Vídeo não mostra vacinação “sem agulha” em Israel, mas simulação para produção de imagens

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Um vídeo em que uma profissional de saúde parece aplicar uma vacina sem utilizar uma agulha foi compartilhado centenas de milhares de vezes em redes sociais desde o final de 2020 para questionar a veracidade das campanhas de imunização contra a covid-19. No entanto, o vídeo foi cortado e tirado de contexto. Na versão completa, o oficial israelense Beni Ben Muvchar primeiro recebe a vacina, depois simula o momento novamente para gravar uma mensagem citando o serviço de saúde responsável pela vacinação.

“Cadê a agulha? Me engana que eu gosto. Se nem eles tem coragem de tomar a vacina chinesa imagina eu”, diz uma das postagens, compartilhadas mais de 203 mil vezes no Facebook (1, 2, 3), Instagram (1, 2, 3) e Twitter desde 26 de dezembro de 2020.

As publicações acompanham um vídeo de 29 segundos no qual uma profissional de saúde parece aplicar uma vacina em um homem que fala hebraico. Não é possível ver uma agulha e a enfermeira não aperta o êmbolo da seringa para administrar o imunizante. “São capazes de tudo para vender a vacina que eles mesmos não confiam... Tire suas conclusões!”, diz outro usuário. 

Captura de tela feita em 5 de janeiro de 2021 de uma publicação no Facebook

O vídeo, que também circula em espanhol e sérvio, é real, mas foi cortado e tirado de contexto.

Nos comentários de uma das publicações, um usuário questionou a alegação viralizada publicando o link de uma postagem feita pelo portal de notícias israelense Rotter.net, no Facebook.

Na publicação de 24 de dezembro, o veículo afirma que na noite anterior havia publicado um vídeo do chefe do Conselho Regional de Mevoot Hermon, Beni Ben Muvchar, em que uma enfermeira parece segurar uma seringa sem agulha e sem material imunológico, encorajando os cidadãos a se vacinarem.

“Em retrospectiva, descobriu-se que a parte que foi distribuída é uma parte cortada. Ben Muvchar foi de fato vacinado em frente às câmeras, mas foi convidado a fazer um vídeo novamente e mencionar o 'Clalit'”, acrescentou o site de notícias, em referência a uma das organizações de serviço de saúde mandatadas pelo Estado de Israel.

A publicação é ilustrada com o vídeo completo, de 1 minuto e 11 segundos, no qual a mesma enfermeira é vista vacinando o oficial israelense, desta vez pressionando o êmbolo da seringa e com uma agulha visível.

“Queridos amigos, boa tarde aos habitantes da Galileia e do Golã. Hoje, estou recebendo a vacina como chefe do conselho dos municípios da Galileia Oriental. Recomendo que todos venham rapidamente e recebam a vacina pelo bem de sua saúde, de sua família e de todo o país. Muito obrigado e boa sorte”, diz Ben Muvchar em hebraico, enquanto é vacinado.

Em seguida, ouve-se a voz de uma mulher dizendo: “Não dá para falar pelo menos uma palavra sobre o Clalit? Vamos fazer de novo. Ela [a enfermeira] vai fingir que vai dar de novo”. Após todos rirem, a profissional de saúde pega uma seringa e finge aplicar novamente a vacina, enquanto Ben Muvchar repete a mensagem:

“Boa tarde aos habitantes da Galileia. Caros amigos, estou recebendo a vacina hoje como chefe do conselho da Galileia Oriental e recomendo que todos os habitantes da Galileia e do Golã recebam a vacina, venham, não esperem, pelo bem de sua saúde e, claro, muito obrigada Ronit [enfermeira] pelo serviço com o Clalit na Alta Galileia”, finaliza o oficial.

O próprio Ben Muvchar publicou o vídeo completo em sua página no Facebook em 23 de dezembro, esclarecendo: “Para todos os interessados, tomei a vacina contra o coronavírus ontem. Atendi o pedido do Clalit para dizer uma boa palavra e viralizei”.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foi o primeiro a receber a vacina contra a covid-19 no país, onde mais de 450 mil pessoas foram infectadas e mais de 3.400 faleceram em decorrência da doença, segundo levantamento da AFP. A campanha de vacinação começou em 19 de dezembro e as autoridades planejam vacinar um quarto da população no primeiro mês.

Ao contrário do afirmado em algumas publicações viralizadas, a vacina aplicada em Israel não é a “chinesa”, mas o imunizante desenvolvido pela farmacêutica norte-americana Pfizer e pela companhia alemã BioNTech.

A equipe de checagem da AFP já verificou outras publicações que sugeriam que figuras públicas estavam fingindo receber a vacina contra a covid-19, ou que os testes destes imunizantes eram forjados.

Em resumo, o vídeo compartilhado para questionar a veracidade das campanhas de imunização contra a covid-19 foi cortado e tirado de contexto. Na gravação completa é possível ver que o oficial israelense Beni Ben Muvchar recebe a vacina e, posteriormente, simula o momento novamente para gravar uma mensagem citando o serviço de saúde Clalit.

Tradução e adaptação
COVID-19 Vacinas