São falsas as afirmações sobre a pandemia do advogado Reiner Fuellmich replicadas nas redes

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Publicações compartilhadas milhares de vezes em redes sociais desde meados de outubro replicam a alegação, feita pelo advogado alemão Reiner Fuellmich, de que teriam sido cometidos “crimes contra a humanidade” durante a gestão da crise do novo coronavírus no mundo. De acordo com as postagens, a pandemia atual é “uma fraude”, uma vez que os testes PCR não detectam a infecção causada pelo Sars-CoV-2. Esta afirmação, como muitas outras difundidas por Fuellmich, é falsa, como explicaram especialistas consultados pela AFP.

“OMS é acusada de crimes contra a humanidade por fraude na pandemia”, começa uma das publicações, compartilhadas mais de 10 mil vezes no Facebook (1, 2, 3) e Instagram desde 22 de outubro.

O texto continua, detalhando que a denúncia foi feita pelo advogado alemão Reiner Fuellmich, segundo o qual há indícios de que a pandemia de covid-19 “não passa de uma pandemia de testes”, já que os exames PCR não seriam capazes de identificar uma infecção causada pelo novo coronavírus. “Se os testes forem inflados, temos números falsos”, concluem as postagens. 

Captura de tela feita em 27 de outubro de 2020 de uma publicação no Instagram

A denúncia citada nas redes foi feita por Fuellmich, em inglês, em um vídeo de 49 minutos publicado no YouTube, no último dia 3 de outubro. Antes de ser removido da plataforma por violar seus termos de serviço, a gravação foi visualizada aproximadamente um milhão de vezes.

O vídeo do advogado, ou trechos dele, também foram legendados em português (1, 2, 3), espanhol e francês.

Quem é Reiner Fuellmich

Fuellmich foi admitido na Ordem dos Advogados da Alemanha em 1992 e tem um escritório de advocacia na cidade de Göttingen.

Ao longo dos anos, apresentou queixas relevantes, como uma ação coletiva contra o banco HypoVereinsbank, em 2010, na qual representou 4.500 clientes da instituição financeira. Junto ao advogado de Hamburgo Michael Bondorf, Fuellmich também processou o Deutsche Bank.

O advogado menciona estes processos em seu vídeo e anuncia que pretende iniciar uma nova ação coletiva junto a uma rede de advogados. No site do “Corona-Schadensersatzklage” (Reclamação por danos Corona, em tradução livre), informa que essa é uma ação coletiva que pode ser movida nos Estados Unidos, ou no Canadá. Um processo na Alemanha também é citado como uma possibilidade.

Como explica no site, a ação seria dirigida contra o virologista alemão do hospital Charité de Berlim Christian Drosten, que teria “enganado” as pessoas ao afirmar que os testes PCR são capazes de detectar uma infecção pelo Sars-CoV-2. Para quem quiser aderir ao processo, os advogados cobram uma taxa de 800 euros e, posteriormente, 10% do valor eventualmente ganho.

Fuellmich também está envolvido em um processo contra a gestão da pandemia de covid-19 pelo governo alemão. Ele é co-fundador do chamado “Comitê Corona”. Com outros três advogados, ele procura esclarecer se as medidas adotadas para combater o novo coronavírus eram necessárias. Segundo o relatório do grupo, eles também procuram culpados pelos chamados “danos colaterais” que teriam sido provocados pelas ações tomadas para prevenir a propagação da covid-19.

As alegações de Fuellmich replicadas nas redes são, contudo, falsas, segundo especialistas consultados pela AFP. Abaixo, detalhes da verificação.

Os testes PCR não são capazes de detectar a infecção provocada pelo Sars-Cov-2. Falso

Este é o principal argumento de Fuellmich para apresentar a pandemia de covid-19 como uma “fraude”. De acordo com o advogado, o teste PCR, utilizado em todo o mundo para determinar se um paciente é, ou não, portador do vírus no momento em que é feito o exame, é “incapaz de diagnosticar qualquer doença”.

Isso não é verdade. Como já explicado pela AFP em duas outras verificações (1, 2), os testes PCR são projetados especificamente para detectar esse vírus.

Realizado por meio de uma amostra de secreção nasal, o teste PCR “detecta a presença do genoma do vírus e isso é indiscutível”, explicou à AFP, em julho, Juan Carballeda, pesquisador do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisa e Técnica Científica) e membro da Associação Argentina de Virologia.

Também contatado pela equipe de checagem da AFP, o médico e doutor em Microbiologia Juan Sabatté reiterou que o teste PCR “detecta as sequências de RNA específicas presentes no RNA do vírus Sars-Cov-2”.

Atualmente, “estimamos que a especificidade dos RT-PCR seja da ordem de 99%”, afirmou Cédric Carbonneil, chefe do serviço de avaliação dos atos profissionais da Alta Autoridade de Saúde francesa (HAS), o que torna extremamente raros os resultados “falso positivos”.

A especificidade é a capacidade de um teste de identificar adequadamente um vírus específico e de não confundi-lo com outro patógeno.

Para verificar a especificidade de um teste PCR, “nós pegamos outras amostras, conhecidas por conter outros vírus como o da gripe ou o rinovírus, e verificamos que nosso PCR não detecta os outros vírus respiratórios, mas apenas a covid-19”, explicou Vincent Enouf, do Instituto Pasteur.

A OMS mudou a definição de pandemia um pouco antes do aparecimento do vírus influenza. Enganoso

Como citado nas redes, Fuellmich alega, no vídeo publicado no YouTube, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou a definição de pandemia, de uma “doença que se espalha globalmente e causa muitas infecções e mortes” para “uma doença que apenas se espalha globalmente”.

De acordo com Fuellmich, a suposta mudança ocorreu 12 anos atrás. “Devido a esta alteração, a OMS, que tem laços estreitos com a indústria farmacêutica global, pôde declarar a pandemia de gripe suína, em 2009”, diz o advogado no vídeo.

A alegação de que a OMS teria mudado a definição de uma pandemia de influenza, vírus da gripe que possui múltiplos subtipos, circulou amplamente nos anos que seguiram a pandemia da gripe suína e foi negada, na época, pela própria Organização Mundial da Saúde.

“A OMS não mudou sua definição de pandemia de influenza, pela simples razão de que nunca havia definido formalmente uma pandemia de influenza”, disse, em nota publicada em julho de 2011.

Procurados pela equipe de checagem da AFP para outra verificação no contexto da pandemia de covid-19, porta-vozes da OMS reiteraram que a organização não possui uma definição oficial para o termo pandemia, mas que se baseia no documento “Guia da OMS para basear e harmonizar medidas nacionais e internacionais para preparação e resposta a uma pandemia”, elaborado em 2017 para pandemias de gripe.

Este guia é a atualização de dois documentos anteriores, de 2009 e 2005, que incluem a caracterização de uma série de fases para guiar a ação de autoridades no caso do surgimento de uma pandemia.

Segundo detalhou a OMS em seu site, foram feitas alterações nas descrições das fases de uma pandemia entre o documento de 2005 e 2009, mas para “torná-las mais fáceis de entender, mais precisas, e baseadas em fenômenos observáveis”.

A equipe de checagem da AFP não identificou a mudança descrita por Fuellmich nestes dois documentos.

Outros argumentos apresentados por Fuellmich no vídeo que originou as publicações compartilhadas nas redes também são falsos, como demonstrado abaixo:

“O coronavírus não provocou qualquer sobremortalidade em parte alguma do mundo”. Falso

De acordo com Reiner Fuellmich “em lugar algum se registrou um aumento na mortalidade” depois da aparição do novo coronavírus.

“O alegadamente ‘novo’ e ‘altamente perigoso’ coronavírus não provocou qualquer sobremortalidade em parte alguma do mundo e certamente não aqui, na Alemanha”, assegura, no início do vídeo.

Embora seja verdade que os números não mostram um aumento significativo de mortalidade na Alemanha este ano, é falso afirmar que nenhum país registrou excesso de mortalidade durante a pandemia de covid-19.

Múltiplos estudos demográficos provam o contrário.

Um levantamento publicado em julho e conduzido na Itália com métodos utilizados frequentemente para mensurar a mortalidade da gripe sazonal mostrou que, em março, o número de mortes no país dobrou em comparação com os anos anteriores.

Na Bélgica, um estudo semelhante concluiu que, em abril de 2020, a mortalidade se aproximou pela primeira vez dos níveis registrados no país durante a Segunda Guerra Mundial.

Na França, o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos (Insee) explicou em 18 de setembro de 2020 que “ao longo dos últimos 20 anos, na França metropolitana, dois eventos provocaram um forte aumento de mortes: a onda de calor do verão de 2003 e a covid-19, na primavera de 2020”.

No indicador europeu Euromomo, que reúne e compara os dados oficiais de mortalidade dos 24 países europeus, também é possível identificar claramente que os picos de mortalidade observados nos países mais afetados pela pandemia são entre 1,5 e 4 vezes superiores à mortalidade registrada durante os períodos habituais de gripe no inverno. 

Captura de tela do site Euromomo feita em 9 de outubro de 2020

Já no Brasil, dados do Portal da Transparência do Registro Civil, consultados em 27 de outubro, indicam que houve um aumento de mais de 122 mil mortes, ou cerca de 12%, entre janeiro e setembro deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.

Médicos pagos para declarar uma pessoa falecida como vítima de covid-19? Rumores desmentidos

O autor do vídeo também cita, sem fornecer fontes, “numerosos relatos críveis” de que “médicos em hospitais por todo o mundo teriam recebido dinheiro para declarar uma pessoa falecida como uma vítima do Covid-19, ao invés de registrarem a verdadeira causa de morte na certidão de óbito”.

No entanto, rumores semelhantes circularam em ao menos três países europeus e foram, todas as vezes, desmentidos pelas autoridades de saúde, hospitais e médicos envolvidos.

Em maio, publicações falsas afirmavam que os médicos britânicos estavam recebendo 120 libras para declarar uma morte por covid-19, em vez de 75 libras para um certificado de óbito mencionando outra causa da morte.

Na verdade, médicos não recebem qualquer pagamento para preencher uma certidão de óbito, independentemente da causa da morte, explicou a Associação Britânica de Medicina à equipe de verificação da agência Reuters.

Na Bélgica, postagens que mencionavam um “subsídio de 5.000 euros pago por cada morte provocada pelo vírus” circularam no Facebook no final do mês de agosto. Múltiplos hospitais belgas, assim como as autoridades federais, negaram veementemente esta alegação, em uma de nossas verificações.

Por fim, na França, os rumores envolviam entre 55 e 5 mil euros de “incentivos financeiros” para “marcar a caixa covid” em certidões de óbito.

Uma “fantasia”, segundo o Dr. François Simon, representante da Ordem de Médicos do país. “É preciso não ter qualquer ideia do que é a contabilidade pública para imaginar um mecanismo para subtrair e distribuir tais quantias”, afirmou à AFP em 5 de outubro.

Em resumo, é falsa a alegação, feita pelo advogado alemão Reiner Fuellmich e amplamente replicada nas redes sociais, de que a pandemia de covid-19 é uma farsa. A argumentação do advogado se baseia em dois pontos principais, a de que os testes PCR não são capazes de detectar a infecção pelo Sars-CoV-2 e a de que o novo coronavírus não causou sobremortalidade em nenhum lugar do mundo. Ambas são falsas, como explicado por especialistas e demonstrado por números de vários países.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
CORONAVÍRUS