Os vídeos de funcionários transcrevendo cédulas nos EUA mostram um processo legítimo, não fraude

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Dois vídeos que supostamente mostram funcionários de uma seção eleitoral na Pensilvânia preenchendo cédulas de maneira fraudulenta durante as eleições dos Estados Unidos foram visualizados mais de 65 mil vezes em redes sociais desde 6 de novembro. No entanto, as pessoas vistas nas imagens estavam transcrevendo cédulas danificadas durante o processamento dos votos, uma prática padrão, segundo representantes do condado de Delaware, que indicaram que as gravações foram editadas propositalmente para omitir os observadores de ambos os partidos que supervisionaram o processo.

“Fraude na Pensilvânia. No condado de Delaware, imagens ao vivo do Computer Center estão gravando como os oficiais de mesa preenchem cédulas vazias com o primeiro campo, que na Pensilvânia é Joe Biden”, diz uma publicação no Facebook, ilustrada por um vídeo em que um homem e uma mulher revisam e preenchem papéis.

“Mesários dos EUA foram flagrados preenchendo votos para Biden!!! #VotoImpressoEm2022”, escreveu outra usuária no Twitter ao publicar o mesmo vídeo, com uma narração em inglês que assegura que a polícia também estaria envolvida na suposta fraude já que, estando presente na sala, não fez nada para evitar a atividade dos funcionários.

Um segundo vídeo que também teria sido gravado no centro de informática de Delaware circulou amplamente no Facebook, Instagram e Twitter. “Imagens [...] mostram o momento preciso em que um contador de cédulas preenche uma série de cédulas vazias com uma caneta antes de colocá-las na pilha contada”, diz uma das publicações. 

Capturas de tela feitas em 11 de novembro de 2020 de publicações no Facebook

Fraude em pleno centro de informática?

Os vídeos, de fato, foram gravados na seção eleitoral do condado de Delaware, Pensilvânia, durante as últimas eleições presidenciais norte-americanas, como comprovou a equipe de checagem da AFP ao consultar a transmissão ao vivo da contagem de votos, disponível no site do governo local.

A mesma seção eleitoral emitiu um comunicado no último dia 6 de novembro, quando começou a circular a alegação de que os mesários estariam preenchendo cédulas vazias e cometendo fraudes.

“Um vídeo manipulado que pretende mostrar funcionários eleitorais do condado de Delaware preenchendo cédulas em branco de maneira fraudulenta está circulando na Internet”, diz a nota, que detalha que o vídeo foi recortado de modo a ocultar a área circundante, onde observadores dos partidos Republicano e Democrata controlavam o processo.

“O vídeo real [...] mostra uma sala cheia de pessoas com observadores de ambos os partidos a poucos metros de distância de cada lado da mesa, observando de perto o trabalhador. Isso foi acordado entre a Mesa Eleitoral e o ex-presidente republicano do Conselho do Condado de Delaware, atuando na qualidade de advogado do Partido Republicano do Condado de Delaware”.

A transmissão ao vivo da contagem de votos no condado de Delaware foi realizada com 11 câmeras “para oferecer uma visão transparente do processo”.

O comunicado inclui uma captura de tela da câmera 1, na qual é possível ver a quantidade de pessoas presentes no centro de informática e ao redor de uma das mesas que aparecem nos vídeos viralizados. 

Captura de tela da transmissão ao vivo da contagem de votos no centro de informática da seção eleitoral de Delaware. A marcação é da AFP.

Correção à mão

O comunicado do condado explica que os trabalhadores eleitorais estavam, na verdade, transcrevendo manualmente cédulas que haviam sido danificadas após passarem por uma máquina utilizada para abrí-las.

As cédulas danificadas não podem ser escaneadas e, por isso, é preciso “transcrever esses votos para uma cédula limpa e escanear a cédula limpa”.

“Infelizmente, alguns moradores [...] estão fazendo acusações falsas em um ataque sem fundamento e indevido contra a integridade dos funcionários e do processo eleitoral, completamente transparente, pelo qual são contados os votos no condado de Delaware”, diz a nota.

Patrick Christmas, integrante da equipe diretora do Comitê dos Setenta, que tem monitorado as eleições na Pensilvânia há mais de um século, disse à AFP por e-mail que os vídeos mostram um processo conhecido como “recriação da cédula eleitoral, realizado em equipes de dois e documentado de tal maneira que a cédula duplicada permite localizar a original”.

Michael Hagen, professor associado de Ciências Políticas da Universidade de Temple, na Filadélfia, indicou à equipe de verificação da AFP que a contagem de cédulas “implica que democratas e republicanos trabalhem juntos, com a intenção de que cada um supervisione o outro”.

Os detalhes do processamento de cédulas na Pensilvânia podem ser vistos neste vídeo.

Funcionários do governo e observadores da Pensilvânia enfatizaram repetidamente a integridade do processo eleitoral do estado.

“Contamos com processos  muito sólidos que garantem que a integridade e a segurança da votação sejam constantemente respeitadas em cada condado do estado”, disse a secretária da Commonwealth da Pensilvânia, Kathy Boockvar, em uma coletiva de imprensa em 5 de novembro.

Na noite anterior, o atual presidente e então candidato republicano Donald Trump denunciou pela primeira vez a existência de uma fraude no pleito e alegou que os democratas estariam tentando “roubar a eleição”. Em 10 de novembro, após a vitória do candidato democrata Joe Biden, Trump continuava denunciando fraude em suas redes sociais e bloqueia, até o momento, o processo de transição.

Em um ano em que os eleitores norte-americanos recorreram em número recorde ao voto por correio, considerado mais seguro devido à pandemia de covid-19, a AFP verificou múltiplas denúncias sobre uma suposta fraude nas eleições presidenciais, como a manipulação dos números a favor de Biden em Michigan, ou a queima de votos para prejudicar Donald Trump.

Em resumo, é falso que os vídeos compartilhados nas redes “provem” que os trabalhadores das seções eleitorais do condado de Delaware, na Pensilvânia, tenham preenchidos votos em branco de maneira fraudulenta. Na verdade, eles estavam transcrevendo cédulas danificadas para que elas pudessem ser contabilizadas e todo o processo contou com a supervisão de integrantes dos partidos Democrata e Republicano.

Tradução e adaptação
AFP Brasil
Eleições EUA 2020