Vídeo de 2017 gravado na Bahia é usado falsamente para ligar o MST a apagão no Amapá em 2020

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Um vídeo de pessoas derrubando redes de transmissão de energia foi compartilhado centenas de vezes nas redes sociais desde o último dia 26 de novembro, afirmando mostrar a ação de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Amapá. Mas isto é falso: a gravação data de novembro de 2017, três anos antes da crise de energia elétrica vivida no estado, e foi registrada em Correntina, na Bahia.

“Militantes do MST destruindo uma estação de transmissão no Amapá. Isso a mídia podre não mostra”, indica a legenda de uma das postagens que contém o vídeo, visualizado milhares de vezes no Facebook (1, 2, 3).

A sequência também circulou no Instagram (1, 2), no Twitter (1, 2, 3) e no YouTube mais de três semanas após um incêndio na subestação elétrica do Amapá, que deixou todo o estado na escuridão. O conteúdo também foi enviado ao WhatsApp do AFP Checamos para verificação.

Nas cenas é possível ver um grupo de pessoas gritando enquanto alguns indivíduos vão na direção dos postes para derrubá-los, enquanto escuta-se: “Deixa o homem derrubar, gente. [...] Empurra pra lá, empurra pra lá”.

Captura de tela feita em 27 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Uma busca reversa no Google pela captura de tela do vídeo obtida por meio da ferramenta InVid-WeVerify* mostrou que o vídeo circula ao menos desde 5 de novembro de 2017 no Facebook e Twitter, e nos dois casos havia uma coincidência de informação: a de que a sequência foi gravada em uma fazenda em Correntina, na Bahia.

Desde então, a gravação foi publicada em outras contas do Facebook e em canais no YouTube (1), nos quais também é assinalado que a cena foi registrada no município baiano de Correntina.

Uma pesquisa pelas palavras-chave “fazenda + Correntina + Bahia + invasão” levou a uma notícia publicada pelo portal de notícias G1 com o mesmo vídeo, que informava sobre a invasão de uma fazenda, de propriedade da empresa Lavoura e Pecuária Igarashi.

De fato, em 4 de novembro de 2017, a empresa agrícola divulgou uma nota de esclarecimento na qual assinala que as suas instalações em Correntina “foram ilegal e arbitrariamente invadidas por indivíduos que, arrebentando cercas, ateando fogo nas instalações, destruindo maquinários, todo sistema de energia, tratores, ameaçando seus colaboradores, promoveram um ato de vandalismo”.

A Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), por sua vez, havia indicado no dia anterior em um comunicado que, “em relação à invasão e a depredação de empreendimentos rurais no município de Correntina [...] esclarece que apoia toda e qualquer manifestação de cunho ambiental, mas repudia veementemente ações violentas e atos de vandalismo”.

Muitas postagens, tanto de 2017 quanto de 2020, associam o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) à ação. Em 6 de novembro de 2017, contudo, a Direção Estadual do MST na Bahia publicou uma nota assinalando que, “enquanto organização popular”, não teve “envolvimento nessa mobilização”, embora tenha reiterado o seu apoio ao que chamou de “ações de denúncia ao agronegócio”.

Devido aos problemas no fornecimento de energia elétrica no Amapá desde o início de novembro de 2020, as autoridades tentavam restaurar lentamente o abastecimento de eletricidade na maior parte das cidades. Em 24 de novembro, governo federal e a distribuidora indicaram que o rodízio do fornecimento de energia havia sido encerrado e que o serviço estava normalizado.

Um conteúdo semelhante foi checado pelas equipes do Estadão Verifica, da Agência Lupa, do Boatos.org e do E-farsas.

Em resumo, é falso que o vídeo em que várias pessoas derrubam redes de transmissão de energia mostre militantes do MST no Amapá. A gravação data de novembro de 2017, quando uma fazenda na cidade de Correntina, na Bahia, foi invadida. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, naquela ocasião, negou que a organização tivesse participado da ação.

*Uma vez instalada a extensão InVid-WeVerify no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre a imagem e o menu que aparece oferece a possibilidade de pesquisa da mesma em vários buscadores.