O ex-primeiro-ministro francês renunciou após ser eleito prefeito; o ministro da Saúde segue no cargo

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Publicações compartilhadas mais de 4,1 mil vezes nas redes sociais desde 9 de julho de 2020 indicam que uma acusação feita pelo médico francês Didier Raoult fez com o que o então primeiro-ministro do país, Edouard Philippe, e o ministro da Saúde, Olivier Véran, renunciassem aos seus cargos por terem impedido que a população usasse hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19. Mas isto é falso. Philippe, de fato, deixou o governo, mas após ter sido eleito prefeito da cidade de Le Havre. Véran, por sua vez, segue comandando a pasta.

“*Tributo a um Herói Mundial ! Na França, os que impediram que a população fosse tratada com a Hidroxicloroquina, irão responder na Justiça. Acusação do médico Didier Raoult derrubou o 1° Ministro da França e o Ministro da Saúde. Os dois renunciaram. Que aconteça o mesmo no Brasil, onde o STF, governadores, prefeitos e médicos criminosos precisam responder pelas 50 mil vítimas fatais da Covid-19.* [sic], afirma o texto viralizado no Facebook (1, 2, 3), que por vezes é acompanhado da imagem de Raoult na capa de uma revista.

A mesma alegação também circulou no Twitter (1, 2, 3) e no Instagram (1, 2).

Captura de tela feita em 22 de julho de 2020 de uma publicação no Facebook

A imagem de Raoult usada nas publicações viralizadas corresponde à capa da edição 3.699 da revista francesa semanal Paris Match, de 25 de março de 2020. Nela, pode-se ver a manchete, em tradução livre para o português: “O professor Raoult encontrou a cura? Com um medicamento contra a malária, ele dá esperança e cria polêmica”.

Em fevereiro deste ano, quando a França registrava cerca de 100 casos de COVID-19, foi divulgado um estudo clínico chinês que mostrava sinais de eficácia da cloroquina contra o novo coronavírus. Na época, o pesquisador francês declarou: “Sabíamos que a cloroquina era eficaz in vitro contra o novo coronavírus e a avaliação clínica realizada na China confirmou”.

Um mês depois, o próprio Raoult publicou uma análise sobre a hidroxicloroquina, associada à azitromicina, que, segundo ele, confirmava a “eficácia” do tratamento contra o novo coronavírus.

Posteriormente, uma série de estudos (1, 2, 3, 4) surgiram, contudo, indicando que a cloroquina e a hidroxicloroquina estavam se mostrando ineficazes no combate à COVID-19, tanto em casos leves como em casos graves, e que os efeitos colaterais destes medicamentos seriam consideráveis.

Em maio, o governo francês proibiu oficialmente o uso da hidroxicloroquina para tratar a COVID-19 nos hospitais, depois que dois organismos responsáveis pela saúde pública no país se declararam contrários à utilização da substância, excetuando-se em ensaios clínicos.

Em junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu as pesquisas que estava realizado para avaliar a eficácia da hidroxicloroquina contra a COVID-19.

Primeiro-ministro e ministro da saúde deixam o cargo?

Diferentemente do que afirmam as publicações viralizadas, o então primeiro-ministro Edouard Philippe e o ministro da Saúde, Olivier Véran, não renunciaram aos seus cargos após acusações feitas por Raoult.

O governo da França passou por uma recente remodelação após o partido do presidente Emmanuel Macron - A República em Marcha (LREM, em francês) - sofrer uma derrota nas eleições municipais do último dia 28 de junho.

O então primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, e o ministro da Saúde, Olivier Verán, em Paris, em 25 de maio de 2020

Nesta votação, o agora ex-premiê Edouard Philippe foi eleito prefeito da cidade portuária de Le Havre, seu reduto eleitoral, fazendo com que ele tivesse que optar por um dos dois cargos.

Assim, em 3 de julho, Philippe apresentou a sua renúncia ao cargo. A Presidência não anunciou os motivos da demissão, mas uma mudança de gabinete era esperada após o resultado nas eleições municipais.

O Ministério da Saúde francês, por sua vez, sofreu uma mudança ainda em fevereiro, quando a então ministra Agnès Buzyn assumiu como candidata à Prefeitura de Paris no lugar de Benjamin Griveaux, que teve um vídeo íntimo vazado. Assim, Olivier Véran ficou com o comando da pasta da Saúde.

Apesar das últimas mudanças no governo de Macron, Véran permanece no cargo.

No início do mês de julho, a Justiça francesa abriu uma investigação sobre a gestão da crise do coronavírus contra Edouard Philippe, Olivier Véran e Agnès Buzyn. Desde o início da pandemia, o Executivo tem sido alvo de críticas.

Essa ação, contudo, não tem qualquer relação com o médico Didier Raoult, ou uma acusação feita por ele.

O Checamos já verificou outra desinformação a respeito do médico francês Didier Raoult.

Em resumo, é falso que o então primeiro-ministro Edouard Philippe e o ministro da Saúde, Olivier Véran, tenham renunciado aos seus cargos após uma acusação feita pelo médico Didier Raoult. Philippe realmente deixou de ser premiê, mas após ser eleito prefeito de Le Havre, impossibilitando-o de permanecer em ambos os cargos. O ministro da Saúde, por sua vez, segue no comando da pasta.

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