Nem os lobos doentes vão na frente nem o líder é o último do grupo: veja a explicação

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A imagem de uma alcateia usada para explicar a hierarquia e o comportamento social dos lobos foi compartilhada mais de 254 mil vezes nas redes sociais desde, ao menos, dezembro de 2015 e voltou a circular recentemente. As publicações afirmam que os lobos doentes vão na frente, enquanto o “líder” ou o “alfa” é o lobo solitário que vai por último. Mas, tanto especialistas consultados pela AFP, quanto o autor da foto, descartaram que ela mostre um comportamento social como é alegado nas postagens e que este tipo de papel exista na espécie.

“O exemplo dos Lobos - Os 3 primeiros são os mais velhos ou os doentes e marcam o ritmo do grupo. [...] Eles são seguidos pelos 5 mais fortes que os defenderão em um ataque surpresa. No centro seguem os demais membros da alcateia, e no final do grupo seguem os outros 5 mais fortes que protegerão o grupo. Em último, sozinho, segue o lobo ‘alpha’, o líder da alcateia [...], indica parte do texto de uma das publicações, compartilhadas milhares de vezes no Facebook (1, 2, 3) ao menos desde dezembro de 2015 e que voltou a aparecer em 2020.

A fotografia e a explicação também registraram mais de 257,7 mil curtidas no Instagram (1, 2, 3) ao longo dos anos, e circularam no Twitter (1, 2, 3) e em outros idiomas, como espanhol.

O texto acompanha uma foto na qual observa-se uma alcateia de 25 lobos em uma paisagem coberta de neve com marcações sobre os diferentes grupos para explicar a suposta hierarquia e o comportamento social de cada um deles.

Captura de tela feita em 23 de outubro de 2020 de uma publicação no Instagram

Uma busca pela imagem no Google levou a uma galeria do jornal britânico The Guardian, com data de 19 de outubro de 2011, na qual são mostradas algumas fotos como trailer do documentário “Frozen Planet”, transmitido pela BBC naquele ano. Entre as imagens, aparece a de uma alcateia, com crédito a Chadden Hunter, diretor e produtor da Natural History Unit da emissora.

A descrição da foto indica: “uma enorme matilha de 25 lobos caçando bisontes no Círculo Polar Ártico, ao norte do Canadá. Em meio ao inverno no Parque Nacional de Wood Buffalo, as temperaturas chegam a -40ºC. A alcateia, liderada pela fêmea alfa, viaja em fila única pela neve profunda para economizar energia. O tamanho da matilha é um sinal de quão rica é a sua base de presas no inverno, quando os bisontes estão mais vulneráveis pela má alimentação e pela profundidade da neve. As alcateias neste Parque Nacional são as únicas do mundo especializadas em caçar bisontes, que têm 10 vezes o seu tamanho. Evoluíram até se tornar os maiores e mais fortes lobos do mundo”.

A imagem, contudo, não faz parte dos fotogramas transmitidos no documentário, que mostra em uma sequência como a mesma matilha ataca um grupo de bisontes no Parque Nacional de Wood Buffalo.

Para ter uma explicação mais completa além da descrição, a equipe de checagem da AFP entrou em contato com o etólogo e especialista em lobos David Nieto Maceín, que escreveu sobre este assunto em seu blog em 2015.

“Os grupos de lobos são compostos pelo casal reprodutor e seus filhotes, ou seja, de seus descendentes da última ninhada e, talvez, da anterior. Em grupos tão grandes como o desta foto, que caçam bisontes, costuma haver alguns acrescidos, que são lobos espalhados de outros grupos (são os que, quando completam um ano, se dispersam e vão buscar um território e uma parceira para formar uma família)”, explica o etólogo.

“Neste caso, quem vai na frente é a fêmea reprodutora e os demais são, simplesmente, os lobos que vão seguindo a reprodutora. Ficam em fila única para uma economia de esforço. Quando vão pela neve, os lobos seguem o caminho de outros”, continua.

Por último, sobre a hierarquia e o comportamento social, Nieto Maceín afirma que na natureza “não existem os feridos, os idosos, ou os doentes. Na vida selvagem pode haver eventualmente um doente, mas os doentes e fracos morrem”.

Por isso, ao contrário do que dizem as publicações, o ritmo não é marcado pelos doentes, mas “pelo pai ou pela mãe, que, neste caso, é a líder do grupo. Não sei se havia um macho reprodutor ou se havia morrido”, assinala Nieto Maceín.

O especialista também descarta que existam outros subgrupos na matilha, como afirmam publicações.

Na mesma linha, o veterinário e divulgador Eugenio Fernández Suárez assegura que “os lobos não são animais entre os quais existe um cuidado especial com animais mais velhos ou doentes, e não é uma conduta natural garantir que ninguém fique atrás. O certo é que esses animais precisam de pouca proteção, pois são um dos maiores grupos carnívoros terrestres no planeta”.

“Em geral, sabendo das bases de comportamento desses animais, o texto [das postagens viralizadas] é um exemplo claro de antropomorfismo”, considerou. “Os animais têm hierarquias estabelecidas, mas a maioria dos lobos vive em unidades familiares e, embora existam exceções em que se juntam grandes grupos como o da foto, não têm organização semelhante”.

Na sua opinião, este tipo de discurso é pensado para “para fazer coaching empresarial”, mas não para explicar os métodos de caça dos lobos.

Em 2015, o site de verificação norte-americano Snopes publicou um artigo sobre o tema.

Em resumo, a imagem de uma matilha de 25 lobos registrada em 2011 no Parque Nacional de Wood Buffalo, no Canadá, não mostra a hierarquia e o comportamento social dos lobos. Trata-se de um grupo de dimensões extraordinárias formado para caçar bisontes. Além disso, os lobos se organizam entre o casal reprodutor e seus descendentes.

Tradução e adaptação