting Everyone) [...]”: Falso

O HR6666, conhecido como TRACE Act, é um projeto de lei apresentado na Câmara de Representantes do Congresso norte-americano em 1º de maio de 2020 sobre a realização de testes diagnósticos de covid-19 e outras ações, como o rastreamento de possíveis infectados por meio de unidades móveis.

Como detalhado no site do Congresso dos Estados Unidos, o projeto foi apenas apresentado, mas ainda não abordado. Portanto, não poderia ser vetado ou “cancelado” pelo presidente, já que ele só pode fazê-lo uma vez que o texto seja convertido em lei pelo Poder Legislativo.

Pesquisas no Google tampouco fornecem resultados que indiquem que Trump tenha feito alguma declaração nesse sentido.

O projeto de lei “autoriza os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças a fornecer subsídios para testes, rastreamento de contatos, monitoramento e outras atividades para abordar a covid-19”, de acordo com o resumo publicado no site do Congresso. “Entidades como centros de saúde federalmente qualificados, organizações sem fins lucrativos e certos hospitais e escolas são elegíveis para receber tais subsídios”.

Prevê, ainda, um fundo de 100 bilhões de dólares a ser administrado pelo CDC, como explicado em um comunicado à imprensa.

5 - “Abriu uma plataforma de denúncia para que a mesma população denunciasse a censura aplicada a ela no Facebook, Twitter e YouTube [...]”: Verdadeiro

Em maio de 2019, a Casa Branca abriu uma plataforma on-line para receber reclamações de usuários que se consideram vítimas de censura por parte das redes sociais. O seu lançamento foi, inclusive, reportado pela AFP.

Entretanto, como o próprio site indica, atualmente não está recebendo novas reclamações e assegura que a “Casa Branca recebeu milhares de respostas”.

Trump, que frequentemente usa a sua conta no Twitter, acusa a empresa de “censurar” os usuários conservadores. Em maio deste ano, seu confronto transformou-se em uma guerra aberta contra esta rede social e derivou na assinatura de um decreto para limitar a proteção legal das redes sociais.

Um dia depois das eleições presidenciais norte-americanas de 3 de novembro, o Twitter marcou como potencialmente enganoso um tuíte de Trump, no qual ele acusava os adversários democratas de tentarem “roubar” as eleições.

6 - “Parou o lançamento do 5G em todo o país”: Falso

Os Estados Unidos proibiram a empresa chinesa Huawei de implementar o 5G em seu território devido à preocupação de que a empresa ficasse sob o controle de Pequim e, assim, pudesse exercer a sua influência e ter acesso a dados sigilosos.

Mas longe de se opor a esta tecnologia, que promete multiplicar por 20 a velocidade das telecomunicações, Trump fez um chamado em várias oportunidades para que os Estados Unidos se tornassem “líderes” no desenvolvimento e implementação do 5G.

“A tecnologia sem fio de quinta geração, ou 5G, será o principal motor da prosperidade da nossa nação e da segurança no século XXI”, assegura um documento publicado pela Casa Branca em março de 2020.

Até o momento, a cobertura 5G está disponível em certas cidades norte-americanas, oferecida por algumas empresas (1, 2 e 3), enquanto os debates sobre a implantação dessas redes estão se aprofundando.

7 - “Emitiu uma ordem executiva para reabrir as atividades comerciais e trabalhistas em todos os estados dos EUA, a ponto de os governadores que se recusarem a serem processados”: Falso

De acordo com o registro federal oficial, o presidente dos Estados Unidos não emitiu nenhum decreto para a reabertura da economia nos estados do país.

Um especialista explicou à AFP que se Trump apresentasse ações contra os governadores por suas ordens de confinamento durante a pandemia, ele provavelmente não ganharia. “Trump não emitiu tal ordem executiva suspendendo as restrições de cada estado em relação à pandemia. Seu poder de afetar as restrições estaduais às atividades durante uma emergência de saúde pública é bastante limitado”, assinalou Keith Whittington, professor de política da Universidade de Princeton.

Em abril, Trump tuitou: “A fim de criar conflito e confusão, alguns da mídia ‘fake news’ estão dizendo que a abertura dos estados é decisão dos governadores, não do presidente dos Estados Unidos e do governo federal. Que fique claro que isto está errado”, e acrescentou: “A decisão é do Presidente”.

Mas Whittington explicou que “a autoridade constitucional dos estados é bastante ampla quando se trata de responder a uma emergência de saúde pública, e os estados estão bastante bem posicionados para vencer a maioria desses desafios legais”. O presidente não tem autoridade constitucional ou estatutária independente para suspender as ordens de saúde pública emitidas por autoridades estaduais.

Buscas no Google por palavras-chave não fornecem nenhum resultado relacionado a governadores que tenham sido processados por se negarem a reabrir a atividade econômica de seu estado durante a pandemia.

8 - “Executou a ordem para que a Casa Branca se encarregasse de todas as redes elétricas que incluam: servidores de Internet, sistemas de transmissão e sistemas eletrônicos”: Enganoso

Em maio, Trump assinou uma ordem executiva para proteger o sistema elétrico dos Estados Unidos e reduzir a sua vulnerabilidade diante de possíveis ataques estrangeiros, proibindo a compra de certos equipamentos de origem estrangeira para a rede elétrica nacional.

Isto, no entanto, não significa que “a Casa Branca está assumindo todas as redes elétricas” do país, como afirmam nas redes sociais.

A decisão proíbe que agências federais e indivíduos “adquiram, transfiram ou instalem equipamentos de sistema elétrico nos quais qualquer país estrangeiro ou cidadão estrangeiro tenha algum interesse e a transação represente um risco inaceitável para a segurança nacional ou para a segurança dos cidadãos norte-americanos”. O governo coloca o manejo dessas operações sob o controle do Departamento de Energia.

Esta decisão inclui artigos usados em subestações de energia, salas de controle ou usinas de energia, incluindo reatores nucleares, condensadores, transformadores, grandes geradores, geradores stand-by e outros equipamentos, mas não servidores de internet nem sistemas de transmissão.

9 - Declarou “serviços essenciais” para locais de culto. Alguns prefeitos estão multando pessoas por irem à igreja: Verdadeiro, mas...

Em maio, Trump pressionou governadores para que abrissem os locais de culto, que permaneciam fechados devido às medidas contra a pandemia de covid-19, os quais classificou de “serviços essenciais”.

[...] Estou corrigindo esta injustiça ao declarar que os locais de culto são essenciais”, expressou o presidente. “Os governadores devem fazer o certo e permitir que estes lugares de fé essenciais, muito importantes, reabram agora mesmo, para este fim de semana”, acrescentou naquele momento.

Esta declaração, no entanto, não fez com que os locais de culto fossem abertos. Nos Estados Unidos, determinar o que constitui um serviço essencial tem sido uma prerrogativa das autoridades de cada estado e locais, ao invés do governo federal, e muitos restringiram celebrações em grupo nas casas de culto para conter a propagação do novo coronavírus.

De acordo com um documento divulgado em abril pela organização sem fins lucrativos Family Research Council, cerca de 40 estados haviam imposto restrições para impedir a disseminação da covid-19.

Meses mais tarde, foi publicado pela mesma instituição um texto que questionava se era o momento dos locais de culto reabrirem e uma lista das igrejas sujeitas a ações das autoridades.

De fato, durante a pandemia, o cenário no país foi diverso. Em algumas áreas os locais de culto abriram, em outras, pastores e sacerdotes celebraram os ofícios ao ar livre.

Como mencionado no artigo do Family Research Council, a decisão de não fechar os templos resultou em multas (1, 2, 3) e mandados de prisão para fiéis, locais de culto e líderes religiosos.

A declaração de Trump não definiu este cenário conflituoso. A decisão de reabrir os templos e como fazê-lo continuou sendo definida pelos estados (1, 2).

10 - “Aplaudiu a Austrália e 116 países por insistirem em uma investigação estrita e rigorosa da China para espalhar o alegado ‘COVID-19’, apesar de várias ameaças da China por rejeitar exportações críticas”: Verdadeiro

Em abril, o governo australiano pediu uma investigação independente sobre a origem e a gestão do novo coronavírus, inicialmente detectado em Wuhan. No mesmo dia, Trump advertiu a China de que haveria “consequências” se o país fosse considerado responsável pela pandemia.

Em setembro, durante uma reunião por videoconferência do Conselho de Segurança da ONU, Zhang Jun, embaixador chinês no organismo, se indignou com os Estados Unidos, que mais uma vez apontaram a China como responsável pela disseminação do coronavírus no mundo.

Segundo relatos da imprensa australiana, o primeiro-ministro Scott Morrison manteve o diálogo sobre o assunto não apenas com Trump, mas também com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Emmanuel Macron, entre outros líderes mundiais.

A resposta chinesa à iniciativa da Austrália foi rápida e incluiu uma série de sanções econômicas, incluindo a possibilidade expressa pelo embaixador chinês em Canberra, Cheng Jingye, de boicotar os produtos australianos.

Em novembro e em meio às tensões entre os dois países, a China impôs medidas antidumping ao vinho australiano, o que as autoridades da Austrália consideraram uma medida “injusta”.

Trump retuitou o artigo de um jornal australiano que noticiava a “coalizão de 116 países que apoia o estímulo da Austrália a uma investigação independente sobre o coronavírus”. E completou: “Estamos com eles!”.

A Assembleia Geral da OMS, em uma resolução, fez um chamado para “iniciar, o quanto antes possível e em consulta com os Estados-membros, um processo gradual de avaliação imparcial, independente e exaustiva” sobre a gestão da pandemia.

O texto foi apoiado pela China, que disse estar aberta a uma investigação independente, liderada pela OMS, a ser realizada após o fim da pandemia.

“A China está aberta para trabalhar com a comunidade científica internacional para identificar a origem do vírus”, declarou no final de maio, em entrevista coletiva, o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi.

Um conteúdo semelhante foi checado pela equipe do Estadão Verifica.

Em resumo, a maioria das 10 supostas medidas tomadas por Donald Trump não existiram ou não ocorreram como foram descritas nas publicações viralizadas nas redes sociais.

Tradução e adaptação
BILL GATES COVID-19 5G